DUALISMO GREGO vs UNIDADE DO SER
Augusto Comte, criador da doutrina positivista, afirmou que “os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mortos; tal é a lei fundamental da ordem humana”. A afirmação é verdadeira. Vivemos em sistemas, usamos determinado vocabulário ou possuímos certas opiniões que são oriundas de concepções daqueles que nos precederam, ainda que não nos demos conta desse fato. Nossa cosmovisão é formada por elementos os quais herdamos, talvez sem ao certo sabermos a procedência.
Um bom exemplo é a cultura helênica. Na política, temos presente o conceito da democracia, com seu berço em Atenas. Na Teologia, determinadas interpretações do texto bíblico altamente influenciadas pelo pensamento grego. Na Filosofia, simplesmente um pilar da civilização ocidental.
Para falar do porquê de tamanha influência do helenismo, precisamos abordar a história de um homem chamado Alexandre. Ele foi um importante rei da Macedônia, que viveu no século IV a.C. Em apenas 33 anos de vida, Alexandre, o Grande – também conhecido como Alexandre Magno ou Alexandre III –, formou um enorme império, que ia do sudeste da Europa até a Índia. Por isso, ele é considerado o maior líder militar da Antiguidade.
Por ter sido educado pelo filósofo grego Aristóteles dos 13 aos 16 anos, Alexandre tinha uma grande admiração pela cultura helênica. “Era preocupação de Alexandre difundir a cultura grega (helênica) por cada lugar que passava. A união de todo o Mediterrâneo oriental sob o seu comando propiciou a criação de uma cultura única em que traços gregos foram misturados a traços regionais. Além disso, favoreceu o contato e o comércio entre os povos e a difusão de conhecimentos”, afirma a arqueóloga clássica Maria Beatriz Borba Florenzano, da Universidade de São Paulo (USP), em matéria da Superinteressante.
Em grau comparativo, se o Império Romano possuía interesse no domínio territorial em vista da coleta tributária, não impondo o panteão romano como religião dos povos dominados (tolerando, portanto, que eles exercessem sua religiosidade, contanto que não aviltasse contra a ordem política e social), Alexandre não apenas visava os impostos, mas também o domínio cultural como parte da conquista do território. Consistia numa espécie de colonização.
Por isso é que o Novo Testamento foi escrito em grego – além da tradução do Antigo Testamento para essa mesma língua, no que ficou conhecido como a Septuaginta. Era a língua mundial, como se fosse o Inglês na atualidade.
Por isso é que o Novo Testamento foi escrito em grego – além da tradução do Antigo Testamento para essa mesma língua, no que ficou conhecido como a Septuaginta. Era a língua mundial, como se fosse o Inglês na atualidade.
Portanto, talvez interpretamos o texto bíblico de determinada maneira que está imbuída no pensamento grego e nem sempre nos damos conta disso.
Um clássico exemplo é quando, como cristãos, dividimos o indivíduo entre “corpo” e “alma” no sentido de inferiorizar o primeiro em relação ao segundo. Em outras palavras, considerar como “espiritual” ações como ir na igreja, ler a Bíblia e orar, e “carnal” todo o restante (jogar futebol, assistir TV, se interessar por política, entre outros exemplos). Ora, se fosse dessa maneira, a maioria das coisas que fazemos é carnal/pecaminoso, não é?
Um clássico exemplo é quando, como cristãos, dividimos o indivíduo entre “corpo” e “alma” no sentido de inferiorizar o primeiro em relação ao segundo. Em outras palavras, considerar como “espiritual” ações como ir na igreja, ler a Bíblia e orar, e “carnal” todo o restante (jogar futebol, assistir TV, se interessar por política, entre outros exemplos). Ora, se fosse dessa maneira, a maioria das coisas que fazemos é carnal/pecaminoso, não é?
Leia:
“Bem, examina agora, portanto, Cebes, se tudo o que foi dito nos conduz efetivamente às mesmas conclusões: a alma se assemelha ao que é divino, imortal, dotado de capacidade de pensar, ao que tem uma forma única, ao que é indissolúvel e possui sempre do mesmo modo identidade; o corpo, pelo contrário, equipara-se ao que é humano, mortal, multiforme, desprovido de inteligência, ao que está sujeito a decompor-se, ao que jamais permanece idêntico. [...]
Que se segue daí? Uma vez que as coisas são assim, não é acaso uma pronta dissolução o que convém ao corpo, e à alma ao contrário, uma absoluta indissolubilidade, ou pelo menos qualquer estado que disso se aproxime?”
(Platão. Fédon. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 84 - Coleção Os Pensadores)
O site psicod.org comenta:
“Essa oposição radical entre corpo e alma, conforme encontramos em muitos pensadores da Grécia Antiga, é bastante diferente das concepções que inspiraram a escrita dos textos bíblicos. Escrito em sua maior parte originalmente em hebraico, o Antigo Testamento, por exemplo, utiliza a palavra ‘nefesh’ – que possui um significado próximo ao de ‘alma’ ou de ‘vida’ – em referência a um sujeito uno, sem a implicação dualista. Há ainda a palavra ‘ruah’, frequentemente traduzida por ‘espírito’, mas que não significa uma ‘parte’ do ser humano que sobrevive à morte do corpo, e sim a pessoa como um todo, em uma relação dinâmica com Deus. O Antigo Testamento usa ainda a palavra ‘basar’, que pode ser traduzida como ‘carne’; porém, longe de significar alguma coisa que alguém possua, ‘basar’ indica o indivíduo, tanto assim que pode ser usada em substituição ao pronome pessoal.
Mesmo nos livros do Novo Testamento, escritos originalmente em grego, encontramos uma concepção unitária – não dualista – do ser humano. Nos escritos de Paulo, por exemplo, chama atenção a oposição entre ‘espírito’ e ‘carne’, mas mesmo nesse caso não se trata de entender o ser humano como composto de dois elementos distintos, e sim de compreendê-lo a partir de duas perspectivas diferentes: a ‘carne’ designa o caráter transitório da vida, sujeita ao pecado, enquanto o ‘espírito’ indica a vida humana plena em harmonia com Deus.
Nos primeiros séculos da era cristã, o cristianismo se difundiu principalmente a partir do mundo helênico. Basta lembrarmos, por exemplo, de algumas das epístolas de Paulo: aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses e aos Tessalonicenses. O uso da língua grega e de termos como ‘psique’ (alma), ‘soma’ (corpo) e ‘pneuma’ (espírito) acabaram invariavelmente associados a concepções filosóficas gregas, especialmente ao dualismo platônico. Foi nesse contexto ainda que se desenvolveu o gnosticismo, um movimento filosófico-religioso que afirmava que a salvação humana era dependente da libertação do corpo, tido como mau e desprezível. Desse modo, um dos principais desafios da Filosofia patrística era conciliar as concepções gregas e bíblicas na busca de um entendimento.”
Para clarear ainda mais nossa entendimento, contrastemos duas figuras históricas em situações semelhantes: Sócrates e Jesus diante da iminência da morte.
Sócrates (469 a.C. - 399 a.C.) – considerado o fundador da filosofia ocidental – foi condenado à morte por não adorar os deuses de Atenas e “corromper” a juventude com ideias não aceitas pela sociedade da época. Foi a julgamento e teve a chance de renegar suas ideias. Preferiu beber cicuta. Pagou com a vida o preço da impopularidade, mas não abriu mão de seus conceitos.
Na pintura “A Morte de Sócrates” (fr: “La Mort de Socrate”), datada de 1787 do pintor francês Jacques-Louis David, o filósofo é retratado numa postura altiva, confiante, tranquila diante da iminência da morte.
Aqui abro parênteses para falar de Platão (428 a.C. - 347 a.C.), discípulo de Sócrates. Para Platão, o mundo era dividido em duas esferas: a esfera inteligível e a esfera sensível. Essa divisão ficou conhecida como Dualismo Platônico.
O mundo inteligível, segundo ele, era o mundo superior, já que era o mundo da sabedoria e do conhecimento. O mundo sensível é o mundo onde nos relacionamos através dos nossos sentidos, o que vivemos de forma material, o mundo das aparências. Para ele, o mundo sensível era inferior, já que os nossos sentidos nos levam a falhas e não nos deixa conhecer a perfeição do mundo inteligível.
Portanto, para Sócrates, talvez a morte seria enxergada como uma libertação do corpo (e, consequentemente, do mundo inferior) para que o mundo superior fosse alcançado (não no conceito de ressurreição, mas sim da permanência da ideia).
Agora, vejamos o contraste da situação de Jesus de Nazaré diante da iminência da morte:
“Ficando em agonia, continuava a orar mais seriamente; e seu suor tornou-se como gotas de sangue caindo ao chão.”
(Lucas 22:44)
O erudito Paul Smith comenta:
“Lucas, que era médico, diz que ele [Cristo] estava ‘em agonia’ numa luta, num esforço, sendo que a linguagem usada em grego dá a entender uma luta de crescente força e severidade, de modo que ‘seu suor se tornou como que grandes gotas de sangue’; e tal suor sangrento não é desconhecido dos médicos atuais, embora seja raro. Assinala um sentimento de extrema tensão – um pesar próximo à morte.”
O comitê da Bíblia King James ratifica:
“Jesus sentiu de tal maneira as emoções humanas que teve uma crise aguda de hematidrose, que é a mistura de sangue ao suor, nos casos de extrema angústia e severas alterações emocionais.”
A explicação é simples: como judeu, Jesus não enxergava a morte simplesmente como a “libertação do corpo”, mas entendia a unidade e inteireza do ser.
No livro “O Reino de Ponta Cabeça”, o autor Donald B. Kraybill argumenta:
“Não temos dois evangelhos. Não temos um evangelho espiritual ‘e’ um social, um evangelho de salvação ‘e’ um de justiça social. Em vez disso, temos um único e integrado evangelho do reino. ‘Esse’ evangelho funde as realidades social e espiritual em uma só. Jesus une o espiritual em um todo indivisível.
Por um lado, Ele diz que a verdadeira fé está ancorada no coração - não no dízimo, no sacrifício, na purificação ou em outros rituais externos. Nesse sentido, Ele espiritualiza a fé religiosa. Por outro lado, Jesus argumenta que a fé em Deus é sempre expressa em atos tangíveis de amor ao próximo. Ele estava, em resumo, acabando com nossas categorias de espiritual e social. Na visão de Jesus, elas são um tecido sem costura, que não pode ser rasgado ao meio.”
Isto é, tal separação entre “vida espiritual” e “vida material/cotidiana” inexiste nas Escrituras, pois esta nos convida a unirmos os dois conceitos.
Em diversos momentos, Jesus demonstrou que em Sua pessoa houve a junção do espiritual e social, nesse “tecido sem costura”. Ele não restringia Seus sermões e ensinamentos ao Templo ou às sinagogas, mas expunha em montanhas, em cima de um barco, na beira de um poço. Afinal, Ele mesmo ensinou:
“Está próxima a hora quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora está chegando, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai, em espírito e em verdade; pois são esses que o Pai procura para seus adoradores.”
(João 4:21-23)
Ou seja, Jesus tirou a religiosidade do local físico/específico e criou a condição de espírito adorador.
Além disso, Cristo acabou com a separação entre “espiritual” e “carnal” nas coisas em si. Em Suas palavras: “Não é o que entra pela boca o que torna uma pessoa impura, mas o que sai da boca, isto sim, corrompe a pessoa” (Mateus 15:11). Com isso, Jesus estava pondo um fim tanto na rigorosa dieta seguida pelos religiosos quanto em rituais como coar a água antes de beber em vista de eliminar um eventual mosquito que tenha caído no líquido, pois este era considerado o menor animal impuro, segundo a Lei de Moisés registrada no livro de Deuteronômio.
Finalmente, Jesus não considerou como “espirituais” os assuntos concernentes apenas à Lei, à liturgia do Templo, aos profetas e afins. Tanto é que, quando foi indagada se os judeus deveriam pagar impostos ou não, o Mestre não fugiu dessa questão profundamente política. Respondeu: “Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!” (Mateus 22:21). Ou seja, demonstrou que todos os assuntos são importantes para a ótica do Reino, devendo ser enxergados à luz da Palavra.
O site da Canção Nova relata:
“Como pastor, Irineu (de Lião) foi sensível à propaganda ativa das ‘seitas gnósticas’ no seio do cristianismo, e identificou elementos que introduzia um conjunto de rupturas destruidoras da fé cristã. Pode-se citar, por exemplo, a ‘ruptura entre o Deus supremo e o Criador; entre a obra da criação e a obra da salvação; entre o homem e o seu universo; entre o corpo e a alma; entre o Antigo […] e o Novo [Testamento] […]’ (LIÉBAERT, 2004, p. 61).
Na visão gnóstica, a Encarnação e o Mistério Pascal foram esvaziados do seu sentido. A própria fonte da fé era pervertida, pois não se encontrava mais na tradição eclesial que interpretava a Escritura, mas na tradição e nas escrituras secretas dos gnósticos.
Percebe-se, claramente, que a visão gnóstica a respeito do cosmo é dualista. Ela separa, no mundo, a luz das trevas, e, no homem, o princípio espiritual do material. É justamente essa forma de pensar que leva o gnosticismo à recusa da concepção judeu-cristã do único Deus criador, pois o dualismo cósmico exige dois princípios criadores.
Existe, portanto, a figura de um Demiurgo criador desse mundo. Ele é, geralmente, identificado com o Deus do Antigo Testamento. É, portanto, colocado em contraposição ao verdadeiro Deus ‘Pai de todos’. Segundo esse pensamento, este Deus é o Pai da Grandeza, e os textos gnósticos o descrevem como inefável e jamais alcançado por nenhum poder ou limite das criaturas.
Segundo o Dicionário Teológico Enciclopédico, nota-se um dualismo entre o mundo espiritual e o mundo material, sendo este último considerado intrinsecamente mau. Existe a visão ‘de que o mundo material é fruto da degradação de um ser divino e foi plasmado pelos anjos’ ou pelo Demiurgo identificado como o Deus veterotestamentário (Antigo Testamento).”
A Reforma Protestante trouxe novamente à tona essa questão da inteireza do ser. Em suma, os homens passaram a enxergar a vida cotidiana como também espiritual.
No clássico “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, publicado em 1904, o autor registra que o pensamento teológico calvinista teria impulsionado a fase inicial do desenvolvimento capitalista, ao legitimar uma ética voltada para trabalho e poupança.
Contudo, como diz o ditado, os reformadores não “inventaram a roda”. Antes, a origem de tal pensamento é bíblica. A palavra hebraica “avodah (ah-vod-ah)” é traduzida por “trabalho” e, também, “adoração”. Uma melhor tradução [em inglês] para trabalho é “serviço”.
O site Ultimato explica:
“Deus recebe o trabalho como adoração feita a Ele. Simplificando – Trabalho é adoração. A similaridade entre as duas palavras esclarece que, aos olhos de Deus, nosso trabalho é adoração e não é feito para nosso próprio benefício, mas antes como uma oferta a Ele. Isso quer dizer que o local de trabalho é o lugar de Deus. Nós vamos interagir com Deus e falar sobre Deus no nosso local de trabalho como o fazemos na igreja ou em casa. O local de trabalho é o local de adoração onde podemos expressar a compaixão de Cristo em palavra e ação.”
Eis o desafio: viver a fé e o amor dentro do mundo, assim como ele se apresenta. Como ilustra o famoso causo: um sapateiro perguntou a Lutero o que poderia fazer para servir melhor a Deus e ser um cristão melhor. Lutero respondeu: “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”.
Finalmente, conclui-se que a vida cristã deve ser vivida na inteireza, no cotidiano, com corpo e espírito em sincronia para que a vontade de Deus seja cumprida.
Sim, há disciplinas espirituais como ler a Bíblia, orar, jejuar, congregar. Contudo, estas e seus efeitos não são separadas do que realizamos no dia a dia, ou seja, de nossas ações, de nossas práticas.
Que possamos proclamar como o apóstolo Paulo:
“E a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus.”
(Gálatas 2:20)
(Referências bibliográficas: https://www.google.com.br/amp/s/revistagalileu.globo.com/amp/Sociedade/Filosofia/noticia/2016/08/socrates-ensina-como-nao-ligar-para-opiniao-dos-outros.html; https://formacao.cancaonova.com/igreja/catequese/fique-atento-o-gnosticismo-e-um-serio-perigo-para-nossa-fe/; https://psicod.org/filosofia-e-cotidiano-jos-antonio-vasconcelos.html?page=384; https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quem-foi-alexandre-o-grande/; https://www.google.com.br/amp/s/opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,sob-o-comando-dos-mortos-imp-,1577036.amp; https://www.guiaestudo.com.br/platao; https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2016/01/jesus-suou-sangue-conforme-lucas-2244.html?m=1; https://www.ultimato.com.br/conteudo/criados-para-adorar-ou-trabalhar; https://blogdoibre.fgv.br/posts/os-500-anos-da-reforma-protestante-weber-tinha-razao; http://acervo.avozdaserra.com.br/noticias/lutero-uma-figura-complexa-entre-o-velho-e-o-novo)
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