MYSTERIUM FIDEI

A busca sincera pela verdade desemboca no achado do próprio Deus.

É como abrir a porta do desconhecido com a chave do ímpeto racional e perscrutador humano e, do outro lado, encontrar Deus como anfitrião.

A natureza não é Deus (panteísmo), mas por ser criação dEle, aponta para Ele mesmo. Pois Deus não poderia imputar em sua criação elementos e factóides díspares de Sua própria natureza. Portanto, os elementos do cosmos constituem-se em peças do quebra-cabeça do “mysterium fidei”.

São Paulo argumentou em sua teologia: “Pois o que de Deus se pode conhecer é evidente entre eles, porque o próprio Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido observados claramente, podendo ser compreendidos por intermédio de tudo o que foi criado” (Romanos 1:19-20).

Nesse sentido, apesar da iluminação ser primordial para chegar-se à plena revelação do conteúdo das Escrituras, há no homem um dado ontológico que o teólogo alemão Karl Rahner denomina “existencial sobrenatural”, isto é, diante de uma bela montanha banhada pela luz do alvorecer, ocorre no homem uma experiência tipicamente religiosa, uma vez que seu assombro é elemento do “imago Dei” descrito no livro do Gênesis.

O teólogo Ed René Kivitz disserta:


“O domínio religioso não é, em hipótese alguma, o único campo no qual o ser humano expressa sua experiência de Deus. O teólogo alemão Paul Tillich disse que ‘a religião é a substância da cultura, e a cultura, a forma da religião’: ainda que se expresse por meios não religiosos, todas as ações humanas na direção da vida e do sentido humano de existir, em última instância, são experiências religiosas. Deus é o fundamento do ser e da vida e todo movimento humano de resistência às ameaças do não ser são não apenas sustentadas por Deus, como também manifestações da espiritualidade humana e da santidade da existência. Luiz Gonzaga cantando ‘Quando oiei' a terra ardendo/ Qual fogueira de São João/ Eu preguntei' a Deus do céu, uai/ Por que tamanha judiação?’, está não apenas fazendo arte, na verdade está fazendo prece. Cazuza cantando que os navios negreiros continuam a aportar na cidade que tem o Cristo de braços abertos ‘sem proteger ninguém’, é mais que um poeta incrédulo e pagão, é um ser humano perguntando sobre o lugar de Deus num mundo injusto e cruel. A canção onde Milton Nascimento confessa ser um permanente caçador de si mesmo é como um salmo que desnuda a alma humana. O Deus confinado aos templos, monopolizado pelos beatos, dissecado pelos teo-eruditos profissionais, é, definitivamente, pequeno demais, é, na verdade, um ídolo.”


E aqui faço uma distinção entre “assombro” e “maravilhamento”, que ocorrem diante da experiência do belo e apoteótico. O primeiro termo segue o raciocínio de Aristóteles, ou seja, referindo-se ao desconhecido, ao enigma do Universo. Já o segundo é o diálogo positivo e impactante entre o espírito (sujeito cognoscente) e a natureza (objeto).

Ed René continua:


“Um dia disseram a Winston Churchill que era preciso cortar os custos do financiamento das artes. A Inglaterra estava em guerra. A guerra é um negócio caro. Churchill recusou respondendo algo como: se cortamos no financiamento das artes, então estamos lutando para quê?

Essa história, contada por João Pereira Coutinho, me fez lembrar as palavras de Jesus nos ensinando que ‘nem só de pão viverá o homem’. O alimento para o corpo é essencial, sem pão, morremos. Mas a elevação do espírito, a experiência transcendente com o amor de Deus que se manifesta multiforme, nos eleva para além da condição de bestas feras. Paul Tillich afirmou que ‘a religião é a substância da cultura e a cultura, a forma da religião’, querendo dizer que por trás de toda criação simbólica do ser humano existe sua busca pela dimensão do espírito, inclusive o divino. Ernst Cassirer disse que ‘o homem é um animal simbólico’.

Enfim, destrua as escolas e universidades, corte verbas de pesquisa, feche cinemas, teatros, museus e bibliotecas, repita à exaustão que arte e cultura são supérfluos, proíba a religião e seus cultos, e você transformará o mundo num lugar cinza, desalmado, sem cor, sem luz, sem vida. Uma selva onde valores como liberdade, fraternidade, solidariedade, generosidade e justiça terão virado poeira pelas mãos dos que perderam a alma. Albert Einstein disse que ‘nem tudo o que conta pode ser contado, e nem tudo o que pode ser contado, conta’. E para você, o que conta?”


Segundo a teoria das “sementes do verbo” de São Justino, há fragmentos da Verdade por toda manifestação cultural humana. Se a Verdade é uma pessoa, Suas pegadas podem ser visualizadas em toda parte.

A filósofa francesa Simone Weil concorda que os filósofos gregos experimentaram esses fragmentos da Verdade ao investigarem o cosmos e construírem suas teses.

Nas palavras do teólogo britânico G.K. Chesterton: “Santo Tomás não reconciliou Cristo com Aristóteles; reconciliou Aristóteles com Cristo”.

Logo, seguindo a linha de pensamento desses dois autores, há a desmistificação de uma eventual divergência entre as ciências sagradas e as ciências naturais. Basílio de Cesareia concorda: “Se há alguma afinidade entre as ciências sagradas dos livros santos com aquelas dos autores profanos, isto nos será vantajoso conhecer”.

Em suma, a despeito da iluminação, todo e qualquer indivíduo pode adentrar nessa experimentação divina à medida que essa possibilidade é inerente ao seu ser.

Essa temática desagua na recuperação da compreensão de que a corporeidade é também uma dimensão litúrgica, digna e disposta de experimentar o sagrado, sem efetuar uma tripartição desconciliatória, mas sim a unidade do ser. Traz à tona uma sacralidade do ordinário, e o teólogo Brennan Manning explicita esse conceito de forma magistral:


“De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a lua não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas por Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.

Houve um tempo, não muito distante, em que uma tempestade fazia um homem adulto estremecer e sentir-se pequeno. Deus, no entanto, está sendo deixado de lado pelo mundo da ciência. Quanto mais sabemos sobre meteorologia menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade. Os aviões voam agora acima, abaixo e entre elas. Os satélites reduzem-nas a fotografias. Que ignomínia - se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia - reduzida de teofania a mero incômodo.

(...)

A espiritualidade do assombro sabe que o mundo está carregado com graça; que embora o pecado e a guerra, a doença e a morte sejam terrivelmente reais, a presença e o poder de Deus no nosso meio é ainda mais real.

Sob o domínio do assombro fico surpreso, fico extasiado. É Moisés diante da sarça ardente, ‘temendo olhar para Deus’ (Ex 3:6). É Estêvão prestes a ser apedrejado: ‘Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus’ (At 7:56) e Michelangelo golpeando sua estátua de Moisés e ordenando: ‘Fale!’ É Inácio de Loyola extasiado diante do céu noturno. Teresa de Ávila arrebatada por uma rosa. É Tomé descobrindo seu Deus nas chagas de Jesus, Madre Teresa vislumbrando a face de Cristo nos pobres atormentados. São os Estados Unidos emocionados diante dos primeiros passos na Lua, uma criança soltando uma pipa ao vento. É uma mãe olhando com amor seu filho recém-nascido. É a maravilha do primeiro beijo.

O evangelho da graça é brutalmente depreciado quando os cristãos sustentam que o Deus transcendente só pode ser honrado e respeitado adequadamente negando-se a bondade, a verdade e a beleza das coisas deste mundo.

Assombro e arrebatamento deveriam ser nossa reação ao Deus revelado como Amor.”

(MANNING, Brennan. O evangelho maltrapilho. p. 89, 90-99, 100)


O teólogo britânico G.K. Chesterton arremata: “A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”.

Ora, se Deus pode ser experimentado inclusive fora do “Templo” e do “monte” (seguindo o ensinamento de Cristo à samaritana), retorna-se à valorização do corriqueiro, do cotidiano, do comum.

O Pe. Paulo Ricardo ilustra com uma história:


“A tradição carmelitana conta que, certa vez, Santa Teresa estava preparando alguns ovos para a refeição das monjas e… entrou em êxtase, segurando a frigideira na mão. Que situação estranha para ser arrebatada por Deus! Afinal, não era um momento de oração… nem se estava no sossego da capela… mas na agitação da cozinha!

Contudo, ao voltar a si, a santa, como que justificando-se, disse às suas filhas: ‘Entre los pucheros, también anda el Señor’ – ‘Em meio às panelas, também anda o Senhor’.”


Nesse sentido, se as próprias coisas criadas formam a estrada de tijolos amarelos que levam a Deus, então o início de tudo é a Teologia. Em “Conversas à Mesa”, Lutero diz: “A Bíblia é a imperatriz de todas as artes e faculdades. Se a teologia ruísse, eu não daria uma palha pelo que restasse”.

Pois, se tudo parte dEle, tudo volta pra Ele – podendo citar até a teoria do Big Crunch, que prevê a retração do Universo em um único ponto como consequência de sua expansão inicial.

O escritor britânico C.S. Lewis compreendeu esse conceito: “Eu acredito no Cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor”.

Um amigo seminarista me afirmou certa vez que a Teologia reconstrói sob as bases destruídas pela Filosofia. Pré-conceitos ou o que imaginávamos saber (no oposto da ignorância socrática, que é uma virtude, mas cometendo o pecado venial da presunção) são extirpados mediante o defronte com as letras milenares. Como se recompor? Não há para onde ir, senão a Cristo, como concluiu São Pedro em uma revelação que não lhe foi dada mediante carne ou sangue, mas pelo Pai ao seu espírito. Afinal, “Compreender as coisas é aprender a relação que elas têm com Cristo” (Jean Leclercq, in: “O amor às letras e o desejo de Deus”). Não há como fugir dEle. Seja no mais profundo vale ou na mais alta montanha, Ele estará lá, inclusive na investigação cognitiva humana.

Resgatar a espiritualidade do assombro é resgatar a ligação divino-adâmica do Éden, pois o mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta de capacidade de se maravilhar (Chesterton).



(Referências bibliográficas: https://www.instagram.com/p/CZMY1wVuDcA/?next=%2F; https://www.instagram.com/p/CTSjZlTlXJw/?next=%2F; https://pt.aleteia.org/2020/06/01/sao-justino-e-as-sementes-do-verbo/amp/; https://padrepauloricardo.org/blog/em-meio-as-panelas-tambem-anda-o-senhor; https://www.pucsp.br/pos/cesima/schenberg/alunos/paulosergio/filosofia.html; https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-big-crunch/amp/)






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA