O QUE É FILOSOFIA?

A Filosofia teve origem na Grécia, no século VI a.C., época em que tudo era explicado pela mitologia. Tratava-se de uma interpretação da realidade “divino-mitológica”, também chamada de Cosmogonia. A grande mudança ocorreu quando os gregos passaram a explicar a realidade mediante o uso da razão (referencial de orientação do ser humano em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação. Nesse sentido, diz-se que a razão é uma faculdade própria do ser humano, distinguindo-o dos animais, por exemplo) e da lógica (ramo da Filosofia que trata das formas do pensamento – indução, dedução, hipótese, inferência etc.  e, por meio delas, busca determinar os raciocínios considerados válidos), dando lugar à Cosmologia. A Filosofia grega perdurou até o declínio do Império Romano.

Os primeiros filósofos, os pré-socráticos, isto é, anteriores a Sócrates, buscavam a origem do Universo e, claro, das coisas. Em geral, eram monistas, uma vez que acreditavam ser o Universo criado a partir de um único elemento. Tales de Mileto (624-548 a.C.), por exemplo, considerado o primeiro filósofo, acreditava que o Universo teve como primeiro elemento a água. Contudo, Sócrates (469-399 a.C.; é reconhecido pelo seu método dialético de características céticas. Há, ainda, um debate sobre a sua real existência), Platão (428-328 a.C.; teria sido discípulo de Sócrates e difusor de suas ideias. Era um cidadão importante em Atenas, onde fundou a Academia) e Aristóteles (385-323 a.C.; mudou o sentido dialético como forma de perceber o mundo sensível para, a partir de operações racionais, obter o conhecimento da “physis” – natureza – para a metafísica) são considerados, por muitos, os fundadores da Filosofia ocidental. Suas obras avançaram no tempo e perpassaram as filosofias das Idades Média, Moderna e Contemporânea.

Interessa, aqui, fazer menção a Platão, que fundou a Academia Ateniense, tida como a primeira instituição de ensino do Ocidente, seguindo os preceitos do método dialético de Sócrates. Segundo historiadores, Platão teria sido aluno de Heráclito (540-470 a.C.) e de Sócrates. Uma introdução a seu pensamento filosófico é encontrada no Crátilo (“Crátilo” é um diálogo platônico, no qual Sócrates é questionado por dois homens, Crátilo e Hermógenes, sobre os nomes; se esses são “convencionais” ou “naturais”, isto é, se a linguagem é um sistema de símbolos arbitrários ou se as palavras possuem uma relação intrínseca com as coisas que elas significam).


SOFISTAS x FILÓSOFOS

Na democracia ateniense, as capacidades da oratória e da retórica se valorizaram extremamente. Como o debate, o diálogo público e a discussão eram as maneiras de se portar no conselho, tornou-se comum que quem conseguisse se comunicar mais persuasivamente alcançasse, com facilidade maior, os objetivos almejados.

Quem era eloquente e, ainda assim, bastante proativo acabava, pela lábia, exercendo cargos políticos, mesmo sem precisar ser eleito – caso, inclusive, de Péricles, citado anteriormente. Por conta disso, alguns jovens atenienses endinheirados recorriam a um grupo de professores chamados de sofistas (algo como “sábios”) para que estes lhes ensinassem as manhas da fala em público.

Diferentemente dos filósofos (“philo” = amigo + “sophia” = saber), os sofistas não se preocupavam com o mundo supralunar, como Aristóteles chamaria o espaço sideral. Além disso, diferentemente dos pensadores originais (também conhecidos como pré-socráticos), eles não queriam saber da origem do mundo nem tentavam entender a “physis” (em uma tradução aproximada, tudo o que é a “natureza”). Estavam mais preocupados diretamente com as questões morais e políticas, isto é, os temas mais pragmáticos da vida pública. Em vez de olhar para o alto e divagar, miravam o pequeno, o próximo, aquilo em que podemos influir diretamente. Em vez de tentar explicar o mundo de uma vez só, como os pré-socráticos, esforçavam-se para dar conta, buscavam o melhor jeito de influir na vida de sua própria sociedade. Ou seja, em vez da abstração, pregava-se a materialidade.


VISÃO DE ERIC VOEGELIN

A interpretação voegeliana dos graus de equivalência [simbólica] entre ambos os termos e o caráter específico das distintas experiências às quais se referem é um dos aspectos mais intrigantes de sua obra. Colocando suas conclusões de forma simples, pode-se dizer que os termos respectivos diferem quanto ao “locus” na consciência a que se referem: a “experiência noética” centra a área onde o questionamento, o raciocínio e o julgamento operam, enquanto a “experiência pneumática” na qualidade de “irrupção divina que constitui uma nova consciência existencial” surge na profundeza axial da personalidade de onde a razão e suas estruturas emergem. Na experiência noética, como dito por Eugene Webb, “a consciência focal… é dirigida ao Nous, a consciência questionante, enquanto o centro pneumático, o nível de realidade na profundeza da alma daquele que a experiencia em si, permanece em relativa obscuridade”. Sendo assim, os filósofos são levados a explorar a estrutura do questionar da própria consciência e a da estrutura da realidade que “se torna luminosa na teofania noética”, enquanto os exegetas da experiência pneumática, como São Paulo, concentram-se na “experiência intensamente articulada da ação do amor divino” agindo nas insondáveis profundezas da alma. Colocando em termos de filosofia da consciência voegeliana, a diferença essencial entre as duas experiências reside no pólo, seja o humano ou o divino, onde enfatiza-se a experiência do humano com o divino: o questionar do parceiro humano que, no desejo de conhecer seu Fundamento encontra no intelecto o coração de todo o questionar; ou no do lado divino, onde Deus graciosamente invade a alma e vira-a para a sua verdade. Em ambas as experiências é a “mesma consciência da existência no Entremeio da participação divino-humana e a mesma experiência da realidade divina como centro da ação no movimento [da alma] em busca da resposta”.

(“Mystery and Myth in the Philosophy of Eric Voegelin”, de Glenn Hughes. Página 55)


As várias funções, assim como os problemas que elas implicam, são unidas por Platão no ponto de sua origem na experiência de resistência por meio de um par de conceitos abrangente, o par “filósofo” e “sofista”. O filósofo é, compactamente, o homem que resiste ao sofista; o homem que tenta desenvolver a ordem reta em sua alma pela resistência à alma doente do sofista; o homem que pode evocar um paradigma de ordem social reta à imagem de sua alma bem-ordenada, em oposição à desordem da sociedade que reflete a desordem da alma do sofista; o homem que desenvolve os instrumentos conceituais para o diagnóstico da saúde e da doença na alma; o homem que desenvolve os critérios da ordem reta, apoiando-se na medida divina com que a alma está sintonizada; o homem que, como consequência, se torna o filósofo no sentido mais estrito do pensador que apresenta proposições referentes à ordem reta na alma e na sociedade, afirmando para elas a objetividade da episteme, da ciência — uma afirmação que é duramente contestada pelo sofista cuja alma está sintonizada com a opinião da sociedade.

(Eric Voegelin — Ordem e História vol.3 p.129–130)


O significado do termo “filósofo” em seu sentido compacto, no ponto de seu surgimento a partir do ato de resistência, deve ser bem entendido caso se pretenda compreender a ciência da ordem de Platão. Pois na resistência do filósofo a uma sociedade que lhe destrói a alma origina-se o discernimento de que a substância da sociedade é a psique. A sociedade pode destruir a alma de um homem porque a desordem da sociedade é uma doença na psique de seus membros. Os problemas que o filósofo experimenta em sua própria alma são os problemas da psique da sociedade circundante, que pesam sobre ele. E o diagnóstico de saúde e doença da alma é ao mesmo tempo, portanto, um diagnóstico da ordem e desordem da sociedade. No nível dos símbolos conceituais, Platão expressa seu discernimento por meio do princípio de que a sociedade é o homem escrito em letras grandes (368D-E). A justiça é às vezes referida como a virtude de um único homem, às vezes de uma pólis (368E). A República, embora comece como um diálogo sobre a vida justa do indivíduo, pode se tornar uma investigação da ordem e desordem na sociedade, porque o estado da psique individual, em saúde ou doença, expressa-se no estado cor­ respondente da sociedade. Uma pólis está em ordem quando é governada por homens com almas bem ordenadas; ela está em desordem quando as almas dos governantes estão desordenadas. “Não devemos concordar que em cada um de nós há as mesmas formas [eide] e hábitos [ethe] que na pólis? E que de nenhum outro lugar elas poderiam chegar lá?” (435E). Platão responde às perguntas na afirmativa: “As formas [ou disposições, eide] dos homens têm tantas variedades quanto as formas de governo [politeia] […] pois as formas de governo derivam dos hábitos [ethe] humanos que estão nelas” (544D-E). Não só a boa pólis é o homem escrito em letras grandes, como cada pólis escreve em letras grandes o tipo de homem que é socialmente dominante nela.

(Eric Voegelin — Ordem e História vol.3 p.130)


FILOSOFIA E CRISTIANISMO

“Se há alguma afinidade entre as ciências sagradas dos livros santos com aquelas dos autores profanos, isto nos será vantajoso conhecer.”

(Basílio de Cesaréia)


“Compreender as coisas é aprender a relação que elas têm com Cristo.”

(Jean Leclercq, in: “O amor às letras e o desejo de Deus”)


“Santo Tomás não reconciliou Cristo com Aristóteles; reconciliou Aristóteles com Cristo.”

(G.K. Chesterton)




(Referências bibliográficas: https://estudante.estacio.br/disciplinas/estacio_7219989/temas/2/conteudos/1; https://medium.com/helkein-filosofia/perguntas-e-respostas-5ae4f9e469e2)

(Tradução da imagem: Personagem 1: “Por que a filosofia é importante?” / Personagem 2: “Por que a ciência é importante?” / Personagem 1: “Bem, a ciência é importante porque...” / Personagem 2: “eeeeeee, agora você está filosofando!” / KA-POW!)





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