ASSOMBRO

Ratificando a insuspeição da tese elaborada por Charles Darwin, o que fundamentalmente difere o “Homo sapiens” de todos os seus ancestrais consiste no assombro aristotélico. Não mais a caça e coleta satisfaziam a cotidianidade, mas urgiu a organização da miríade de elementos que se apresentavam no cosmos mediante e posteriori à perscrutação.

No mesmo quesito do relato no בְּרֵאשִׁית (bereshit), sendo o homem proveniente dos próprios moldes criacionais que advém da Transcendência, o conceito da razão está intrinsicamente associado ao “imago Dei”, e não ao רוּחַ (ruah ou ruach), pois esta força vital também se fez presente na agitação da superfície das águas, sendo portanto não exclusivamente legado “Solus homini”, mas compartillhado com demais quadrúpedes, répteis e “cyclus naturalis”.

Segundo Aristóteles, a humanidade encontra-se como imersa num oceano de “veritas”, sendo que é ontológico ao indivíduo a capacidade de decodificação do que se desvela. Todavia, nessas muitas águas, faz-se míster a organização do que se apresenta, para que o manifesto adquira a devida coerência.

Ocorre que o instinto pode alimentar-se das “veritas” lançadas (de acordo com o método cartesiano – o “evidentemente conhecido como tal” – a iminência do ataque do predador constitui-se nessa “veritas”, que compreendida pelo outro ser, age instintivamente), contudo, apenas a razão do sujeito cognoscente pode averiguar as demais possibilidades, a causa primária, e os fatores resultantes.

As opiniões conflitantes ocorrem em decorrência dos muitos produtos da cognição oriundos da tentativa do ato de regular o que é factível.

“Todos nascemos em uma teia cultural que consiste em experiência, literatura, música, leis, opiniões comuns, ditos dos sábios e lições de vida que aprendemos ao longo do caminho. À medida que crescemos na compreensão do mundo, sempre enfrentamos dificuldades ou quebra-cabeças sobre as coisas. Por exemplo, somos ensinados que a neve derrete quando a temperatura é superior a 32 graus, mas depois aprendemos que no topo das montanhas rochosas há neve e a temperatura é superior a 32 graus. O que temos aqui é uma dificuldade ou quebra-cabeça que precisa ser resolvido. Aristóteles pensou em todo progresso e entendimento como uma questão de enfrentar esses tipos de dificuldades, lutar com elas, fazer distinções e obter insights. No exemplo da neve, precisamos distinguir entre temperatura no nível do mar e temperaturas em altitudes mais altas e descobrir a diferença que a pressão barométrica faz no derretimento da neve. Ao longo dos séculos, os cristãos enfrentaram dificuldades e enigmas semelhantes, enfrentando-os tanto nas fontes da revelação divina quanto na tradição filosófica. Certas passagens das escrituras, por exemplo, podem parecer conflitantes, ou dois Padres da igreja podem ter interpretações conflitantes da mesma passagem. Esses são exatamente os tipos de dificuldades que fazem parte do processo humano de crescimento e compreensão. O que precisamos fazer é deixar que as fontes de revelação e a sabedoria dos filósofos falem conosco e enfrentem os quebra-cabeças e dificuldades que eles representam, e lutem com eles, façam distinções e adquiram novas ideias.

Quando os textos de Aristóteles foram redescobertos no Ocidente na Alta Idade Média, o processo de dialética que ele codificou foi redescoberto como uma ferramenta para trabalhar sistematicamente através de quebra-cabeças e dificuldades. Mas agora o processo de dialética foi usado pelos cristãos para resolver os enigmas e dificuldades que nos confrontam nas fontes da revelação divina e na sabedoria dos filósofos. O resultado foi uma nova forma de investigação teológica que encontramos nos escolásticos, e especialmente em Tomás de Aquino.

Esta é a história por trás do formato da questão disputada que encontramos em suas obras. Primeiro, fazemos uma pergunta. Segundo, enfrentamos quebra-cabeças e dificuldades. Terceiro, traçamos distinções para obter insights. Então, estamos em posição de resolver nossas dificuldades originais. O chamado de Santo Tomás de Aquino era colocar todas as questões mais relevantes, enfrentar todas as dificuldades mais relevantes envolvidas em cada questão e traçar todas as distinções relevantes. Essa foi sua conquista intelectual. E, na maior parte, suas respostas são verdades perenes.” [1]

Tal qual vislumbra-se o assombro daqueles que receberam a revelação trinitária, algo que os filósofos gregos fitavam desde tempos remotos, entretanto, apenas com o mistério da encarnação a as sombras veterotestamentárias (na linguagem paulina) adquiriram conotação mais sólida.

A Encíclica Evangelium vitae, publicada pelo Papa João Paulo II em 25 de março de 1995, declara:


“A Igreja, perscrutando assiduamente o mistério da Redenção, descobre com assombro incessante este valor, e sente-se chamada a anunciar aos homens de todos os tempos este evangelho, fonte de esperança invencível e de alegria verdadeira para cada época da história.”


O ímpeto da proclamação (seja filosófica ou teológica) é resultante do ímpeto de perscrutação e organização via rationalis cuja causa primária é justamente o assombro a que se referia Aristóteles.



(Referência bibliográfica: [1] https://fasbam.edu.br/2020/06/05/santo-tomas-de-aquino-aristoteles-argumento-e-dialetica/; [2] http://www.clerus.org/clerus/dati/2009-03/10-13/Evangelium_vitae.html)



— Se você gosta desse trabalho, CONTRIBUA através do PIX: supercrenteofc@gmail.com






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA