CREDO UT INTELLIGAM, INTELLIGO UT CREDAM
O arcabouço da fé possui essencialmente o dado racional. Sem ele, estar-se-ia afirmando que a “Fides qua” é produto do imaginário humano.
Na encíclica “Fides et Ratio”, de 14 de setembro de 1998, o Papa João Paulo II disserta:
“A fé e a razão (‘fides et ratio’) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).”
A racionalidade seria aquele passo que se dá rumo ao conhecimento mais completo acerca da Trindade. Constitui-se nas palavras de Jó acerca do conhecer a Deus a partir de si mesmo, e não apenas com base na experiência alheia.
É evidente que o assombro aristotélico ocorre mediante a contemplação da natureza divina. Todavia, o ímpeto consecutivo ao assombro faz-se míster para a plena composição da credulidade.
John Stott, um dos mais influentes nomes na teologia e da fé evangélica do século XX (sendo inclusive indicado pela revista Time, no ano de 2005, como uma das cem personalidades mais influentes do mundo), ressalta:
“Há muito equívoco na compreensão a respeito da fé. É comum supor-se que ela seja um salto no escuro, completamente incompatível com a razão. Não é assim. A verdadeira fé nunca é irrazoável, porque seu objeto é sempre digno de confiança. Quando nós, seres humanos, confiamos uns nos outros, a racionalidade de nossa confiança depende da confiabilidade relativa das pessoas em questão. A Bíblia, no entanto, testemunha Cristo como inteiramente digno de confiança. Ela nos conta quem ele é e o que ele fez, e a evidência que ela provê em favor de sua pessoa e obra únicas é convincente ao extremo. À medida que nos expomos ao testemunho bíblico a respeito desse Cristo, e à medida que sentimos seu impacto – profundo e ainda assim simples, diversificado, mas ainda assim unânime –, Deus cria a fé dentro de nós. Recebemos o testemunho. Cremos.”
A Teologia trabalha justamente o dado da fé de maneira a ser crível mediante o exercício racional. Obviamente, há o aspecto do “mysterium fidei”, ou seja, o que pode ser elaborado mas jamais esgotado. Porém, este não consiste em impeditivo para a razão, mas sim em estímulo. O que nos foi dado a conhecer, conheçamos.
A Reforma Protestante possibilitou que a luz irradiasse de forma mais incisiva sobre as Sagradas Escrituras, traduzindo-a para a língua vernácula em quantidade suficiente para que o povo pudesse obtê-la, sem chaves hermenêuticas pré-estabelecidas (com exceção dos pilares dogmáticos estabelecidos desde a Igreja Apostólica, portanto bíblicas e canônicas). Ademais, instituições de ensino foram abertas, uma vez que o conhecimento se encontrava descentralizado. A Universidade de Yale e a Universidade de Harvard foram criadas por cristãos reformados, nos anos de 1640 e 1643, respectivamente.
No coração do Parc des Bastions, em Genebra, Suíça, os principais protagonistas da Reforma, João Calvino (líder do movimento de Reforma e pai espiritual de Genebra), Guilherme Farel (o primeiro a pregar a Reforma em Genebra), Teodoro de Beza (sucessor de Calvino, nascido em Vezelay [França] e conhecido por enfatizar a doutrina da predestinação de Calvino) e John Knox (pregador escocês, amigo de Calvino e fundador do presbiterianismo na Escócia), são representados em estátuas gigantes e baixo relevo no chamado “Muro dos Reformadores”, construído de 1909 a 1917 para comemorar o 400º aniversário do nascimento de João Calvino. Entalhado no muro, está o lema genebrense “Post Tenebras Lux” (Depois da escuridão, luz). No pedestal onde se encontram estas estátuas está gravado o Cristograma: ΙΗΣ (Jesus Homem e Salvador). Em poucas palavras o cerne da Reforma que não foi apenas teológica, mas institucional. Sem o genuíno conhecimento, não há liberdade, de modo que este conhecimento não é abstrato, mas traduz-se em práxis.
O encontro com Deus em Sua Palavra, no cosmos ou na ontologia pneumática é fator preponderante para o impulso de perscrutação. Há a inspiração em homens como John Harvard, o primeiro benfeitor da universidade norte-americana que carrega seu nome; John Wesley, que sabia conciliar a luz na mente com o fogo no coração; e Isaac Newton, físico que debruçava-se no estudo das Escrituras. Cabe citar ainda outros exemplos: Sir Francis Bacon, estabeleceu o método científico; Johannes Kepler, três leis do movimento planetário; Sir Isaac Newton, co-inventor do cálculo; Louis Pasteur, pai da microbiologia; James Clerk Maxwell, leis da eletricidade e do magnetismo; e Raymond V. Damadian, inventor da ressonância magnética.
Entre 1901-2000, cerca de 65,4% dos ganhadores do prêmio Nobel eram cristãos ou tinham formação cristã.
“Crer para compreender”. Sem os olhos espirituais que fitam além do imediato, não há como alcançar o verdadeiro e sólido conhecimento. “Compreender para crer”. Sendo o homem um ser integral, a racionalidade une-se à corporeidade nessa dimensão litúrgica.
(Referências bibliográficas: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html; https://md.uninta.edu.br/geral/curso-teologia/teologia-fundamental/files/basic-html/page36.html; https://ultimato.com.br/sites/john-stott/2015/02/02/fe-e-confianca/; https://csrb.com.br/novidade/noticia/reforma-protestante-e-a-educacao-367; https://www.geneve.com/pt/attractions/o-muro-dos-reformadores-uma-homenagem-monumental; https://www.alcancevitoria.com/muro-reforma/)
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