DEUM ET HISTORICUM

Mediante a devida averiguação de uma Teologia Sistemática, vê-se que o Deus que revelou-se a Abraão – revelação esta que dar-se-ia de forma documental a partir da liderança mosaica – detém um peculiar interesse no quesito da historicidade.

O cosmos, oriundo do “בָּרָא” (bará) divino relatado em Gênesis, outrossim é regido e, de certa forma, habitado pelo seu Criador. Pois ainda que as Escrituras dissertem acerca de uma “morada celestial” (cf. Isaías 40:22), portanto díspar de uma realidade terrena, por ter a onipresença como atributo Deus não se limita a esta morada – ainda que haja um ponto incisivo dessa mesma presença.

Na literatura joanina, Yeshua é revelado como o “Logos” [“λόγος”] (que, em tradução da língua grega, consiste no “Verbo”). Para Heráclito, o “logos” é a razão que domina todo o universo e que faz possível a existência de ordem e regularidade no acontecimento das coisas. Para o filósofo, “logos” também está presente em nós e que deve servir para guiar-nos na nossa conduta e como instrumento para o verdadeiro conhecimento.

Portanto, quando João utiliza o termo “logos”, ele utiliza o vocabulário do arcabouço conceitual do termo conforme a filosofia grega para aplicar à figura de Cristo.

Nesse sentido, Yeshua seria não apenas aquele que oferece ordem a partir de um conceito puramente metafísico, mas que adentra a historicidade humana com o mesmo objetivo.

O teólogo alemão Joseph Ratzinger (1927-) escreve:


“E não se pode negar que o filósofo de Freiburg [Martin Heidegger] tenha uma boa justificativa para expressar o medo de que, em uma época em que o pensamento calculador esteja celebrando os mais surpreendentes triunfos, o homem seja ameaçado, talvez mais do que nunca, pela falta de pensamento, pelo vôo do pensamento. Ao pensar apenas no praticável, no que pode ser feito, ele corre o risco de esquecer de refletir sobre si mesmo e sobre o significado de sua existência. Naturalmente, essa tentação está presente em todas as épocas. Assim, no século XIII, o grande teólogo franciscano Boaventura sentiu-se obrigado a censurar seus colegas da faculdade filosófica de Paris por terem aprendido a medir o mundo, mas esquecidos de como se medir.”


A “via mensurae” é míster para que a Verdade seja apreendida por intermédio da genuína observação do cosmos, que primeiro consiste na introspecção para posterior exteriorização. A dialética hegeliana ocorre de forma preambular no indivíduo que, em seu espírito (sujeito cognoscente), rumina os elementos resultantes da averiguação da natureza (objeto), ocorrendo um abalroamento entre a novidade procedente da observância e o conhecido presente no espírito (seja consciente ou o subconsciente freudiano).

Inclusive, Deus adentra o processo da “kenosis” para inserir-se da maneira devida no processo histórico. O teólogo Karl Rahner, um dos mais importantes e criativos teólogos da tradição católica no século XX, disserta acerca da Trindade Imanente e a Trindade Econômica. Enquanto a primeira compõe-se nas pessoas trinitárias da forma que elas são no “kairós”, a segunda consiste no processo kenótico dessa mesma Trindade a fim de participar da História (“cronos”). Como exemplo, apesar da eternidade do Filho, este também passou a existir em dado momento por intervenção da “kenosis”. O termo Filho (“υἱός” = “huiós”) para referir-se a Yeshua, em grego (utilizado em João 3:16), carrega o significado de descendente masculino (alguém nascido de um pai e de uma mãe), termo que descreve a humanidade, tendo a conotação de fraqueza e mortalidade.

Quando o apóstolo João formula que o Verbo “habitou” entre nós (cap. 1, v. 14), ele vale-se do termo “σκηνόω” (“skēnóō” [“skay-no'-o”]), cujo significado é fixar o tabernáculo, ter o tabernáculo, permanecer (ou viver) num tabernáculo (ou tenda). Assim como na literatura veterotestamentária Yahweh estabeleceu esse tabernáculo em meio ao povo hebreu – seja na Arca da Aliança descrita em Êxodo ou no compartimento do Santo dos Santos no Templo de Jerusalém –, tal tabernáculo já consistia no pensamento rahneriano da economia da Trindade.

Para São Boaventura, a História não passa por dispensações; antes, Deus é um para toda a História e não se divide em três divindades. Portanto, a História é uma só, embora seja um caminho e – segundo São Boaventura – um caminho de progresso. O site Capuchinhos relata:


“Isto não significa que a Igreja é imóvel, fixa no passado, e que nela não possa haver novidade. ‘Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt’, as obras de Cristo não regridem, não vêm a faltar, mas progridem, diz o Santo na Carta ‘De tribus quaestionibus’. Assim São Boaventura formula explicitamente a ideia de progresso, e esta é uma novidade em relação aos Padres da Igreja e a uma grande parte dos seus contemporâneos. Para São Boaventura Cristo não é mais, como era para os Padres da Igreja, o fim, mas o centro da história; com Cristo, a história não termina, mas começa um novo período. Outra consequência é a seguinte: até àquele momento predominava a ideia de que os Padres da Igreja fossem o ápice absoluto da teologia, e que todas as gerações seguintes só pudessem ser suas discípulas. Até São Boaventura reconhece os Padres como mestres para sempre, mas o fenómeno de São Francisco dá-lhe a certeza de que a riqueza dapalavradeCristoé inesgotável e que até nas novas gerações podem despontar novas luzes. A unicidade de Cristo garante também novidade e renovação em todos os períodos da história.”


O processo histórico não sofreria de uma imobilidade, mas sim de um fator cíclico, pois os eventos macros tendem à repetição, embora a cotidianidade possa obter menor incidência dessa característica.

Ademais, o fator dinâmico não estaria presente na ótica trinitária, e o aspecto progressivo convergiria com a Revelação, embora a devida aplicação hermenêutica e exegética empreende-se imprescindível para a interpretação.

O papel escatológico de Israel, a própria encarnação do Verbo, o regimento de Deus e etc. no curso dos acontecimentos demonstram a interação divina com a História.



(Referências bibliográficas: Ratzinger, Introduction, 71.; https://www.capuchinhos.org/franciscanismo/artigos/sao-boaventura-de-bagnoregio; Concordância de Strong)



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