JOSEPH RATZINGER: UM SÓLIDO LEGADO TEOLÓGICO

Há aqueles que nunca morrem, pois seu legado permite com que sua voz ecoe perpetuamente, de geração em geração.

É o caso de Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, que foi para os braços do Senhor nesse último dia do ano de 2022, aos 95 anos de idade.

Tenho muito apreço pelo teólogo alemão, pois comecei a estudar sua obra na faculdade e permaneço nesse propósito até os tempos atuais.

Quando se fala em Ratzinger, o primeiro conceito que me vem à mente é o zelo pela ortodoxia, pela sã doutrina da Igreja, o apreço à verdade das Escrituras.

Ele defendia o posicionamento que “a cristologia é falseada quando não chega a ser ‘teo­-logia’”. Por isso, parte sólida de sua obra era uma “tentativa de apresentar o Jesus dos evangelhos como o Jesus real, como o ‘Jesus histórico’ em sentido verdadeiro e próprio”.

Durante sua trajetória de vida e pontificado, Joseph Ratzinger teve que lidar com inúmeras tensões teológicas, com destaque para o equilíbrio entre a ortodoxia e a práxis. Como dedicar-se à caridade em sintonia com a dedicação à busca pela verdade? Na encíclica “Caritas in veritate”, de 29 de junho de 2009, ele responde:


“Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade não cessa de enfrentar com o risco, daí resultante, de ser mal entendida, de excluí-la da vida ética e, em todo o caso, de impedir a sua correcta valorização. Nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e económico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade, não só na direcção assinalada por S. Paulo da « veritas in caritate » (Ef4, 15), mas também na direcção inversa e complementar da « caritas in veritate ». A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas esta por sua vez há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta. Facto este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente se não mesmo refractário à mesma.”


Para o teólogo, não apenas a caridade deve ser praticada como uma forma de expressar uma verdade bíblica, mas também a prática caridosa constitui-se numa forma de apreender e “cavar mais fundo” em busca da plena verdade. Isto é, na economia trinitária (e, nesse ponto, Ratzinger utiliza o conceito de seu patrício Karl Rahner), a caridade faz-se um meio de contemplar o divino.

Em outro momento, tecendo uma crítica à ênfase na prática e esquecimento do beber da fonte da Palavra (numa espécie de analogia ao labor de Marta perante Jesus, relatado na perícope Lucas 10:38-42), o ex-papa emérito pontuou determinados erros da supremacia da práxis em relação à ortodoxia:


“A verdade não deve ser compreendida em sentido metafísico; trata-se de ‘idealismo’. A verdade realiza-se na história e na práxis. A ação é a verdade. A única coisa decisiva é a práxis. A práxis torna-se, assim, a única e verdadeira ortodoxia.”


Ou seja, quando a ação torna-se a única e genuína verdade, a ponto de aspectos metafísicos serem tratados como vã abstração, há um problema teológico e doutrinário. A ortodoxia vai muito além da práxis, portanto, não deve ser resumida a ela. Na verdade, uma boa práxis é oriunda de uma boa ortodoxia.

Este é um dos maiores aprendizados que eu tive a estudar Ratzinger: a necessidade da atividade intelectual (ortodoxia) em prol de uma práxis correta, devidamente pautada nas Escrituras, que não encontra um fim em si mesmo, mas oriunda da Verdade de Deus.

Joseph Ratzinger é um dos maiores teólogos da Cristandade, e tivemos o privilégio de ouvir sua voz enquanto nessa Terra. Todavia, sem dúvidas, outros ainda ouvirão, pois sua obra urge e se faz necessária a todo tempo.




(Referências bibliográficas: https://www.paulus.com.br/portal/para-bento-xvi-o-que-e-a-teologia-uma-introducao/#.Y7ChqCVv-Ec; https://agencia.ecclesia.pt/portal/jesus-segundo-ratzinger/; https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate.html; https://cleofas.com.br/10-erros-da-teologia-da-libertacao-segundo-o-papa-bento-xvi/)






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