NATAL

– No 26° ano do reinado de César Augusto, um certo grupo de astrólogos e pastores chegavam e batiam na porta da casa de uma pobre família em Nazaré. Havia lá uma jovem com seu filho, filho este que foi presenteado com incenso, ouro e mirra. Nascia Jesus de Nazaré, e é presenteado pelos chamados Magos do Oriente.


– E é até engraçada a história de que Jesus nasceu mais ou menos em 4 a.C. porque contaram errado a primeira vez, e então colocaram como “zero” o nascimento de Jesus, aí foram contando, e descobriram que na verdade Ele não nasceu no “zero”, mas sim 4 anos antes, e não dava mais pra mudar nada.


– Curiosamente, essa relação entre presentes e o nascimento de Jesus é uma coisa bem antiga no cristianismo e gera polêmica já desde o começo das coisas. Os primeiros cristãos achavam um pouco estranho essas festividades em comemoração ao nascimento da pessoa de Jesus, e acabavam não vendo muita diferença entre esse tipo de celebração e a celebração a algum governante pagão.

Orígenes, o teólogo alexandrino do século III, reclamava e era contra esse tipo de comemoração ao nascimento de Jesus como se Ele fosse algum tipo de rei/faraó.

Sempre houve um relacionamento esquisito no começo do cristianismo entre a cultura e as manifestações de fé cristã.


– Mas como foi que o Natal realmente começou da forma que a gente entende hoje?

O mundo romano tinha algumas festividades que começavam perto do final do ano, como a festa da Saturnália, durante cinco dias a partir de 17 de dezembro, onde se homenageava Saturno, a antiga divindade do trabalho. Nessa festa, todo trabalho – com exceção da preparação de alimentos – era realmente proibido. E o mundo ficava de ponta-cabeça por um tempo: senhores e escravos trocavam de posição; era eleito um “senhor de desordem”; era obrigatório diversão, banquetes e tréguas nas brigas; as casas eram decoradas com velas e folhagens; as pessoas ganhavam presentes e as crianças ganhavam bonequinhos.


– Depois disso, vinha o Solstício de inverno, com a Brumália. E após 286 d.C. começou a festa do Sol Indômito, que era um dia para inspirar o patriotismo e bons pensamentos a respeito do imperador.


– E isso levava então a outra festa que eram as Calendas de janeiro que celebrava o início do Ano Novo.


– O pagão Libânio de Antioquia, que viveu no século IV, descreve esse período como se estivesse falando do Natal moderno. Ele diz o seguinte: “A festa das Calendas é celebrada por toda parte dentro dos limites do Império Romano. [...] O impulso de gastar toma conta de todos. [...] As pessoas são generosas não apenas consigo mesmas, mas também com seus camaradas. Um caudal de presentes jorra por todos os lados. [...] A festa das Calendas proíbe tudo o que está ligado ao trabalho e permite aos homens entregar-se à diversão tranquila. [...] Outra grande qualidade da festa é que ela ensina os homens a não se apegarem demais ao dinheiro, mas a se separar dele e deixar que ele passe para outras mãos”. Isso é citado por Clement Miles no livro “Christmas: Customs and Traditions, Their History and Significance”.


– Foi então que as mudanças políticas do século IV começaram a abrir as portas para o cristianismo naquele tempo. Primeiro como uma religião meramente tolerada, depois como a religião oficial do Império Romano. E foi isso que acabou levando à prática cultural da comemoração do Natal e à escolha do dia 25 de dezembro como período pra isso, em relação às comemorações pagãs que eles tinham anteriormente e com a data dessas comemorações pagãs.


– São Máximo de Turim enfrentou a argumentação anticelebratória de Orígenes com as seguintes palavras: “Vocês sabem perfeitamente que há muita alegria e congregação quando o aniversário do imperador deste mundo está sendo comemorado; que os seus generais, príncipes e soldados, envergando roupas de seda e usando cintos preciosos trabalhados com ouro reluzente, tentam se apresentar ao rei de um modo mais brilhante que o comum. [...] Se portanto, irmãos, os deste mundo celebram com tantos gastos o aniversário de um rei terreno em nome da glória da honra presente, devemos celebrar com muita solicitude o aniversário do nosso rei eterno, Jesus Cristo. Em retribuição à nossa dedicação, Ele nos concederá não a glória temporal, mas sim a glória eterna”.


– E nisso o cristianismo começou a expurgar do Império Romano muitas das festas pagãs que existiam antes e começou a criar festas cristãs em substituição a estas festas de origem profundamente pagãs.

Mas claro que isso não aconteceu de uma forma totalmente limpa e tranquila. Aqueles que não eram realmente cristãos, dentro da cultura romana, começaram a tentar ainda apreciar elementos de suas festas antigas dentro das novas cristãs, como no Natal e na Epifania, onde eles ainda colocavam certos elementos da Saturnália e das Calendas dentro dessas festividades. E apesar de muitas exortações cristãs ao contrário, muitos cidadãos usavam essas práticas ainda dentro das festividades cristãs.


– Em janeiro do ano 400, o bispo Astério de Amaséia fez um sermão que criticava os cristãos pelo fato de entregarem presentes no Natal. Ele faz isso na Homilia IV chamada “Contras as festas das Calendas”. Ele diz: “Mas que coisa mais absurda! As pessoas vêm chegando boquiabertas, esperando receber alguma coisas umas das outras. Os que deram estão abatidos, os que receberam um presente não o conservam consigo, pois possam-nos adiante para outros, e aquele que recebeu de um inferior o dá para um superior. O dinheiro dessa festa é tão instável quanto a bola num jogo de crianças, pois rapidamente passa de mim para o seu vizinho. Isso não é nada mais que uma nova forma de suborno e servilismo, à qual se liga inevitavelmente o elemento da obrigação. Pois o homem mais iminente e respeitável envergonha seus semelhantes forçando-o a presentear. As pessoas de origem humilde pedem abertamente, e tudo isso leva por etapas ao bolso dos homens mais ilustres. [...] A festa ensina até mesmo as crianças bem pequenas, ingênuas e simples, a serem gananciosas, e acostuma-as a irem de casa em casa e a oferecerem novos presentes, frutas com coberturas prateadas, em troca as quais elas recebem o dobro do valor, e assim começa a se imprimir na mente tenra dos jovens o que é comercial de sórdido”.


– E esse foi um alento muito frequente dos homens da Igreja durante os dois séculos seguintes. Por mais que algumas práticas mais absurdas acabassem sendo dirimidas e sumindo, como a prática de andar desfilando nas ruas com pele de animais, a troca de presentes continuou por muito tempo nesse processo.


– E assim durante toda a Idade Média, à prática de troca de presentes esteve presente durante todo o tempo do Natal. E lembrem que o Natal não era simplesmente um dia, o Natal era também uma época pra História da Igreja.


– Isso afetou até mesmo as relações feudais, onde a troca de presentes que acabavam subindo e descendo dentro das relações sociais se fazia ainda muito presente e consolidava essas relações dentro do feudalismo. Os cortesãos davam presentes aos reis para demonstrar sua fidelidade. Os papas e os reis demonstravam seu amor e fidelismo um ao outro através disso.

O escritor Samuel Macey no livro “Patriarchs of Time”, fala que houve um italiano em visita à Inglaterra nos anos 400 que escreveu: “Os subalternos os mandavam para os seus superiores, e os personagens nobres davam presentes magníficos ao rei, e para satisfazer a sua generosidade, voltavam liberalmente a lhe conceder alguma coisa”. Dizem até as más línguas que a Rainha Elizabeth I registrava o valor de cada presente recebido nominalmente, e muitos desses presentes chegavam a ser realmente dinheiro vivo. Nas escalas sociais superiores os presentes podiam acabar sendo um título de cavaleiro ou a entrada em alguma ordem especial, às vezes até propriedade rural.


– Então nós chegamos no começo do século XII. Lá pelo ano de 1100 d.C., São Nicolau era o santo mais poderoso do calendário da Igreja, talvez rivalizando unicamente com Maria, a mãe de Jesus.

A lenda diz que ele morava na cidade de Mira, a costa da atual Turquia, no início do século IV. E, supostamente, morreu em 6 de dezembro de 343.

Com a morte de São Nicolau, muitas histórias começaram a crescer em torno do nome dele: de que ele tá um presenteador, um milagreiro. Conta-se uma história de que um pai que não conseguia pagar o dote das filhas e ia acabar legando elas à escravidão ou à prostituição, São Nicolau conseguiu, às vezes em uma noite, jogar três sacos de ouro por cima do muro pra casa do pai que não teria como pagar o dote das filhas.

A fama de São Nicolau começou a crescer no século XII quando no fim do século XI roubaram os restos mortais (ou as relíquias corpóreas) dele. Os restos mortais de santos da Igreja eram um item precioso para o catolicismo porque trazia a ideia de que poderiam realizar milagres, e isso é muito bem documentado na história da Igreja. Quando roubam o corpo de São Nicolau, isso colabora para o crescimento da fé em torno dele e das suas histórias como um presenteador e como alguém que realizava muitos milagres e começou, com o tempo, a criar uma associação entre São Nicolau como um santo milagreiro e muito generoso que entregava presentes para as crianças e coisas assim e a própria prática de troca de presentes nesse período natalício.


– Foi a partir do século XII que houve uma verdadeira revolução na forma de conceder presentes. As crianças deveriam ir pedir presente de casa em casa pra conseguir algum presente na época do Natal e agora freiras devotas a São Nicolau começavam a deixar presentes de forma secreta a crianças pobres, e atribuíam ao próprio São Nicolau esse tipo de ação. Essa prática começou a ficar famosa por toda Europa ocidental e central. Isso se tornou tão popular que se criaram mercados de São Nicolau onde os presentes poderiam ser adquiridos especialmente.


– Com a Reforma (ou movimento protestante), a prática de comemorar o Natal e lembrar de São Nicolau nesse processo foi descontinuada em algum nível. Por causa do culto aos santos medievais os cristãos não queriam se relacionar com a prática de culto a São Nicolau. Interessante que, em muitos países católicos, esse presenteador místico deixou de ser São Nicolau e passou a ser o próprio Menino Jesus nesse processo de tentar continuar com algum nível de prática natalícia de troca de presentes.


– Interessante que Martinho Lutero tentou no começo uma convivência pacífica entre Menino Jesus e São Nicolau. Em 1532 ele disse o seguinte: “É isso o que fazemos quando ensinamos nossas crianças a jejuar e rezar, e a pendurar suas meias para que o Menino Jesus e São Nicolau possam lhes trazer presentes. Mas, se não rezam, elas não ganham nada, ou então ganham apenas uma vara e estrume de cavalo”. Mas já em 1570 ele começou a ter uma posição um pouco mais descontínua entre a ideia do Papai Noel e de Jesus. Ele chegou a tentar renomear o Natal tirando a ideia de festa de São Nicolau ou de alguma coisa que lembrasse o santo e chamar em um nome alemão “christkindl market”.

E, desde esse período da Reforma Protestante, há esse debate tão sério dentro da igreja evangélica se crente pode ou não comemorar realmente o Natal.



5 pontos para abordar acerca da comemoração do Natal:


– O Natal é um elemento bíblico. Jesus nasceu e Jesus ter nascido não é uma história pagã, não é uma questão meramente cultural. É bíblico, é teológico, está na Palavra de Deus: Jesus nasceu. Então é correto que se comemore um elemento que provém diretamente do cristianismo.

– Fazer isso (comemorar o Natal) é dar poder e atenção à encarnação de Cristo. A encarnação é um elemento escriturístico. Existem vários elementos da vida de Jesus e a encarnação é uma delas. Os teólogos bíblicos (Paulo, Tiago, Pedro) chamam a atenção para esse aspecto da encarnacionalidade do Messias. Os Evangelhos chamam atenção pra isso. E nós devemos dar atenção também para o fato de Jesus ter encarnado. Ele só morreu porque encarnou. Na Ceia nós comemoramos juntos o Natal, o nascimento do Jesus, por causa do aspecto físico do pão e do vinho, do corpo e do sangue. Na Ceia, nós estamos comemorando a fiscalidade do Messias que foi entregue na cruz, e isso aconteceu através da encarnação e do nascimento de Jesus.


– O Natal representa um ambiente de oportunidade e evangelística dentro de um período cultural muito importante. Os homens começam a dar mais atenção a elementos religiosos. Os homens que não possuem uma fé e que acabam respeitando esse momento natalício como um prática cultural importante, é uma oportunidade para falar de coisas relacionadas à fé, e que tem elementos religiosos que estão mais presentes na vida comum.


– É um ambiente propício à generosidade, à caridade e à bondade. Claro, existe um aspecto de comercialização do Natal e a gente não precisa participar disso se a gente não quiser. Mas há um espaço pra bondade no Natal que esta cerceando a esfera pública que pode ser usado também para a glória de Deus.


– Ignorar as festividades de Natal é dar poder ao abandono da religião e do cristianismo da esfera pública. Vivemos numa época em que as pessoas tentam tirar da arena pública tudo aquilo que é religioso. Tentam tirar elementos históricos da cultura que são religiosos, tentam tirar elementos religiosos que são fundantes da civilização, tentem impedir que o religiosos manifeste algo da sua moralidade interna e religiosa dentro da esfera civil.



8 contra-argumentos:


– A festa tem uma origem pagã: a festa veio em contraste com as festas em comemoração às coisas pagãs do período romano. Mas isto absolutamente não tem significado e relevância. A origem negativa (ou até mesmo pagã) de alguma coisa não faz com que aquilo seja necessariamente ruim. A origem de um elemento não atesta necessariamente sobre a moralidade do elemento. Isso é uma falácia genética. Teologicamente isso não se sustenta. Pensa em Gênesis e na criação de vários elementos culturais positivos como a harpa, como a flauta, a pecuária, instrumentos de metal, que provém de homens maus, segundo a descendência de Caim, separados de Deus. Coisas que Deus aprova e até usa no Céu, como a harpa, que foi criada por um homem ímpio, e tem harpa nos Céus, e Deus entrega nas mãos dos 24 anciãos (referências bíblicas: Gênesis 4:20-21; Apocalipse 4:10). Além disso, o Natal não é uma festa pagã; é uma nova festa, que veio em contraposição à uma festa pagã romana. Ele surge na mesma data, no mesmo período, justamente porque ele quer substituir uma coisa que existia antes. É interessante porque há outros elementos claramente pagãos na nossa cultura que nós não nos importamos muito: noiva usar véu e grinalda vem do paganismo romano; os pianos serem usados em caberés quando eles surgiram com a Reforma, ao invés do órgão, e agora igrejas tradicionais usam pianos; a origem dos dias da semana em inglês (Thursday = dia de Thor - deus nórdico do trovão e da guerra; Sunday = dia do Sol).


– Alguns vão dizer que a festa foi corrompida. A corrupção de uma festa com elementos profundamente cristãos não exige abandono, mas sim redenção. Comemoramos o Natal como o verdadeiro Natal, como um Natal correto, um elementos positivo, não segundo o mundo. Algo a ser redimido, e não algo a ser necessariamente rejeitado.


– Muitos argumentam que isso seria um calendário social se sobrepondo ao calendário religioso (não poder fazer os cultos dependente do calendário social). Isso é algo que não vem das Escrituras, pois não existe um calendário bíblico a respeito de atuações da Igreja. Nós não temos festas como os judeus possuam. Então não existe problema algum no calendário social afetar o calendário religioso se nós usarmos isso com sabedoria e inteligência. Nós estamos no mundo social comum.


– Vão dizer que Bíblia não manda comemorar o Natal. Que a gente tem que fazer o que a Bíblia manda, “princípio regulador do culto”. Nós temos a Bíblia falando sobre o nascimento de Jesus. Comemorar o nascimento de Jesus em uma data especial não é adicionar elementos ao culto; é simplesmente escolher um dia culturalmente propício dentro da nossa cultura pra chamar atenção pra um aspecto específico porque é um ponto da Teologia que está sendo muito comentado naquele período.


– Dizem que a Bíblia dá muito mais atenção para morte do que para o nascimento de Jesus. Não é porque a Bíblia chama mais atenção para um elemento que ela ignora outro elemento. A santidade de Jesus é um elemento importante, que está orbitando em torno do sacrifício dEle na cruz. A doutrina da encarnação é importante, mesmo havendo mais atenção para a morte que para o nascimento de Jesus.


– As pessoas podem corromper qualquer festividade por mais religiosa que seja (exemplo: Paulo e a Ceia).


– Comemorar o Natal é todo dia. Óbvio. Mas existir um dia especial pra comemoração disso não ignora o fato. Não é porque você comemora aniversário de casamento que você não gosta do seu casamento ou não comemora seu casamento todo dia.


– Jesus não nasceu no dia 25. Mas as festas romanas que existiam em contraposição àquilo que o Natal se propôs ser aconteciam em dezembro, e a data de 25 de dezembro acabou sendo escolhida arbitrariamente por causa dessa contraposição desse período que existia.


– Enfeites possuem origem demoníaca (árvores)? Não existe nada historicamente muito confiável que relaciona árvore de Natal com práticas pagãs e, se houver, ao importa, porque ninguém está adorando um falso deus ao enfeitar uma árvore e colocar luzes na frente de casa. A origem de um elemento cultural não diz tudo sobre o que aquele elemento cultural realmente representa, ainda mais quando sua origem não é considerada durante a sua prática.




(Referência bibliográfica: https://www.youtube.com/watch?v=xkMh9eqGo3c&t=594s)




— Se você gosta desse trabalho, CONTRIBUA através do PIX: supercrenteofc@gmail.com






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA