O QUE É A TEOLOGIA? | Comentário acerca de dissertação de Joseph Ratzinger

Joseph Ratzinger é um dos maiores teólogos vivos. Para quem não está familiarizado com o nome, o alemão é conhecido mundialmente como o Papa Bento XVI, cujo pontificado ocorreu de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013.

A coluna “Para Bento XVI, o que é a teologia? Uma Introdução”, por Rudy Assunção, datada de 02/02/2019 no site da editora Paulos, disserta:


“Num texto de 1979, Ratzinger se concentra em três teses que explicitam o seu conceito de teologia. Tratar-se-á de cada uma delas pormenorizadamente. A primeira tese é que a teologia se refere ‘a Deus’. Ele é o ‘objeto da teologia’. Aqui ele se distancia decididamente da concepção medieval baseada no ‘Liber Sententiarum’ de Pedro Lombardo, que se apoia em Santo Agostinho, que defendia que a teologia tem como objetos ‘res et signa’, doutrina das coisas e dos signos/sinais. Neste ponto específico Ratzinger parte de Tomás de Aquino, mostrando assim um pouco de sua face tomista. Assim, Ratzinger se posiciona frente à controvérsia teológica do século XIII entre duas escolas: a tomista, para a qual a teologia era ‘scientia speculativa’ e a franciscana, para qual esta era ‘scientia practica’. Na visão de Ratzinger esta controvérsia reemerge no debate pós-Vaticano II entre ortodoxia e ortopráxis. Onde esta concepção se radicalizou não se concebe mais uma verdade anterior à práxis; a verdade seria produzida pela práxis correta. A teologia, para Ratzinger, seria reduzida a uma introdução à ação; refletindo sobre a práxis a teologia abriria para ela novas possibilidades. A teologia reduzida à ‘scientia practica’ desemboca na perda de verdade. Aqui Ratzinger se apoia no axioma de Romano Guardini, que defendia o ‘primado do logos sobre o ethos’, do ‘primado do logos sobre a práxis’, ou seja, este último adotava também ele a visão tomista da teologia como ‘scientia speculativa’. O cristocentrismo deveria superar a si mesmo e fazer possível, por meio da história de Deus, o encontro entre o homem e Deus. Na linha também de Irineu de Lião, o pai da teologia propriamente dito, Ratzinger defende que a cristologia é falseada quando não chega a ser ‘teo­-logia’.”


Sendo a Teologia o estudo sobre Deus, objeto investigativo dessa ciência, naturalmente a metafísica superaria o mundo sensível ou a narrativa histórica. Não que estes não possuem sua devida importância – afirmar isto aviltaria contra o próprio mistério da encarnação –, mas sim que o olhar antes deve estar direcionado para o Alto, antes dos pés caminharem por esta presente realidade. Em suma, a contemplação precederia a ação. E podemos ir além: a plena ação “depende” da plena contemplação. Os dizeres “a Teologia se faz de joelhos” comprovam-se genuínos segundo esse raciocínio.

A Teologia possui incidência em cada momento histórico, mas não se limita a eles, tampouco suas bases fundantes se flexibilizam conforme o decorrer das eras. As réplicas ocorrem conforme as questões apresentadas, mas a Fonte do saber permanece a mesma, pois a Verdade é imutável.

Como dito, não há desassociação da Teologia com a História. Afinal, para Ratzinger o núcleo central da Teologia é Cristo. Em Sua pessoa, através da união hipostática, não há disparidade entre o divino e o humano. O mundo inteligível e o mundo sensível se fundem em Seu agir. O sacro é ressignificado, não consistindo naquilo que é meramente corriqueiro. Todavia, para utilizar o termo bíblico, as escamas não caem dos olhos se antes a Luz não for contemplada. Nesse sentido e por tal motivo, há a primazia da “sciencia speculativa” para que ocorra o devido raciocínio a respeito da práxis.

Nesse sentido, os chamados “teólogos de cátedra” tem seu lugar. Debates acerca de temas puramente bíblicos, que envolvem a hermenêutica e exegese (como quem eram os Nefilins, se Jonas foi de fato engolido pela baleia, ou a experiência sobrenatural vivida por São Paulo na Arábia), são tão importantes quanto abordagens históricas (temáticas que envolvem aspectos políticos e sociais, por exemplo).

O artigo pontua, finalmente: “Assim é que Ratzinger aponta para a segunda tese: ‘a teologia se ocupa de Deus, mas de acordo com o método filosófico’. Para ser fiel a seu ponto de partida histórico – o evento salvífico que está em Cristo – deve superar a história e dedicar-se a Deus. A fidelidade à práxis evangélica depende de sua autocompreensão como ‘scientia speculativa’. Aqui Ratzinger defende o ‘primado da verdade’, antes de qualquer ponderação sobre a sua utilidade prática”.



(Referência bibliográfica: https://www.paulus.com.br/portal/para-bento-xvi-o-que-e-a-teologia-uma-introducao/#.Y4gR2CVv-Ee)


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