PROTOEVANGELHO
O termo “protoevangelho” oriunda da língua grega, sendo que “proto” significa “primeiro (a)” e “euangelion” refere-se a “boas notícias” (originalmente, as boas notícias da vitória militar trazida de um mensageiro ao seu comandante. Em seguida, passou a significar simplesmente uma mensagem “boa”, como o arauto que caminhava pelo império anunciando as boas-novas de César).
Na Teologia, considera-se protoevangelho toda perícope da Bíblia Sagrada que realiza uma referência direta ao que seria revelado nos evangelhos sinóticos e joanino a respeito da vida e obra de Jesus de Nazaré.
Um exemplo:
“Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o descendente dela; porquanto, este te ferirá a cabeça, e tu lhe picarás o calcanhar.”
(Gênesis 3:15)
Nessa passagem do primeiro livro da Torá, a serpente seria a personificação do mal. Mediante o pecado do homem, houve início uma inimizade entre este mal a toda a raça humana (descendência de Eva), de modo que o ocorreu a perda por parte do homem de tudo aquilo outorgado por Deus no Éden. Todavia, em Cristo, o Plano Original foi recuperado, cujo ápice ocorrerá em sua segunda vinda através dos eventos escatológicos e estabelecidos do Novo Céu e Nova Terra (por isso, chamamos o Reino de Deus de “já” e “ainda não”, pois vivemos-o, não em plenitude, mas sim em potencial).
Paulo constrói essa teologia em uma de suas cartas:
“Um só homem, Adão, trouxe a morte a muitos, por causa da sua transgressão. Mas muito mais foi dado a muita gente pela abundância da graça de Deus e do dom que vem da graça, por intermédio de um só homem, Jesus Cristo. E o resultado da oferta graciosa de Deus é muito diferente do resultado do pecado daquele único homem. Porque o julgamento de um só pecado de Adão trouxe a condenação, enquanto o dom gratuito de Deus nos dá a justificação de muitas transgressões.”
(Romanos 5:15-16)
Ou seja, o apóstolo argumenta que Jesus recuperou o que fora perdido por Adão. Portanto, Ele é quem pisou na cabeça da serpente, pondo fim à maldição de Gênesis.
Os Pais da Igreja e os exegetas interpretam essas palavras como o primeiro anúncio da salvação, que Cristo trouxe “destruindo as obras do demônio” (1 Jo 3:8).
Um segundo exemplo de protoevangelho está relatado no livro do Êxodo:
“Quando o SENHOR passar para matar os egípcios, verá o sangue ali nos batentes e não deixará que o Anjo da Morte entre nas suas casas para matá-los.”
(Êxodo 12:23)
Esse princípio do sangue aspergido que afasta a morte fez-se presente na celebração judaica do Yom Kippur (Dia da Expiação). O sumo sacerdote oferecia um novilho como oferta pelo pecado dele próprio e da sua família (Levítico 16:3,6,11). Posteriormente, o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos com o sangue do novilho. Então, ele aspergia o sangue do novilho sete vezes sobre o propiciatório que ficava sobre a Arca da Aliança. Além disso, ele também carregava o incensário com brasas tiradas do altar. O incenso servia como uma nuvem que cobria o propiciatório e evitava que o sumo sacerdote morresse pelo contado com a presença de Deus (Levítico 16:12-14). Por fim, o sumo sacerdote também aspergia o sangue do animal sacrificado sobre o povo, que participava da celebração do lado exterior do templo e, todos trajados com vestes brancas, aguardavam a aspersão do sangue. [1]
Ao meu ver, não se pode confundir o conceito teológico do protoevangelho com o conceito da tipologia, pois enquanto o primeiro refere-se a elementos do Evangelho anteriores a ele, o segundo consiste em tipos/repetições que ocorrem ao longo de quaisquer narrativas das Escrituras por inteiro, não restringindo-se apenas ao Evangelho.
A serpente também é um elemento essencial desse escopo do protoevangelho. A serpente não é concebida como puro símbolo da concupiscência ou como disfarce do demônio; pois contra um símbolo ou uma máscara não poderia ser pronunciado um castigo físico. Ela é apresentada, portanto, como um animal real, mas não como um animal comum, nem mesmo como um animal do mundo das fábulas. O autor, que descreveu de modo tão concreto a superioridade do homem sobre os animais (Gn 2:19), não atribuiria a um simples animal uma sabedoria e um conhecimento que o homem não possuísse; aliás, a serpente não é superior aos demais animais por saber falar ou por ser mais inteligente, e sim por conhecer o segredo divino da árvore e por rebelar-se contra Deus. A serpente, portanto, é o animal mágico que dá ao homem conhecimentos superiores e a vida (cf. Nm 21:9), conforme era concebida e venerada no mundo semítico, ou então, uma fera mitológica de natureza antidivina, figura de Satanás.
Ora, a serpente de Gn 3 manifesta-se como inimiga de Deus, por acusá-lo de inveja e de mentira (v. 4) e do homem porque o engana propositadamente (v. 13) e o excita à revolta contra Deus (v. 4 e seguintes). Não é a serpente que dá ao homem um conhecimento superior, mas o fruto da árvore (v. 7,11,22); a serpente apenas conhece as propriedades daquele fruto. A serpente, portanto, não é aqui o “animal da vida”, que dá ao homem a vida e (no modo de pensar do autor) a morte; ela só convida o homem a comer do fruto que causará a morte (2:17; 3:19); a serpente causa diretamente o pecado e só indiretamente a morte e outros castigos pelo pecado (3:16-24). A serpente, portanto, é um poder antidivino que causa desgraças, figura semelhante à serpente de sete cabeças, Leviatã (Is 27:1; Sl 74:12; Job 3:8), que na mitologia fenícia colabora com o deus da seca e da morte, e a Raab, o dragão que foi transpassado por Yahweh nos primórdios (Is 51:9; Sl 89:10-12; Job 26:12; 9:13; 7:12).
Na Babilônia um dos mais temíveis dos “sete” maus demônios é uma serpente, e entre os satélites de Tiâmat, o caótico oceano primordial, havia terríveis serpentes, aniquiladas por Marduc, quando esmagou sob os pés o pescoço de Tiâmat (“Enuma elis”1,131-139; 4,104.128). Aliás, em todo o Oriente Antigo a luta de um deus contra uma serpente ou um dragão é um tema muito espalhado. A serpente, portanto, é muitas vezes no Primeiro Testamento e no Oriente Antigo, um ser demoníaco, antidivino, causador de males; por isso ela aparece em Gn 3 como a tentadora, que excita o homem contra Yahweh, causando assim a sua perdição; e a própria Sagrada Escritura vê neste animal demoníaco o demônio ou Satanás (Jo 8:44; Ap 12:9; 20:2). Por haver seduzido a mulher ao pecado, a serpente é amaldiçoada por Yahweh e feita o animal mais desprezível: terá de andar de rastros sobre o ventre (o que ela, na concepção do autor, não fazia antes; no Oriente Antigo as serpentes mitológicas muitas vezes são representadas em posição erguida) e terá de comer pó (Mq 7:17; Is 65:25), como os habitantes dos infernos, e haverá luta entre ela e sua descendência de um lado e a mulher e sua descendência do outro.
A narrativa de Gn 2 quer explicar a origem da morte e dos sofrimentos desta vida, descrevendo, por meio de elementos concretos e pitorescos, oriundos de concepções populares do antigo mundo semítico, como o homem, criado por Yahweh em estado de amizade com o seu Criador e de perfeita felicidade, se deixou seduzir ao pecado, perdendo por isso esses dons, e sendo castigado com a morte e todos os sofrimentos da atual vida humana Paraíso. [2]
Na mitologia nórdica, a figura da serpente também aparece. Quando o deus Loki, casou-se com sua primeira esposa, Angrboda, o líder dos clãs da Floresta de Ferro, eles tiveram três filhos. O primeiro deles foi Hel, a deusa da morte. O segundo é Fenris, o deus da destruição. E a terceira é uma serpente mágica que nasceu do seio de Angrboda, como uma cachoeira escamosa – sob o disfarce de uma enorme serpente verde.
Na Floresta de Ferro, muitos gigantes nasceram na forma de animais, e em alguns animais eram tão fortes que eles nunca assumiram uma forma humana. Mas a Floresta de Ferro gerou cães ou lobos como Garm, o leal guardião de Hel, ou Fenrir, o filho mais velho de Loki e Angrboda, e uma criança como a Grande Serpente, nasceu em Niflheim – o dragão Nidhogg, filha de desconhecidos gigantes de gelo.
A carne viva dessa serpente carrega os encantos da magia de Odin para proteger os habitantes mortais de Midgard das invasões de outros mundos. Portanto, é chamada de Serpente, ou Serpente de Midgard, ou a Serpente do Mundo: é assim que seu nome é traduzido, “Jormungand”. [3]
Da mesma forma, na mitologia grega a serpente consta. Hércules, filho de Zeus (deus-mór do Monte Olimpo) com a mortal Alcmena. No entanto, Zeus era casado com a deusa Hera que, por muito tempo, demostrou antipatia ao filho bastardo. Assim, Hera tenta matá-lo com uma serpente ainda quando era pequeno. No entanto, no berço e muito destemido desde criança, o herói estrangulou as serpentes e salvou a vida de seu irmão Íficles.
Mas não foi apenas nesse episódio que a serpente ocupa papel de destaque na narrativa mitológica. Um dos 12 trabalhos de Hércules foi matar a hidra de Lema, uma serpente gigantesca com várias cabeças. Elas renasciam assim que eram cortadas. Para tanto, a cabeça do meio era imortal. [4]
Nesse sentido, o protoevangelho também se faz presente em outras vertentes religiosa ou mitológicas, e por isso precisamos remontar a uma teoria de um dos principais teólogos: São Justino.
São Justino converteu-se ao Cristianismo por volta do ano 130, mas antes tinha se dedicado ao estudo da filosofia grega; copiando uma prática dos filósofos gregos, fundou uma escola em Roma com a finalidade de transmitir os ensinamentos cristãos. Morre decapitado com outros seis cristãos em 165.
Para sua conversão, porém, revelou-se determinante o testemunho dos mártires: “Quando ainda era discípulo de Platão, eu ouvia as acusações dirigidas aos cristãos. Mas, vendo-os intrépidos diante da morte e diante daquilo que os homens mais temem, compreendi que era impossível que eles vivessem no mal.”
Segundo São Justino, o homem pode saber, por meio do intelecto, que Deus existe, mas esse conhecimento é incompleto, a não ser que se tenha fé em Cristo, o Verbo (“logos”) encarnado, que realiza a plena revelação divina. Para explicar esse argumento, o apologista lança mão do estoicismo (o “logos” enquanto organizador do universo).
Tomando emprestada essa ideia, Justino afirmava que Deus planta na alma dos homens de boa-vontade as suas “logos spermatikoi”, as sementes do Verbo. Por isso, todos os grandes filósofos da Antiguidade teriam vivido e pensado em maior ou menor medida segundo a vontade de Deus. Entretanto, somente os cristãos tem a plenitude do Verbo, e não somente fragmentos dele, por meio da fé. [5]
A teoria das “sementes do Verbo” é uma das ideias mais inspiradas da obra de São Justino, e muito elogiada pelo Papa Bento XVI. [6]
E, não apenas os filósofos, mas outras mitologias; literatura pagã; atualmente, elementos da cultura pop (produções cinematográficas e televisivas; até mesmo uma partida de futebol (servindo como um “evangelho mimético”). Todos estes itens podem carregar partículas do protoevangelho (cuja presença mais densa ocorre de fato nas Escrituras) ou analogias (no caso, o evangelho mimético). [7]
(Referências bibliográficas: [1] https://estiloadoracao.com/dia-da-expiacao-yom-kippur/amp/; [2] http://amosboiadeiro.blogspot.com/2016/01/o-que-e-proto-evangelho.html?m=1; [3] https://yggdrasil.home.blog/2019/07/15/jormungandr-viking/; [4] https://www.todamateria.com.br/hercules/; [5] http://unimep.br/~taasanto/Pensadores%20Patristicos.doc; [6] https://pt.aleteia.org/2020/06/01/sao-justino-e-as-sementes-do-verbo/amp/; [7] https://m.youtube.com/watch?v=IPMUTlNTfeY)
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