EM BUSCA DA VERDADE
Certa vez, perguntei a um amigo que era seminarista católico: “Por que vocês estudam 4 anos de Filosofia antes dos 4 anos de Teologia?” Pois, na época, não entendia o porquê da obrigatoriedade do estudo filosófico para o sacerdote. Ele me respondeu: “A Filosofia desconstrói, e depois a Teologia reconstrói”. Hoje, após alguns anos de estudo de ambas as matérias, vejo que o raciocínio procede.
Estudar Kant, Schopenhauer, Nietzsche (grandes vultos do Idealismo Alemão), ler Kafka e Freud, entre outros notáveis, faz-nos questionar muito do que imaginávamos saber. Contemplar a linha de pensamento desses autores, que não prevê a possibilidade de apreensão de uma verdade substancial, do conhecimento puro, do pleno discernimento, levanta uma questão em nosso ser: “Então, o que é a verdade?” Sim, a mesma pergunta que Pôncio Pilatos fez diante da Verdade em pessoa (cf. João 18:38).
Nietzsche dizia que a ambição de descobrir uma verdade intrínseca às coisas não passava de uma crença similar a qualquer crença religiosa.
Para o austríaco, há a negação da possibilidade de conhecimento de uma verdade substancial a partir da afirmação de presença de um filtro cognitivo que transforma todo conhecimento em manifestação de conceitos previamente elaborados pelo sujeito cognoscente.
Em outras palavras, não existiria uma razão pura, conforme apregoava o Iluminismo francês, pois todo raciocínio estaria imbuído da pessoalidade do sujeito cognoscente.
Sigo a linha de pensamento platônica, de que vivemos em um mundo de sombras, simulacros, aparentes verdades (mas que não são a verdade em si). Vivemos na caverna imaginando que esta é a realidade última. Vislumbramos o que a luz do sol nos permite, projetando a sombra das verdadeiras formas. Todavia, há a possibilidade de nos libertamos dos grilhões, sair da caverna (ou da Matrix, na linguagem do longa homônimo de 1999) e visualizar a verdadeira forma das coisas em si.
Entretanto, sob qual luz solar estamos observando o cosmos? E teria como fitarmos o próprio sol? Nas palavras do escritor britânico C.S. Lewis (1898-1963): “Eu acredito no Cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor”.
Conforme ensinou o professor Olavo de Carvalho: “A inteligência é um órgão – digamos assim: um órgão – que só serve para isto: captar a verdade”. Para Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), o conceito de felicidade (“eudaimonia”) consiste no alcance do Sumo Bem – sendo a ética o caminho que o conduz a tal. E Cristo ensina: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6).
É plausível acreditar que há sim uma verdade última, há o que é factível é genuíno daquilo que é falacioso é inverídico. O esforço na busca sincera pela Verdade provê felicidade ao homem.
O esforço do raciocínio do sujeito enquanto relação com a Transcendência consiste na busca da Verdade. Pois, conforme dizia Lewis, os homens estudam as leis devido ao fato de terem consciência que há um Legislador. Se há, portanto, esse Legislador, logo os elementos não foram dispostos de forma aleatória no cosmos; ademais, o Primeiro Motor, conforme o pensamento de Aristóteles, seria dotado de razão pois há racionalidade no universo. Enfim, se há razão, organização e sentido, estamos em busca de uma Verdade, e não do menos caótico.
Um ambiente acadêmico, por exemplo, é feito em vista do debate de ideias e ensinar o sujeito a pensar. O debate mediante a miríade de pensamentos dar-se-ia como o processo do oleiro moldando um vaso de barro, com objetivo de alcançar aquilo que é excelente e genuíno.
Há uma Verdade, e quando exercermos o labor intelectual, temos em vista alcançá-la.
(Referências bibliográficas: https://olavodecarvalho.org/inteligencia-e-verdade/; https://filosofiadoinicio.com/2021/08/primeiro-motor-imovel.html)
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