INTELLIGENS LIMIS | dissertação sobre temática abordada por Jonas Madureira

“Como pastor da igreja e professor de filosofia e teologia, convivo o tempo todo com pessoas divididas entre os dois polos: o do sacrifício do intelecto em favor da fé e o do sacrifício da fé em favor do intelecto.

De um lado, estão aqueles que afirmam que a existência de Deus é uma questão de fé somente e, por conseguinte, eliminam todas as questões difíceis que envolvem a existência de Deus, como, por exemplo, o problema do mal. Do outro lado, estão aqueles que reduzem a existência de Deus a uma questão de lógica e, por conseguinte, eliminam todos os problemas relacionados aos limites do conhecimento humano como, por exemplo, o problema dos efeitos noéticos da Queda.”

(MADUREIRA, Jonas)


Propondo-me a comentar estas breves mas densas palavras do teólogo e filósofo Jonas Madureira, vislumbro singular oportunidade de debruçar-nos sob o aspecto racional inerente ao culto a Deus, conforme orientação paulina.

Faz-se mister admitirmos que o arcabouço da fé (e aqui poderíamos utilizar o termo “fides quae”, definido pelo arcebispo e teólogo Rino Fisichella como “o conteúdo da fé que é aceito pelo fiel, as diversas verdades de fé que são acolhidas ou cridas como uma só coisa, em um só ato”) não constitui-se de uma uniformidade, mas sim de aparentes contradições apresentadas pela economia trinitária, que certamente não o são na imanência da mesma e mediante uma compreensão integral das Escrituras, sendo sonora esta impossibilidade devido ao fato de que nossas naturezas vitais estão maculadas pelo pecado, inclusive as faculdades cognitivas. Todavia, aqui, não há alusão estrita a estas últimas, mas sim a um elemento somático, no sentido dos dizeres de Santo Tomás de Aquino na “Suma Contra os Gentios” de que o pecado obscurece o raciocínio.

Tais aparentes contradições podem ser minimizadas ou mesmo absorvidas pelo intelecto mediante um rendimento da razão perante a certeza da metafísica, sendo portanto o desvelado pelo “kosmos” insuficiente para sínteses definitivas a respeito de qualquer temática – seria o visualizar “por espelho em enigma”, de acordo com a teologia de Paulo (cf. 1 Cor 13:12).

Um clássico exemplo é a teodiceia (Leibniz introduziu o termo “teodiceia” a partir das raízes gregas teo, “Deus”, e dikê, “justiça”. Uma teodiceia é uma tentativa de mostrar que a justiça divina é compatível com o mal [1]). Desde o filósofo grego Epicuro (341 a.C.-271 a.C.) ao astrofísico Neil DeGrasse Tyson (1958-), questionamentos acerca da dinâmica do agir divino são postas em evidência.

Seria a razão suficiente para explicar a teodiceia? O “theatrum gloriae Dei” calvinista constitui-se na mais excelente réplica? Ou o “salto da fé” kierkegaardiano é imprescindível nesse quesito?

Fatores como a natureza adâmica, a economia trinitária e a limitação da revelação de Deus torna um pleno entendimento inalcançável – algo que Santo Agostinho já deduzira ao afirmar acerca da incompreensibilidade divina.

Até mesmo o “Mysterium fidei” entraria nessa categoria, pois trata-se do tópico que jamais poderá ser esgotado em sua compreensão.

Certamente, a razão serve como auxílio para aquilo que de forma ontológica ansiamos por saciar. Entretanto, a convicção de que a jornada intelectual encontrará seu ápice apenas diante da Transcendência como ela é, traz-nos a necessária humildade socrática (evocada diante do oráculo de Delfos) e a submissão petrina (ao desarmar sua inteligência no ato do lava-pés), imprescindíveis em tão nobre ofício de conhecer.




(Referências bibliográficas: https://www.instagram.com/p/Cgz6HX8u-nl/?igshid=YWJhMjlhZTc=; http://berakash.blogspot.com/2020/06/fides-qua-fe-em-que-e-fides-quae-fe-que.html?m=1; [1] https://estadodaarte.estadao.com.br/leibniz-e-o-problema-do-mal/)






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