LEI MORAL E JUSTIÇA ESPIRITUAL | dissertação sobre temática abordada por Davi Lago

“(...) Deus usa a lei moral pedagogicamente, a fim de ensinar aos crentes, aqueles que aceitaram a sua graça, o significado do desenvolvimento espiritual, a piedade.

(...)

A lei moral ensina não apenas a justiça civil, comum a todas as pessoas, mas a justiça espiritual aos que são cristãos. A lei moral não apenas age coercitivamente contra a violência e o crime, mas também cultiva a virtude. Para Calvino, a lei moral é para os cristãos verdadeiros ‘um excelente instrumento pelo qual aprendem, melhor e mais certamente no dia a dia, qual é a vontade do Senhor, à qual aspiram, para que sejam confirmados em seu entendimento’.”

(LAGO, Davi. Brasil Polifônico: os evangélicos e as estruturas de poder. p. 128-129)


Ao convocar o Concílio Vaticano II, inaugurado em 1962, o Papa João XXIII intentava abrir as janelas da Igreja para que o ar fresco pudesse adentrar. Fazia-se necessário um novo sopro do Espírito Santo a fim de oferecer o devido discernimento dos “sinais dos tempos”.

A Igreja tem respondido às questões propostas pelo mundo?

É uma pergunta ressonante que deve ser efetuada de forma constante por todo cristão sincero.

Por exemplo, quando se indaga acerca da plausibilidade atual dos mandamentos bíblicos e dos ensinamentos de Cristo acerca de uma conduta empática, piedosa e justa. O que isso comunica para o homem pós-moderno, imerso em um mundo no qual parece que a individualização tornou-se imperativo?

Bom, desde Thomas Hobbes (1588-1679) que a lei é vista como uma necessidade, e não luxúria por parte daqueles que as elaboraram e as aceitam. Nesse sentido, a lei seria a minimizadora de conflitos, o limite entre a organização e o caos social.

Todavia, numa ótica teológica, a lei não se restringe ao âmbito jurídico, mas é um convite a algo mais: o desenvolvimento das virtudes. Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) argumentava que a prática virtuosa guiaria o homem rumo à felicidade. Ademais, a virtude seria alcançada mediante a prática. Quando Jesus Cristo ensina que o segundo maior mandamento é “ame o seu próximo como a si mesmo”, Ele está dizendo que este mandamento é fundamental para que o primeiro faça sentido: “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento”. Não ver Deus no semelhante dificulta ver Deus em qualquer outro lugar, a ponto de que não amar o próximo certamente é fruto de uma defasagem no entendimento do próprio amor divino para si, pois quem compreende a obra redentora no Calvário, de forma natural inclina-se em direção ao outro (cf. Lucas 7:47).

Logo, compreendendo o outro como ser humano de fato, parte essencial e quiçá central do exercício de minha espiritualidade, a consciência moral não estaria originalmente atrelada ao Estado, mas sim a Deus, transformando o “dar a César” como mera consequência do que antes foi “dado a Deus”, isto é, a consciência mesma.

Portanto, a compreensão bíblica acerca da justiça espiritual pode contribuir diretamente para o bem-estar social, potencializando a lei para além do nível coercitivo, mas sim como fomento às boas práticas civis.





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