NÁRNIA, LÁ VOU EU!

Estamos na Segunda Guerra Mundial. Londres é intensamente bombardeada, não há casa segura. O governo tenta minimizar as perdas humanas evacuando as crianças para as áreas rurais. Especialistas são convocados para saber qual a idade mínima para afastar mãe e filho sem danos irreversíveis. Os psicanalistas Winnicott e Bowlby acreditam que até os dois anos de idade é melhor expor-se aos bombardeios do que se separar da mãe. O resto das crianças vai para o interior, mesmo que em situações improvisadas. Dos males o menor. Esse é o pano de fundo de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, livro da série “As Crônicas de Nárnia”, universo criado pelo escritor britânico C.S. Lewis (1898-1963).

Nossos heróis retirantes, os irmãos Peter, Susan, Edmund e Lucy vão parar numa mansão, onde são as únicas crianças numa casa de velhos. Nas suas brincadeiras para afastar o tédio descobrem um velho guarda-roupa que é um portal para um outro mundo: Nárnia.

Logo que deparei-me com essa história, achei os elementos bem sugestivos. Imagina só, você, uma criança vivendo num contexto de guerra, longe de casa e da sua família. Um cenário terrível! Porém, em meio a esse caos, surge um magnífico escape: um guarda-roupa que leva para um mundo o qual os habitantes são faunos, centauros, anões, ciclopes, sátiros, gigantes, uma grande variedade de seres mágicos do acervo da mitologia europeia, assim como animais falantes. Lá, uma feiticeira rainha (que lembra “A Rainha da Neve”, conto de fadas do autor dinamarquês Hans Christian Andersen, publicado pela primeira vez em 21 de dezembro de 1844) má e usurpadora do trono impede a chegada do verão, portanto vive-se um inverno perpétuo e o que é pior: sem Natal. Quem não obedece ao mínimo de seus caprichos vira estátua. Mas nem tudo está perdido. Aslam, um rei leão, lidera um exército que vem trazer liberdade e calor para esse mundo sem esperança. O destino da terra encantada de Nárnia já estava escrito nas profecias: seria governado pela despótica e destrutiva feiticeira por um longo inverno e libertado desse jugo por Aslam, auxiliado por quatro crianças humanas, a quem estão destinados quatro tronos.

Lembrou de algo?

Vivemos em um mundo que parece estar cada vez mais cansado. Os quatro cavaleiros do Apocalipse (Fome, Guerra, Peste e Morte) parecem estar soltos a todo vapor. Eis que um livro velho, de capa preta, faz-nos um convite para entrar em outro mundo. Quem diria que um velho guarda-roupa seria uma passagem para o mundo mágico de Nárnia? Quem diria que um velho livro de capa preta seria uma passagem para o mundo verdadeiro e eterno?

Antes de continuarmos, aprecie este belo texto do teólogo e pastor John Piper:


“Deus escreveu um livro. Essa realidade me deixa de queixo caído sempre que eu paro para pensar. Páginas e mais páginas de Deus – seus pensamentos, suas palavras, seu coração – a somente alguns centímetros de distância. Eu posso levar comigo para onde eu for e ler quando eu quiser.

Quando abrimos a Bíblia, o que nós vemos? Nós vemos o próprio Deus no livro. Se não o encontrarmos aqui, não o encontraremos de outra maneira – não com alguma esperança de amizade.

Ler a Bíblia é uma das coisas mais importantes que podemos fazer. É mais valioso do que qualquer outra coisa que nós temos e mais doce do que qualquer outra coisa que já comemos. É literalmente mais importante do que respirar.

Mas não é isso que sempre vemos e sentimos quando abrimos a Bíblia. Nossos olhos fracos, cansados e distraídos só conseguem enxergar um retrato maçante e sem vida na parede. Mas não é um retrato. É uma janela. Não é algo sem vida que fica pendurado em uma moldura velha na parede. É algo que atravessa a parede e dá acesso a outro mundo – o mundo real, o mundo duradouro, o mundo melhor. A divina luz brilha nessa janela e transforma tudo ao nosso redor.

Todos sabemos que o caminho para o conhecimento de Deus não é fácil. Disciplina e determinação são importantes, mas só podem levá-lo até certo ponto – alguns dias, uma semana, talvez um mês. A longo prazo, precisamos de algo mais forte, mais persuasivo do que a disciplina e a determinação. Há muitas armadilhas e obstáculos no caminho.

No fundo, a razão pela qual nós não lemos a Bíblia é que não queremos ler a Bíblia. Nós não enxergamos alegria, paz e vida quando vemos aquela capa de couro em nossa prateleira. Nós vemos uma parede, não uma janela – o retrato maçante, não a eterna beleza de outro mundo. Então, nós postergamos a leitura, deixamos a Bíblia fechada e seguimos em frente. Nós ficamos na cama e deixamos de contemplar o milagre. O Deus que disse, ‘Das trevas resplandecerá a luz’, ama iluminar as mentes e os corações com sua Palavra.

Deus escreveu um livro. Através de seu livro – estas palavras diante de nós – ele desperta as nossas almas mortas e entediadas, liberta-nos da escravidão do pecado – desejos que roubam as nossas vidas -, consola os deprimidos, inspira os desanimados e direciona os que estão confusos. Ele nos capacita a fazer a diferença por sua causa no mundo. Para sempre, ele nos satisfaz completamente através de palavras – as palavras dele.

Se eu vou ler a minha Bíblia amanhã? Para onde mais eu iria? De que outra maneira eu poderia conhecê-lo? De que outra maneira eu poderia me preparar para se alegrar nele para sempre? Sim, eu vou passar o resto da minha vida olhando por essa janela, na expectativa de vê-lo mais uma vez – mais um milagre, mais um vislumbre do meu Deus.”


A Bíblia é um livro mágico.

Qual outro livro faz brotar vida em quem o lê? Não digo um entusiasmo momentâneo, mas sim vida, e vida que jorra para a eternidade.

Se a Bíblia fosse um livro qualquer, o Diabo não faria tanto esforço para impedir-nos de lê-la. Experimente maratonar séries ou ler qualquer outro livro. Não deverá encontrar muita dificuldade. Agora, experimente meditar nas Escrituras. Ele virá para detê-lo, pois sabe o impacto que isso causará.

Se a Bíblia fosse um livro qualquer, governos não proibiriam sua circulação.

Mas não é um livro qualquer.

O escritor e pastor Max Lucado observa:


“A Bíblia é um livro peculiar. Palavras lapidadas em outro idioma. Atos realizados numa era antiga. Eventos registrados numa terra distante. Conselhos oferecidos a um povo de outro país. Este é um livro peculiar.

É surpreendente que alguém a lê. É antiga demais. Alguns dos escritos têm mais de cinco mil anos. É bizarra demais. O livro fala de dilúvios incríveis, incêndios, terremotos, e pessoas com habilidades sobrenaturais. É radical demais. A Bíblia nos chama para uma devoção eterna a um Carpinteiro que se autodeclarou Filho de Deus.

A lógica nos diz que esse livro não poderia sobreviver. Velho demais, bizarro demais, radical demais.

A Bíblia já foi banida, queimada, zombada e ridicularizada. Peritos já a trataram com escárnio. Reis já a baniram. Milhares de vezes o sepulcro já foi cavado e o hino do enterro entoado. Mas, nunca a Bíblia fica no túmulo. Ela não só sobreviveu, mas, prosperou. É o livro mais popular da história. Tem sido o livro mais vendido no mundo por mais de trezentos anos!

Não há na face da terra como explicar isso. Que talvez seja a única explicação. A resposta? A durabilidade da Bíblia não encontra explicação na terra; é encontrada somente no céu. Para os milhões que já testaram suas declarações e provaram suas promessas há somente uma explicação – a Bíblia é o livro de Deus e a voz de Deus.”


Entre 1941 e 1944, o Reino Unido enfrentava a Segunda Guerra e o povo britânico precisava de algo: uma voz amiga. Em resposta, a Rádio BBC chamou C.S. Lewis para fazer uma série de palestras a fim de levar conforto e esperança às pessoas que estivessem em suas casas ou nas trincheiras (e, posteriormente, essas palestras tornariam-se o clássico literário “Cristianismo Puro e Simples”).

Ou seja, Nárnia era o escape para Peter, Edmund, Susan e Lucy assim as ministrações da Palavra por parte de Lewis eram um alívio para a alma do povo britânico naquele contexto de guerra.

Assim como a Bíblia é esse escape e alívio ainda hoje para as almas atormentadas, oprimidas, cansadas, sobrecarregadas, ansiosas, depressivas, sem esperança.

Se eu vou escolher entre ficar assistindo na TV barbáries, promiscuidade e notícias de mazelas ou viajar para o outro mundo, que é real, perfeito e eterno? Nárnia, lá vou eu!




(Referências bibliográficas: http://www.marioedianacorso.com/narnia-cronicas-da-infancia-em-tempos-de-guerra; https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/08/deus-escreveu-um-livro/; https://www.hermeneutica.com/mensagens/na-palavra/; https://veja.abril.com.br/coluna/radar/classico-de-c-s-lewis-da-segunda-guerra-ganha-versao-em-audiolivro/)






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