O IMPACTO DA REFORMA PROTESTANTE NA EDUCAÇÃO

A Reforma Protestante, ocorrida no século XVI, extrapolou o ambiente eclesiástico e teológico e exerceu influência sobre outras esferas da sociedade, como a economia, a política, e também a educação.

“Antes da Reforma Protestante tomar forma, o direito à educação era restrito aos nobres e ao clero. Foi Martinho Lutero quem iniciou um movimento para modificar esse cenário. Em uma de suas cartas endereçadas aos príncipes europeus, Lutero reivindicava que fossem criadas escolas acessíveis a todos. A carta, com teor crítico, solicitava que todas as comunidades tivessem suas próprias escolas”, explica o reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) Benedito Guimarães Aguiar Neto sobre o legado que a Reforma deixou para a educação.

Essa ímpeto luterano de expandir o acesso educacional pode ser explicado através de determinados conceitos, dentre eles: a alfabetização do povo, que possibilitaria a plena compreensão da Bíblia; e o entendimento da dignidade do ser humano, sendo o direito à educação essencial para esta.

Foi durante a Reforma Protestante que a ideia de uma educação voltada para todos começou a ser elaborada. Essa educação, sob os auspícios da religião, tinha como objetivo possibilitar ao fiel o acesso aos textos bíblicos. Assim, a educação era um elemento necessário para a disseminação da nova fé.

Como ter um contato denso com as Escrituras, não estritamente mediado pelo magistério (além da tradição da Igreja), se o indivíduo não obtivesse o mínimo da formação acadêmica?

Adentrando no segundo aspecto. Não há possibilidade de vazão a uma compreensão escriturística que vislumbre o homem como um ser divisível no sentido de superioridade da “alma” (sendo esta classificada como desassociada do corpo) em relação à “carne” (esta tachada como aquilo que diverge das disciplinas espirituais).

O site psicod.org comenta:


“Essa oposição radical entre corpo e alma, conforme encontramos em muitos pensadores da Grécia Antiga, é bastante diferente das concepções que inspiraram a escrita dos textos bíblicos. Escrito em sua maior parte originalmente em hebraico, o Antigo Testamento, por exemplo, utiliza a palavra ‘nefesh’ – que possui um significado próximo ao de ‘alma’ ou de ‘vida’ – em referência a um sujeito uno, sem a implicação dualista. Há ainda a palavra ‘ruah’, frequentemente traduzida por ‘espírito’, mas que não significa uma ‘parte’ do ser humano que sobrevive à morte do corpo, e sim a pessoa como um todo, em uma relação dinâmica com Deus. O Antigo Testamento usa ainda a palavra ‘basar’, que pode ser traduzida como ‘carne’; porém, longe de significar alguma coisa que alguém possua, ‘basar’ indica o indivíduo, tanto assim que pode ser usada em substituição ao pronome pessoal.

Mesmo nos livros do Novo Testamento, escritos originalmente em grego, encontramos uma concepção unitária – não dualista – do ser humano. Nos escritos de Paulo, por exemplo, chama atenção a oposição entre ‘espírito’ e ‘carne’, mas mesmo nesse caso não se trata de entender o ser humano como composto de dois elementos distintos, e sim de compreendê-lo a partir de duas perspectivas diferentes: a ‘carne’ designa o caráter transitório da vida, sujeita ao pecado, enquanto o ‘espírito’ indica a vida humana plena em harmonia com Deus.

Nos primeiros séculos da era cristã, o cristianismo se difundiu principalmente a partir do mundo helênico. Basta lembrarmos, por exemplo, de algumas das epístolas de Paulo: aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses e aos Tessalonicenses. O uso da língua grega e de termos como ‘psique’ (alma), ‘soma’ (corpo) e ‘pneuma’ (espírito) acabaram invariavelmente associados a concepções filosóficas gregas, especialmente ao dualismo platônico. Foi nesse contexto ainda que se desenvolveu o gnosticismo, um movimento filosófico-religioso que afirmava que a salvação humana era dependente da libertação do corpo, tido como mau e desprezível. Desse modo, um dos principais desafios da Filosofia patrística era conciliar as concepções gregas e bíblicas na busca de um entendimento.”


Na Bíblia, a palavra hebraica “avodah” (ah-vod-ah) é traduzida por “trabalho” e, também, “adoração”. Uma melhor tradução [em inglês] para trabalho é “serviço”.

O que se quer dizer é o seguinte: o ser humano é visto por Deus como um ser integral, dotado sim de uma variedade capacitativa, mas entendendo que o espiritual traduz-se em vivência, e a vivência por sua vez diz respeito ao espiritual.

Um exemplo claro é a Parábola do Bom Samaritano (cf. Lucas 10:25-37). Na história, um sacerdote e um levita não prestam socorro a um homem caído à beira da estrada. Ressalta-se que estas duas figuras faziam parte do contexto religioso da época. Todavia, um samaritano, que não era bem visto pelos judeus devido à uma questão histórica entre os dois povos, auxilia o necessitado. Jesus valida essa atitude, demonstrando que o ser espiritual não está desvinculado de ações concretas, enquanto as ações concretas ratificam e demonstram a condição do ser espiritual.

Logo, conclui-se que o labor dos reformadores em prol da educação não se tratava apenas de fornecer as ferramentas necessárias para que o povo tivesse a Bíblia em mãos, mas dotar o indivíduo do conhecimento que produz libertação e esclarecimento.

Na linearidade da trajetória histórica, a Igreja seguiu essa tradição de importar-se com a educação. Vê-se por exemplo a Universidade Livre de Amsterdam, uma das melhores do mundo, que foi fundada em 1881 pelo reformado holandês Abraham Kuyper, que mais tarde se tornou Primeiro-Ministro da Holanda; a Universidade de Princeton, também considerada uma das melhores do mundo, foi fundada em 1746 como Colégio de Nova Jersey. Seu fundador foi o Governador Jonathan Belcher, que era congregacional, atendendo ao pedido de homens presbiterianos que queriam promover a educação juntamente com a religião reformada; a conhecida Universidade de Harvard foi fundada em 1643 pelos reformados, apenas seis anos após a chegada deles na baía de Massachussets, nos Estados Unidos. Sua declaração da missão e do propósito da educação, sobre a qual Harvard foi erigida, foi redigida da seguinte maneira: “Cada estudante deve ser simplesmente instruído e intensamente impelido a considerar corretamente que o propósito principal de sua vida e de seus estudos é conhecer a Deus e a Jesus Cristo, que é a vida eterna, (João 17.3); consequentemente, colocar a Cristo na base é o único alicerce do conhecimento sadio e do aprendizado”; a Universidade de Yale, uma das mais antigas universidades dos Estados Unidos, foi fundada na década de 1640 por pastores reformados da recém-formada colônia, que queriam preservar a tradição da educação cristã da Europa. Essa é a universidade americana que mais formou presidentes dos Estados Unidos. Em seu alvará de funcionamento concedido em 1701 se diz: “…que [nessa escola] os jovens sejam instruídos nas artes e nas ciências, e que através das bênçãos do Todo-Poderoso sejam capacitados para o serviço público, tanto na Igreja quanto no Estado”.

De vultos proeminentes, há aos montes: Tomás de Aquino, um integrante da ordem Dominicana de monges, que viveu no século XIII, considerado como uma das mentes mais brilhantes de todos os tempos; Isaac Newton (1642-1727), fundador da Física moderna, escreveu também obras teológicas, às quais atribuía grande importância; John Harvard, o primeiro benfeitor da universidade norte-americana que carrega seu nome – e possui o termo em latim “VERITAS” (“verdade”) no seu brasão.

Agora, entendamos algo que será valiosíssimo não apenas para a nossa vida intelectual, mas como uma revelação que o Pai faz ao nosso espírito. A palavra “luz”, em hebraico (אוֹר, transliterado como “Ór”) também significa entendimento, conhecimento, revelação (LAMSA, George. Idioms In The Bíblia Explained). Ao contrário, a falta de luz, também chamada de “trevas”, significaria ignorância, falta de entendimento, falta de conhecimento.

Portanto, que a Igreja possa continuar a ser (ou redescobrir o sentido de ser) essa referência no tocante à disseminação do conhecimento que busca a apreensão da verdade, exercendo seu papel de ser luz no mundo.




(Referências bibliográficas: https://www.mackenzie.br/noticias/artigo/n/a/i/como-a-educacao-foi-influenciada-pela-reforma-protestante; https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/comunicacoes/article/view/3462; https://psicod.org/filosofia-e-cotidiano-jos-antonio-vasconcelos.html?page=384; https://www.ultimato.com.br/conteudo/criados-para-adorar-ou-trabalhar; https://noticias.gospelmais.com.br/universidades-como-harvard-yale-e-princeton-foram-fundadas-por-evangelicos.html?amp; https://acruzhebraica.com.br/antigo/luz-em-hebraico/)






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