SEUS ERROS NÃO FRUSTRAM OS PLANOS DE DEUS PRA SUA VIDA
Poderia o pecado impedir que os propósitos do Senhor se cumpram em nossa vida? Um ou mais erros jogariam por terra o que Deus planejou pra nós?
Vejamos a situação de Davi. Ele foi ungido pelo próprio profeta Samuel, a mando do Altíssimo (cf. 1 Sm 16:13). Contra todas as possibilidades naturais, venceu o gigante Golias em batalha (cf. 1 Sm 17:49-50). Logo, foi constituído rei de Israel (cf. 2 Sm 5:1-5).
Porém, no meio dessa bela trajetória algo terrível aconteceu: Davi estava no palácio em tempos nos quais os reis deveriam estar na guerra, e viu de seu terraço uma mulher chamada Bate-Seba tomando banho; mesmo ciente de que essa mulher era casada com seu soldado Urias, Davi mandou chamá-la, abusando de sua autoridade, teve relações com ela e engravidou-a (cf. 2 Sm 11:1-5).
Parece um cenário de filme de terror, mas foi o episódio ocorrido na vida de Davi.
Sim, Davi sofreu as consequências: seu filho morreu (cf. 2 Sm 12:14).
Mas alguém poderia dizer que os planos de Deus não se cumpriram na vida de Davi?
Primeiramente, comecemos analisando o seguinte fato: no mesmo versículo que há o arrependimento de Davi, o profeta Natã declara que ele está perdoado por Deus.
“Então Davi disse:
– Eu pequei contra Deus, o Senhor.
Natã respondeu:
– O Senhor perdoou o seu pecado; você não morrerá.”
(2 Samuel 12:13)
Grande foi o livramento na vida de Davi (da morte, e não da consequência imediata do pecado). Ademais, a própria Bíblia chama Davi de “homem segundo o coração de Deus” (cf. 1 Sm 13:14, At 13:22). Ele é considerado o maior rei da história de Israel, e até hoje nesta nação há homenagens à sua pessoa. Por fim, Davi foi autor de diversos Salmos, eternizados nas Escrituras que continuam a nos abençoar após milênios.
Alguém diria que os planos de Deus não se cumpriram na vida de Davi?
Para ilustrar ainda mais, vejamos o caso do apóstolo Pedro. Ele foi chamado pessoalmente por Jesus no episódio da pesca milagrosa (cf. Lc 5:1-11), andou sobre as águas (cf. Mt 14:22-36) e recebeu um elogio de Cristo (cf. Mt 16:18-19). Entretanto, conforme Jesus havia predito, na hora H o apóstolo negou seu Mestre (cf. Lc 22:54-71).
O mesmo homem que andou sobre as águas como um X-Men é o mesmo homem que negou Jesus três vezes no momento em que Ele mais precisava.
Pedro cometeu o mesmo pecado de Judas Iscariotes – claro, com a diferença de que o primeiro se arrependeu e o segundo apenas sentiu remorso.
Mas será que os planos de Deus pra vida de Pedro foram frustradas ou impedidos por conta do seu pecado?
Pedro é chamado de volta para o ministério pelo próprio Jesus e ganha um papel de liderança. No livro de Atos, vemos que até a sombra de Pedro curava (cf. At 5:15). Deus enviou um anjo só para libertá-lo da prisão (cf. At 12:5-12). A pregação de Pedro converteu simplesmente três mil almas (cf. At 2:38-41).
E aí, será que Pedro foi esquecido ou jogado de lado por Deus por causa de seu grande erro?
Por fim, um exemplo histórico. Martinho Lutero é o cabeça da Reforma Protestante, cuja data comemorativa é 31 de outubro em alusão ao episódio ocorrido neste dia em 1517 no qual o então monge agostiniano pregou na porta da Catedral de Wittenberg suas 95 teses de questionamentos às práticas da Igreja Católica.
Todavia, o alemão ficou do lado errado na guerra entre príncipes e camponeses, iniciada em 1524, ficando favorável aos mais fortes (os nobres). Ele também era conhecido por ser “boca suja”. E, assim como a maior parte da Europa medieval, Lutero era antissemita. [1]
Mas, alguém diria que as inúmeras falhas do reformador impediram que os planos de Deus se cumprissem em sua vida?
Entenda isso: Deus não faz a obra POR CAUSA de nós, mas APESAR de nós.
Em outras palavras, como dizia o missionário inglês Hudson Taylor (1832-1905): “Não são os grandes homens que transformam o mundo, mas sim os fracos e pequenos nas mãos de um grande Deus”.
Os santos compreenderam o que é a graça de Deus. Por esse motivo, Pedro fez questão de não “apagar” nenhum dado de sua biografia contida na Bíblia. Marcos, como discípulo petrino, poderia ter ouvido do apóstolo: “Sabe aquilo que te contei que neguei o Senhor? Vamos omitir essa parte”. Pedro não fez isso porque ele sabia que Deus também seria glorificado através de seus erros, pois se sua trajetória fosse de plena perfeição, como nos identificaríamos com ele?
Em seu livro “O Evangelho Maltrapilho”, o autor Brennan Manning relata:
“O evangelho da graça nulifica a nossa adulação aos televangelistas, superastros carismáticos e heróis da igreja local. Ele oblitera a teoria de duas classes de cidadania que opera em muitas igrejas americanas. Pois a graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é de presente. Tudo de bom é nosso não por direito, mas meramente pela liberdade de um Deus gracioso. Embora haja muito que podemos ter feito por merecer - nosso diploma e nosso salário, nossa casa e nosso jardim, uma garrafa de boa cerveja e uma noite de sono caprichada - tudo é possível apenas porque nos foi dado tanto: a própria vida, olhos para ver e mãos para tocar, mente para formar ideias e coração para bater com amor. A nós foram-nos dados Deus em nossa alma e Cristo na nossa carne. Temos o poder de crer quando outros negam; de ter esperança quanto outros desesperam; de amar quando outros ferem. Isso e muito mais é pura e simplesmente de presente; não é recompensa a nossa fidelidade, a nossa disposição generosa, a nossa vida heróica de oração. Até mesmo nossa fidelidade é um presente. ‘Se nos voltamos para Deus’, disse Agostinho, ‘até mesmo isso é um presente de Deus’.”
Se fossemos inerrantes, não precisaríamos da graça.
Se Deus dependesse de não cometermos erros ou pecar para que Seus planos se cumprissem em nossa vida, na verdade Seus planos não se cumpririam na vida de ninguém, porque só há um que não pecou: Jesus (cf. 1 Pe 2:22).
Se Deus tivesse que interromper o destino que Ele traçou pra nós a cada pecado que viéssemos a cometer, Ele se frustraria, pois Seus planos seriam arquivados. Mas sabemos que Deus não se frustra, não é pego de surpresa e nem muda Seus planos (cf. Nm 23:19, Sl 103:19).
Escrevo este texto porque no momento em que alguém erra ou está passando por alguma situação penosa, sempre aparece um “amigo de Jó” (cf. Elifaz em Jó 22) para tentar achar a origem do pecado e acusar, ou então dizer que tudo está acabado.
Entenda isso: independente do que você fez ou deixou de fazer, seja antes ou após seu novo nascimento, se você se arrependeu verdadeiramente Deus te perdoa, e os planos dEle pra sua vida jamais se alteraram.
O máximo que pode acontecer é o seguinte: imagina que você vai fazer uma viagem de carro do Rio de Janeiro para São Paulo. Você coloca no GPS o destino (São Paulo). Se por ventura você pegar um caminho diferente do indicado pelo GPS, como se estivesse indo para Salvador, por exemplo, o que aconteceria?
a) O destino se alteraria
b) Você apenas chegaria mais tarde ao seu destino
É óbvio que o destino não se altera porque você errou o caminho. Ainda que você tivesse pegado a estrada em direção a Salvador, no GPS o destino se manteria o mesmo: São Paulo. Mas, certamente, você gastaria algumas horas a mais de viagem por ter pegado o trajeto errado.
Entendeu?
Quando pecamos, o destino que Deus traçou pra nós desde quando estávamos no ventre materno (cf. Sl 139, Jr 1:5) não se altera, mas simplesmente podemos demorar mais tempo pra chegar nele. A prova bíblica disso está em Deuteronômio 8:2-5, quando diz que Deus fez o povo andar em círculos pelo deserto, levando 40 anos para chegar na Terra Prometida, num trajeto que demoraria 40 dias, por conta da desobediência. Mas perceba: o destino na Terra Prometida se manteve exatamente o mesmo.
Entretanto, até esse “tempo a mais” é pedagógico, pois cada ano dos 40 no total que o povo hebreu passou no deserto serviu para ensiná-los. Portanto, não se trata de tempo perdido, mas sim um tempo que irá nos preparar para viver o propósito.
Se Deus dependesse de você cumprir cada “yod” da Lei à risca para cumprir as promessas dEle em sua vida, nenhuma delas se cumpriria. E isso não significa que eu e você podemos pecar à vontade porque sabemos que Ele irá nos perdoar ou porque sabemos que os planos dEle pra nós não se frustrarão, porque a Palavra também diz para não tentarmos a Deus (cf. Nm 14:34, Dt 6:16).
Todavia, nossa confiança não deve estar em nosso próprio taco para que os planos se cumpram, mas sim na fidelidade e soberania de Deus.
(Referências bibliográficas: [1] https://amp.dw.com/pt-br/1525-fim-da-guerra-dos-camponeses/a-542971; https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/renegado-e-profeta-o-lado-sombrio-de-martinho-lutero-lider-da-reforma-protestante-8n97vqyokgm9hah5gfdlocaet/amp/; https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/21/cultura/1500642089_505462.html?outputType=amp)

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