TEOLOGIA DO COTIDIANO

Faz-se míster recuperarmos a Teologia do Cotidiano.

Afinal, vivemos na Era do Espetáculo, da experiência. O corriqueiro torna-se banal, enquanto os eventos extraordinários (isto é, fora do “ordinário” do dia a dia) foram alçados ao posto da conferencia do pleno sentido de viver.

Para ilustrar de forma clara, um exemplo: a rotina de trabalho, estudos e relacionamento no lar de segunda a sexta é tachada como algo a ser rapidamente superado em vista do almejado final de semana ser atingido, espaço de tempo no qual o sabor da vida é sentido.

Porém, até que ponto tal concepção é saudável? A cotidianidade é legada à frustração ou há uma maneira de encontrar o sentido na ordem diária das coisas?

No livro “O Evangelho Maltrapilho” (p. 89, 90-99, 100), o teólogo Brennan Manning disserta:


“De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a lua não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas por Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.

Houve um tempo, não muito distante, em que uma tempestade fazia um homem adulto estremecer e sentir-se pequeno. Deus, no entanto, está sendo deixado de lado pelo mundo da ciência. Quanto mais sabemos sobre meteorologia menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade. Os aviões voam agora acima, abaixo e entre elas. Os satélites reduzem-nas a fotografias. Que ignomínia - se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia - reduzida de teofania a mero incômodo.

(...)

A espiritualidade do assombro sabe que o mundo está carregado com graça; que embora o pecado e a guerra, a doença e a morte sejam terrivelmente reais, a presença e o poder de Deus no nosso meio é ainda mais real.

Sob o domínio do assombro fico surpreso, fico extasiado. É Moisés diante da sarça ardente, ‘temendo olhar para Deus’ (Ex 3:6). É Estêvão prestes a ser apedrejado: ‘Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus’ (At 7:56) e Michelangelo golpeando sua estátua de Moisés e ordenando: ‘Fale!’ É Inácio de Loyola extasiado diante do céu noturno. Teresa de Ávila arrebatada por uma rosa. É Tomé descobrindo seu Deus nas chagas de Jesus, Madre Teresa vislumbrando a face de Cristo nos pobres atormentados. São os Estados Unidos emocionados diante dos primeiros passos na Lua, uma criança soltando uma pipa ao vento. É uma mãe olhando com amor seu filho recém-nascido. É a maravilha do primeiro beijo.

O evangelho da graça é brutalmente depreciado quando os cristãos sustentam que o Deus transcendente só pode ser honrado e respeitado adequadamente negando-se a bondade, a verdade e a beleza das coisas deste mundo.

Assombro e arrebatamento deveriam ser nossa reação ao Deus revelado como Amor.”


Ou seja, a compreensão do evangelho da graça é vital para a recuperação da admiração pelo corriqueiro. Pois, conforme as palavras do dramaturgo inglês G.K. Chesterton: “O mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta de capacidade de se maravilhar”. Há beleza nas coisas simples.

Até mesmo a Eclesiologia entra nesse mérito. A Bíblia Sagrada reitera: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra e não habita em santuários feitos por mãos humanas” (Atos dos Apóstolos 17:24). Contudo, por vezes há uma compreensão errônea de que o templo e o momento litúrgico são a única forma do encontro com o sagrado. Nesse sentido, perde-se justamente o encontro de beleza no cotidiano, uma vez que celebrações religiosas não ocorrem ao longo de toda a semana – e, mesmo se ocorressem, ainda assim não deveriam patentear o exercício da espiritualidade de forma integral.

Para o teólogo francês Teilhard de Chardin, não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência profundamente humana. Isso significa que nosso estilo de vida (ou modo de viver) consiste numa experiência totalmente espiritual, em tudo o que fazemos. Logo, não há uma separação entre “espiritual” (como se este conceito fosse restrito apenas à experiência nos templos e aplicação às disciplinas espirituais como ler a Bíblia, orar e jejuar) e todo o restante classificado como “corriqueiro” ou “carnal”, desembocando numa espécie de dualismo grego do indivíduo.

A Reforma Protestante trouxe novamente à tona essa questão da inteireza do ser. Em suma, os homens passaram a enxergar a vida cotidiana como também espiritual.

No clássico “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, publicado em 1904, o autor registra que o pensamento teológico calvinista teria impulsionado a fase inicial do desenvolvimento capitalista, ao legitimar uma ética voltada para trabalho e poupança.

Contudo, como diz o ditado, os reformadores não “inventaram a roda”. Antes, a origem de tal pensamento é bíblica. A palavra hebraica “avodah (ah-vod-ah)” é traduzida por “trabalho” e, também, “adoração”. Uma melhor tradução [em inglês] para trabalho é “serviço”.

O site Ultimato explica:


“Deus recebe o trabalho como adoração feita a Ele. Simplificando – Trabalho é adoração. A similaridade entre as duas palavras esclarece que, aos olhos de Deus, nosso trabalho é adoração e não é feito para nosso próprio benefício, mas antes como uma oferta a Ele. Isso quer dizer que o local de trabalho é o lugar de Deus. Nós vamos interagir com Deus e falar sobre Deus no nosso local de trabalho como o fazemos na igreja ou em casa. O local de trabalho é o local de adoração onde podemos expressar a compaixão de Cristo em palavra e ação.”


Eis o desafio: viver a fé e o amor dentro do mundo, assim como ele se apresenta. Como ilustra o famoso causo: um sapateiro perguntou a Lutero o que poderia fazer para servir melhor a Deus e ser um cristão melhor. Lutero respondeu: “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”.

Chesterton arremata: “A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”.

Ora, se Deus pode ser experimentado inclusive fora do “Templo” e do “monte” (seguindo o ensinamento de Cristo à samaritana), retorna-se à valorização do corriqueiro, do cotidiano, do comum.

O Pe. Paulo Ricardo ilustra com uma história:


“A tradição carmelitana conta que, certa vez, Santa Teresa estava preparando alguns ovos para a refeição das monjas e… entrou em êxtase, segurando a frigideira na mão. Que situação estranha para ser arrebatada por Deus! Afinal, não era um momento de oração… nem se estava no sossego da capela… mas na agitação da cozinha!

Contudo, ao voltar a si, a santa, como que justificando-se, disse às suas filhas: ‘Entre los pucheros, también anda el Señor’ – ‘Em meio às panelas, também anda o Senhor’.”


Nesse sentido, as próprias coisas criadas formam a estrada de tijolos amarelos que levam a Deus, conforme o apóstolo Paulo defende em sua teologia: “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido observados claramente, podendo ser compreendidos por intermédio de tudo o que foi criado” (Romanos 1:20).

O próprio Jesus orientou que os discípulos observassem as aves do céu a fim de que pudessem extrair um aprendizado acerca do Reino de Deus (cf. Mateus 6:26-30). É por tal motivo que Lutero, o reformador do século XVI, afirmou: “Deus está fazendo das aves nossos professores e mestres. É uma grande e permanente vergonha para nós o fato de, no evangelho, um frágil pardal se tornar teólogo e pregador para o mais sábio dentre os homens”.

Finalmente, conclui-se que a vida cristã deve ser vivida na inteireza, no cotidiano, experimentando a beleza de ver Deus em tudo.



(Referências bibliográficas: https://www.ultimato.com.br/conteudo/criados-para-adorar-ou-trabalhar; https://padrepauloricardo.org/blog/em-meio-as-panelas-tambem-anda-o-senhor)






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