CIÊNCIA E RELIGIÃO: IRMÃS, NÃO INIMIGAS

Há uma falsa dicotomia que remonta a uma divergência entre Ciência e Religião, espiritualidade e racionalidade, fé e intelectualidade.

Tal antagonismo entre ambas as esferas pode ganhar adeptos nos dias atuais, mas soaria estranho aos autores bíblicos e teólogos clássicos.

Na concepção da própria Sagrada Escritura em si, o homem é visto como um ser integral, e não dividido entre questões que se referem ao âmbito “espiritual” e outras ao “carnal/terreno”.

A palavra “Spiritus” (latim) quer traduzir o termo “Pneuma” (grego) que, se propõe a traduzir os termos “Nefesh/Ruah” (em aramaico/hebraico). O termo “Nefesh” significa pescoço e “Ruah” significa sopro, ar, inspiração.

O sentido fundamental da palavra espiritualidade é a inspiração e a expiração que nos faz viver. É o ar que respiramos. O ar que passa pelo pescoço. Nefesh e Ruah na Bíblia estão sempre relacionados. Deus criou o ser humano da “terra fértil” e colocou na Nefesh a Ruah. O pescoço segundo a Bíblia tem sentido primordial e, para falar da vida, refere-se ao pescoço. Nefesh e Ruah estão sempre juntos: inspiração, o ar que inspiramos, e a expiração, o ar que soltamos. Quando inspiramos recolhemos o ar cósmico, somos um com a natureza.

Ou seja, se atualmente por ventura conferimos ao espírito um sentido de abstração (como se fosse um fantasma), na Bíblia ele é concebido como a própria vida.

Nesse sentido, se o homem é um ser integral, em vista do pleno equilíbrio deve-se ter contato com os mais diversos saberes que a realidade nos apresenta, e não apenas escolher entre a Ciência ou a Religião.

O reformador Martinho Lutero afirmou:


“A ciência sem fé é loucura e a fé sem ciência é fanatismo.”


Uma complementa a outra, e não exclui. Optar pelos extremos somente acarretará numa miopia de cosmovisão, isto é, o cosmos será vislumbrado apenas com a ótica de uma ciência, e não enriquecida com a diversidades de saberes.

Como foi dito, esse falso antagonismo entre Ciência e Religião causaria estranheza não apenas nos que redigiram a Palavra inspirados por Deus ou pelos teólogos da Patrística, Idade Média ou aqueles que seguem essa linha. Os reformadores também discordariam completamente dessa oposição entre as ciências, pois foi a partir da Reforma Protestante que a Educação adquiriu uma valorização que perdura até os tempos atuais.

O Portal Metodista disserta:


“Foi durante a Reforma Protestante que a ideia de uma educação voltada para todos começou a ser elaborada, essa educação, sob os auspícios da religião, tinha como objetivo possibilitar ao fiel o acesso aos textos bíblicos, assim, a educação era um elemento necessário para a disseminação da nova fé.”


Foi o movimento que deu origem às escolas públicas, mediante o envio de uma carta de Lutero aos príncipes, e também a renomados centros acadêmicos como a Universidade Livre de Amsterdam, Universidade de Princeton, Universidade de Harvard, etc.

O encontro com Deus em Sua Palavra, no cosmos ou na ontologia pneumática é fator preponderante para o impulso de perscrutação. Há a inspiração em homens como John Harvard, o primeiro benfeitor da universidade norte-americana que carrega seu nome; John Wesley, que sabia conciliar a luz na mente com o fogo no coração; e Isaac Newton, físico que debruçava-se no estudo das Escrituras. Cabe citar ainda outros exemplos: Sir Francis Bacon, estabeleceu o método científico; Johannes Kepler, três leis do movimento planetário; Sir Isaac Newton, co-inventor do cálculo; Louis Pasteur, pai da microbiologia; James Clerk Maxwell, leis da eletricidade e do magnetismo; e Raymond V. Damadian, inventor da ressonância magnética.

Entre 1901-2000, cerca de 65,4% dos ganhadores do prêmio Nobel eram cristãos ou tinham formação cristã.

Você sabia que o padre Georges Lemaître (1894-1966) foi um dos maiores cientistas do século XX e o criador da Teoria do Big Bang?

Em Leuven, Bélgica, ainda em 1927, Lemaître publicou um estudo chamado “Un Univers homogène de masse constante et de rayon croissant rendant compte de la vitesse radiale des nébuleuses extragalactiques”, em que, baseado na Teoria da Relatividade, especulou que o Universo está em constante expansão, tal qual a distância entre as galáxias.

Em 1931, o padre belga apresentou a teoria do “átomo primordial”, que dizia que todo o Universo era uma partícula hiperdensa e hiperquente que explodiu (e continua explodindo). Com isso, sua tese desafiava a do físico Albert Einstein, a mais popular de então, que dizia que o Universo tinha tamanho finito e que não houve um começo, o “momento sem um antes”.

Em 1964 (dois anos antes de sua morte), o modelo já era amplamente aceito devido a recentes descobertas empíricas que apoiavam a teoria.

E não pense que a tese do padre Lemaître ia contra a doutrina da Igreja (quantas vezes ouvimos dizer que o Big Bang é um argumento contra o relato do Gênesis de que Deus criou o mundo?). Em 1952, o Papa Pio XII escreveu:


“Parece que a ciência moderna, com uma varredura ao longo dos séculos, foi bem-sucedida em testemunhar o augusto instante do Fiat Lux [‘faça-se a luz’] primordial, quando, junto com a matéria, explode do nada um mar de luz e radiação, os elementos se dividem, se agitam e formam milhões de galáxias. Assim, com as características concretas das provas físicas, a ciência confirmou a contingência do Universo e também é bem fundamentada quanto à época em que o mundo surgiu das mãos do Criador. Por isso, a Criação ocorreu. Nós dizemos: ‘Portanto, existe um Criador. Portanto, Deus existe’.”


Você sabia que os primeiros alimentos ingeridos no espaço foram o pão e o vinho da Ceia do Senhor?

Leia esta matéria da Revista Galileu:


“Em 20 de julho de 1969, a missão Apollo 11 pousava na Lua. Poucas horas antes de se tornar o segundo homem a caminhar pelo astro (o primeiro foi o comandante Neil Armstrong), Edwin ‘Buzz’ Aldrin entrou para a história como o primeiro ser humano a praticar o sacramento cristão da comunhão no satélite natural da Terra. ‘Eu despejei o vinho no cálice que a nossa igreja havia me dado. Na gravidade de 1/6 da Lua, o vinho se enrolou graciosamente em um dos lados do copo’, disse o astronauta em uma matéria para a revista Guideposts em 1970.

‘Era interessante pensar que o primeiro líquido servido na Lua e o primeiro alimento comido ali são elementos da comunhão’. Através do gesto, sua intenção era a de mostrar ao mundo que Deus também se manifestava no espaço e que o programa espacial do homem se enquadrava perfeitamente nos planos do Criador.

Presbiteriano devoto, Aldrin, assim como outros colegas da NASA, era na época um membro ativo da Webster Presbyterian Church, localizada próxima às instalações da agência em Houston, Texas. Dean Woodruff, pastor da comunidade, autorizou Aldrin a ministrar a própria comunhão em solo lunar, e forneceu o cálice, o pão e o vinho para a realização da cerimônia. Até hoje, a igreja mantém o cálice em exposição, e celebra todos os anos, no domingo mais próximo de 20 de julho, o Domingo da Comunhão Lunar.”


Há um trecho no filme “God’s Not Dead: We The People” (2021) que faz alusão a esse momento histórico:


“A NASA tem uma longa história com homens e mulheres de fé. Sabe quais foram os primeiros alimentos consumidos em território lunar? Pão e vinho consagrados. Foi o que aconteceu quando o astronauta Buzz Aldrin recebeu a comunhão logo após pousar o Módulo Lunar no Mar da Tranquilidade. Aldrin era um presbítero da Igreja Presbiteriana de Webster e teve permissão especial para levar pão e vinho consigo e se autocomungar. Alguns meses antes, na véspera de Natal, a tripulação da Apollo 8 leu o Livro do Gênesis enquanto orbitava a Lua. O astronauta israelense Ilan Ramon recitou o Kiddush do Shabat judeu.”


Quantas vezes também ouvimos que o cristão não deve se interessar tanto por astrofísica e essas missões espaciais? Ora, é exatamente o que disse o escritor britânico C.S. Lewis (1898-1963): “Os homens tornaram-se cientistas porque esperavam encontrar lei na natureza, e esperavam encontrar lei na natureza porque criam um Legislador”.

Ciência e Religião não estão em oposição. Antes, são esferas que contribuem para o desenvolvimento do indivíduo como o todo que ele é.




(Referências bibliográficas: http://capelamissionaria.org.br/Espiritualidade/February/14.html; https://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/fe-e-ciencia; https://www.metodista.br/revistas/revistas-unimep/index.php/comunicacoes/article/view/3462; https://www.instagram.com/p/CoC0RPoMMFG/?igshid=YmMyMTA2M2Y=; https://super.abril.com.br/coluna/contaoutra/um-padre-foi-o-primeiro-a-propor-o-big-bang-e-o-vaticano-aprovou/amp/; https://revistagalileu.globo.com/amp/Ciencia/Espaco/noticia/2014/07/voce-sabia-que-buzz-aldrin-comungou-na-lua.html)



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