DEUS NOS QUER

Dizem por aí que nós somos fruto dos livros que lemos, das viagens que fazemos e das pessoas que convivemos.

E é bem verdade.

Um ser humano é como uma esponja. Ele absorve as informações as quais tem contato. Armazena tudo em seu cérebro. Na hora H, as manifesta. E esse armazenamento pode ser no consciente ou, então, no subconsciente, conforme ensinou Freud.

Exemplo: você já viu algum alienígena? Certamente, não. Mas, se alguém te pedir pra desenhar um, com certeza você fará no papel um ser com uma grande cabeça oval da cor verde e olhos pretos. Ou, então, vai desenhar uma réplica do personagem E.T. do filme do Spielberg ou algum outro alien que você já tenha visto na cultura pop.

Só exteriorizamos aquilo que um dia interiorizamos.

Certa vez, numa aula da faculdade de Teologia, o professor explicou o porquê de Maria ter tantas representações, se ela é uma só. Basta percebermos que a representação conforme a aparição em Fátima é uma mulher branca com traços europeus, e isto vai de encontro ao local de sua aparição: Portugal, um país da Europa. A de Guadalupe possui traços indígenas, e foi um índio que teve a visão, no México. A imagem de Aparecida foi encontrada no rio Paraíba do Sul, em 1717; para alguns, a imagem ganhou seu característico tom escuro por causa do lodo do Paraíba do Sul, mas este fator gerou representatividade para o povo num Brasil onde ainda imperava a escravidão. Logo, apesar de Maria ser uma só, sua representação varia conforme a subjetividade do sujeito.

Ou seja, nosso pensamento é moldado a partir dos elementos do mundo que nos circundam.

Quando vamos ler a Bíblia, por vezes esquecemos que se trata de uma história passada no Oriente Médio, há milhares de anos atrás, a partir basicamente da cultura judaica. Esquecem até que Jesus era judeu e representam-o nas obras de arte com olhos azuis e cabelos lisos e castanhos, “europeizando” um homem da Galiléia.

Isso se chama aplicar uma chave hermenêutica no texto bíblico. Não há problema, desde que não seja uma heresia.

E é bastante comum aplicarem uma certa lógica capitalista selvagem nas Escrituras. Algo do tipo “Deus te aprova por aquilo que você faz”. Como pensar que o relacionamento com o Senhor se baseia num fazedouro de coisas, sabe?

Seria o coração de Marta.

Enquanto Maria estava aos pés de Jesus, Marta estava preocupada em faxinar a casa, fazer comida, passar a melhor roupa para vestir... Segundo a lógica capitalista selvagem, Jesus teria aplaudido de pé a atitude de Marta. Mas não. Ele disse: “No entanto, uma só coisa é necessária” (Lucas 10:42). E essa coisa era o que Maria estava fazendo: estar aos seus pés.

Isso é um balde de água fria pro irmão que acha que está na sala VIP de Deus porque trabalha muito na igreja.

Trabalhar na obra não é errado. Errado é achar que esse trabalho irá te fazer ser mais ou menos amado, aprovado ou reprovado pelo Senhor.

“Deus não quer algo de nós. Ele simplesmente nos quer”, afirmou C.S. Lewis.

Jesus não nos resgatou a preço de sangue para sermos o funcionário do mês, mas para sermos filhos.

É complicado pro capitalismo selvagem entender isso – assim como é entender a graça – porque no mercado você vale o quanto você produz. E outra: você é apenas um número. Amanhã, outro número pode substituir o seu.

Perceba que as justificativas que envolvem o trabalho sempre são aceitas. Tipo: “Ah, não fiz ‘tal coisa’ porque trabalhei o dia inteiro”. Não, às vezes a pessoa não fez a “tal coisa” por falta de interesse ou falta de organização de tempo mesmo. Mas, ao jogar a carta do “estou sem tempo porque trabalho”, é 99% de certeza que irão aceitar, pois o trabalho, a produção, o fazer-fazer-fazer são quase que idolatrados!

Mas não adianta. Deus não muda quem Ele é. Deus não vai se render a qualquer sistema que seja porque é o sistema da moda. Ele é o que a Bíblia diz que Ele é, e a Bíblia diz que Ele não quer obreiros “bate-ponto”, mas sim amigos. Ele não quer pessoas que o busquem só para terem poder, mas Ele quer filhos amados que, naturalmente, terão poder, porque tem o Espírito Santo, adquirido não como se compra algo no mercado, mas a partir de uma amizade, um relacionamento apaixonado.

Seja amigo de Deus. O véu se rasgou não para que entrássemos lá correndo para pegar a Sua glória e sair por aí dizendo que temos o poder. Não. O véu se rasgou para que pudéssemos entrar como sacerdotes e estar diante dEle, produzindo um culto, se relacionando como Adão fazia no Éden (afinal, o que foi perdido em Adão foi recuperado em Cristo), puro e simples como um filho diante do pai.

Volte a ser como criança. Criança não brinca com o pai por interesse, algo do tipo “vou brincar com meu pai porque depois ele vai me dar um brinquedo”. Criança brinca porque gosta de brincar, de estar passando aquele tempo com o pai. Faça o mesmo com o Abba!





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