EM BUSCA DAQUELA “UMA COISA”

Como lidar com o paradoxo de que achamos a Verdade, mas, ao mesmo tempo, estamos em busca dela?

Ora, o cristianismo é cheio de paradoxos. Como bem disse o teólogo anglicano Richard Sibbes: “O cristão é uma pessoa estranha. Ele está tanto Morto como vivo, é miserável e glorioso... Dirige-se para baixo e para cima ao mesmo tempo; pois, à medida que ele morre para o pecado e miséria, e a morte natural aproxima-se, vive a vida da graça e cresce cada vez mais até alcançar a glória”.

O Deus glorioso que fez os céus e a Terra, que possui Gênesis 1 no currículo, é o mesmo Deus que se fez homem (no processo da “kenosis” de Filipenses 2), fato o qual G.K. Chesterton resumiu da seguinte forma: “As mãos que fizeram o Sol e as estrelas eram pequenas demais para alcançar as cabeças do gado ao redor”.

Yeshua é adjetivado como “Cordeiro” (Jo 1:29), arquétipo de um singelo e inofensivo animal, simultaneamente à alcunha de “leão” (Ap 5:5), o predador-mór da natureza selvagem.

Portanto, mais um paradoxo não seria de se assustar: o de que achamos a Verdade mas seguimos em busca dela.

E por que?

Nas palavras de Santo Agostinho, Deus é incompreensível. O mistério divino é uma fonte inesgotável. Tanto que o objetivo primário dessa vida é conhecer a Deus, porém, há tanto conhecimento a ser vislumbrado e adquirido que passaremos a eternidade fazendo isso, conforme declara o apóstolo João: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a Ti, o Único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (17:3).

Todavia, nessa vasta Fonte de água viva, seria possível bebermos de algo que mude nossa vida pra sempre? Seria possível apreendermos aquela “uma coisa”?

A mesma “uma coisa” que fez um homem vender tudo o que tinha para comprar o campo que continha um tesouro escondido (cf. Mateus 13:44).

Aquela “uma coisa” que o Morada canta: “Uma coisa vou pedir”.

Pedro viu de camarote os milagres e ensinamentos de Jesus. Não apenas isso: durante três anos e meio, ele comeu, dormiu e andou com seu Rabi. Mesmo assim, Pedro ainda não tinha bebido “aquele” copo da água da Fonte (mesmo que a Fonte fosse tão grande e com litros e mais litros infinitos de água, bastava um gole!). Por isso, negou Jesus e depois voltou à antiga vida da pesca. Mas tudo mudou quando ele esteve de frente com a única coisa que ele precisava. Quando viu Cristo ressurreto, quando a ficha caiu de vez que Ele era o Messias esperado, Pedro nunca mais foi o mesmo. As redes de pesca foram abandonadas pra sempre. Ele não estava nem aí para os julgamentos alheios. Em Atos, vemos um Pedro cuja sombra curava, cuja pregação converteu três mil almas e, quando repetiu-se a situação de estar em risco por causa de sua fé, ele não apenas negou-se a abrir mão do que acreditava, mas ainda solicitou: “Crucifiquem-me de cabeça pra baixo, pois não sou digno de morrer como meu Mestre!”

Aquela uma coisa... aquela uma gota em meio ao oceano da Verdade que basta para pôr fim à sequidão da nossa alma.

Paulo só precisou de um encontro com a Luz do Mundo para nunca mais ser o mesmo. Como bônus, teve uma experiência no terceiro Céu, e isso lhe deu coragem e fôlego para viajar o globo fazendo missões, plantar igrejas, escrever cartas e enfrentar a oposição com alegria.

São João da Cruz, místico espanhol do século XVI, escreveu no seu belo poema “A Noite Escura da Alma”:


“Esquecida, quedei-me,

O rosto reclinado sobre o Amado;

Tudo cessou. Deixei-me,

Largando meu cuidado

Por entre as açucenas olvidado.”


Tudo cessa quando reclinamos nosso ouvido sobre o peito do Amado. O pensar em si mesmo dá lugar a pensar somente nEle. A noite escura da alma vê seu fim quando nossa face é iluminada pela sua glória, assim como no episódio em que Moisés desceu do monte com o rosto resplandecente (cf. Êxodo 34:29-30).

Almejar essa “uma coisa” não significa que você não tenha fé em Deus, tampouco que você já não o tenha conhecido. Pedro não apenas já tinha encontrado Jesus, como era íntimo dEle. Mesmo assim, o apóstolo precisava daquela “uma coisa” que lhe daria o renovo, acenderia novamente o fogo em seu coração, e o faria deixar tudo pra trás por causa do tesouro escondido no campo.

Há um livro que se chama “Os Caçadores de Deus”, do pastor Tommy Tenney. A descrição da obra é perfeita: “Um Caçador de Deus é alguém cuja paixão pela presença de Deus o impulsiona a viver em uma busca ininterrupta pelo Pai. Um filho corre atrás de seu pai amado até que, de repente, seus braços fortes envolvem aquela que o busca”. Eu amo esse “de repente”. Com Deus não tem hora marcada. Assim como em Atos 2, Ele vem sem avisar, e assim como uma criança fica radiante com a surpresa debaixo da árvore na manhã de Natal, Deus surpreende seus filhos de modo que eles nunca mais são os mesmos.

É totalmente compreensível que busquemos isso até que encontremos porque nossa vida depende disso! Jesus pontuou: “Eu Sou a videira, vós os ramos” (João 15:5). Você já viu um galho caindo na calçada dando fruto? Não! Simplesmente porque se um galho estiver desconectado da videira, ele morre! Isso significa o seguinte: somos desesperados por ter este encontro arrebatador com Deus (ainda que já o conheçamos ou tenhamos experiências anteriores) porque nossa vida depende disso! Sentimos que estamos morrendo por dentro, então queremos logo nos conectar à videira para que sua vida flua em nós!

Como eu disse: caçar isso não significa que não vivemos grandes coisas anteriormente. Os convidados da festa de casamento já tinha bebido vinho (símbolo do renovo, alegria no Espírito), mas Jesus deixou o melhor vinho para o final (cf. João 2:10). Buscar beber o melhor vinho não significa que já não bebemos vinho anteriormente, mas sim sabemos que tem mais... aquela “uma coisa”.

Aquela “uma coisa” que vai resolver todas as outras... pois o homem sabia que não precisava de tudo o que tinha, mas apenas daquele tesouro escondido. Davi não ligava se perderia o trono ou a fala de guerreiro destemido, mas o que ele não suportava era ter o Espírito longe de ti (cf. Sl 51:22). Aquela uma “uma coisa” que transforma perdidos em missionários, a exemplo da mulher samaritana (João 4).

No filme A Baleia” (2022), o protagonista professor Charlie (Brendan Fraser) não liga para sua saúde - e por isso rejeita cuidados médicos -, e, por vezes, parece buscar a morte, pois come desesperadamente alimentos altamente calóricos mesmo sabendo que isso deixará seu estado clínico ainda pior. Mas ao longo do enredo ele não desiste de sua filha Ellie (Sadie Sink), mesmo diante de todas as dificuldades, pois ele acredita que Ellie é uma pessoa boa e incrível. No fim do filme (alerta de SPOILER), Charlie vai ao encontro de sua filha (superando uma barreira, pois ele só se locomovia de andador), sorri para ela, ela sorri para ele depois de terminar a leitura de seu ensaio sobre o clássico literário Moby Dick, e então sua alma é elevada aos céus. Ele conseguiu a “uma coisa”, o sentido de sua vida, o que mantinha suas esperanças.

Em busca da Verdade. Em busca dessa “uma coisa” (uma gota do oceano? Um gole da Fonte? O melhor vinho?). Até a encontrar.




(Referências bibliográficas: https://ministeriofiel.com.br/artigos/agostinho-e-a-santissima-trindade/; https://alexcastro.com.br/noite-escura-de-joao-da-cruz/)




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