MÉTODO SOCRÁTICO

O debate de ideias consiste no ponto central do método socrático.

Sócrates (470-399 a.C.) abordava seus interlocutores primeiramente através da ironia. Nesta, abstinha de seu conhecimento sobre determinado assunto para deixar o outro dissertar sobre. A partir desse momento, falsas impressões acerca do tema vinham à tona e, então, o filósofo poderia fazê-lo enxergar seu eventual engano.

Perceba que a conclusão não é oriunda de uma dissertação monótona de Sócrates para com seu interlocutor, como numa relação mestre-aluno. Pelo contrário, é o interlocutor tecendo seus comentários que, em dado momento, tomaria consciência dos erros de concepção acerca da pauta abordada.

Este primeiro ponto possui ligação direta com o segundo do método socrático: a maiêutica. Inspirado em sua mãe, que era parteira, Sócrates cunhou esse termo, pois se sua progenitora auxiliava outras mulheres a darem à luz, ele também prestava tal serviço de ajuda no processo de dar à luz, não a filhos, mas sim a ideias.

O site Toda Matéria acrescenta:


“Sócrates compreendia que as ideias já estão dentro das pessoas e são conhecidas por sua alma eterna. Entretanto, a pergunta correta pode fazer com que a alma se recorde de seu conhecimento prévio.

Para o filósofo, ninguém é capaz de ensinar alguma coisa a outra pessoa. Somente ela mesma pode tomar consciência, dar à luz a ideias. A reflexão é a forma de atingir o conhecimento.

Por isso, é importante concluir a maiêutica. Nela, a partir da reflexão, o sujeito parte do conhecimento mais simples que já possui e segue em direção a um conhecimento mais complexo e mais perfeito.”


Conforme os famosos dizeres de Sócrates diante do Oráculo de Delfos (“Só sei que nada sei”), abrir-se ao conhecimento é a melhor forma de adquiri-lo. E somente se lança ao debate de ideias aquele que compreende esse conceito, sem ter uma postura professoral, mas como alguém disposto a compartilhar o que sabe e ouvir para reter novos conhecimentos – ou fortalecer os já conhecidos.

Universidade é para debater ideias e ensinar as pessoas a pensarem. Esse lema existe graças à Sócrates, mas também graças à Reforma Protestante. Foi o movimento que deu origem às escolas públicas, mediante o envio de uma carta de Lutero aos príncipes, e também a renomados centros acadêmicos como a Universidade Livre de Amsterdam, Universidade de Princeton, Universidade de Harvard, etc. E por que a preocupação da Reforma com a esfera da educação? Se outrora a Igreja monopolizava o entendimento acerca da Bíblia Sagrada, agora o contato com as Escrituras estava descentralizado, aberto ao povo. E, para uma correta hermenêutica, fazia-se mister que o conhecimento fosse disseminado.

O artigo “What Cafés Did For Liberalism”, do New Yorker, disserta:


“Quando espaços sociais foram criados fora do controle direto do Estado (incluindo os comerciais, em busca do lucro), a sociedade civil pôde começar a florescer para caminhos inesperados. Isso foi visível no espalhamento de cafeterias ao longo de cidades europeias, Pinsker observa, no século XIX e adiante. Não é que as conversações nas cafeterias eram necessariamente produtivas intelectualmente; é que a própria prática de livre troca – a habilidade de interagir com alguém que não fazia parte do seu clã ou clube social – gerou hábitos sociais de expressão própria que se aliaram ao apetite de próprio governo. Para Jews, com seu constante hábito de expressão própria e o sonho distante de governo próprio, a cafeteria era especialmente um lugar convidativo.”


Em suma, a possibilidade de livre interação e troca de ideias nas cafeterias europeias do século XIX possibilitou o surgimento de novas concepções naquele contexto político-social.

No quadro “Escola de Atenas”, pintada pelo italiano Rafael Sanzio entre 1509 e 1510 sob encomenda do Vaticano, há uma diversidade de pensadores dispostos pelo local conversando entre si e refletindo sobre o “kosmos”. Platão e Aristóteles estão ao centro, também dialogando.

“Escola de Atenas” é uma das mais importantes obras do renascentismo, e está presente em uma das paredes da Stanza della Segnatura, uma saleta localizada no Vaticano em que o Papa Júlio II fazia despachos e encaminhamentos.

Que a livre troca de ideias possa ser uma cláusula pétrea de toda e qualquer Constituição. E que a Igreja, como instituição, possa sempre fomentar essa prática.




(Referências bibliográficas: https://www.todamateria.com.br/metodo-socratico-ironia-maieutica/; https://www.newyorker.com/magazine/2018/12/24/what-cafes-did-for-liberalism)




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