O IDEAL E O REAL | dissertação sobre temática abordada pelo professor Rafael Nogueira

“Quando um ideal nos inspira a alcançar objetivos lícitos, justos e realizáveis ele é valioso. Mas não nos tornamos o que idealizamos só por imaginar. É preciso esforço, adaptação ao inesperado, humildade ante o real. Isso vale para os indivíduos como para as sociedades.”

(NOGUEIRA, Rafael. O Ideal e o Real. Coluna O Dia. Publicado em 26/10/2022)


Sempre chamou-me atenção um detalhe do afresco “Escola de Atenas”, uma das principais obras renascentistas de autoria de Rafael Sanzio, com Platão e Aristóteles ao centro. Enquanto o primeiro está com o dedo em riste, o segundo mantém a mão com a palma voltada para o solo. A simbologia é evidente: se a filosofia platônica tende a inclinar-se com mais afinco para o mundo das ideias (a abstração), a aristotélica preocupa-se com a ordem corriqueira.

Aristóteles é chamado de Pai da Zoologia, e “foi um profundo pesquisador do reino animal, chegando a estudar, com grande riqueza de detalhes, as estruturas anatômicas de mais de 500 espécies”, conforme destaca o Globo Ciência. Debruçou-se sobre política, considerando o homem como um “zoon politikon” (animal político). Escrevia sobre música, tratando-a como algo sublime à alma. Em suma, aprofundava-se no que era apresentado pelo “kosmos” diante de seus olhos – o que não torna excludente seu apreço pela metafísica, posteriormente trabalhada sob os auspícios intelectuais de Santo Tomás de Aquino.

Platão, por sua vez, no Mito da Caverna (alegoria retirada do Livro VII da obra “A República”), argumenta acerca de uma realidade superior que contemplaria a verdade genuína do “kosmos”, desembocando numa negatividade em relação à matéria. Agostinho de Hipona bebeu dessa fonte para formular uma teologia com viés mais agudo em relação à natureza adâmica do ser.

Esse diálogo entre o ideal almejado e o real possível adquire sua síntese mais chamativa em Platão, pois de uma visão idealista em “A República”, mediante a concepção do Rei Filósofo como governante-mór da cidade utópica, a obra “Político” já trata o chefe da nação como aquele com exímia habilidade na arte (ou “téknne”, em grego) da tecelagem, sabendo portanto convergir díspares opiniões e posicionamentos na pluralidade da pólis.

No âmbito teológico, vivemos o Reino dos Céus no sentido do “já” e “ainda não”. Se Jesus de Nazaré afirmou que “é chegado o Reino dos Céus” (Mt 4:17), sendo o “já” nesse sentido mediante o mistério da encarnação do Verbo, sabe-se que os eventos escatológicos ainda não se cumpriram em sua plenitude, emulando o “ainda não”.

Esse embate entre o ideal e o real (ou possível) consiste não apenas em elemento relevante no academicismo, mas assim ocorre em cada pulsão de nossa parte nas atividades diárias, sendo mister a localização de um ponto de intersecção entre eventuais disparidades.





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