VAIDADE DE NÃO EVANGELIZAR

É comum ouvirmos no meio evangélico: “Eu não prego a Palavra porque não me acho digno”. Aí o dito cujo elenca todos os seus pecados, tanto os de uma vida pregressa a conhecer Jesus tanto os que cometeu hoje em casa.

Peraí... Quer dizer então que você está impedindo que perdidos sejam salvos porque está preocupado demais com sua imagem? Quanta vaidade, meu Deus!

Você não vai abrir a boca para anunciar que há salvação em Cristo Jesus por medo do julgamento de terceiros? Meu Deus do Céu...

Amigo, será que realmente entendemos quando a Bíblia diz que só serão salvos aqueles que aceitarem a Jesus como único e suficiente Salvador e, consequentemente, para essas pessoas aceitarem a Jesus, elas obrigatoriamente tem que ouvir o Evangelho (João 14:6, Atos 4:12, Romanos 10:13, 1 Coríntios 3:11)?

Diz a Palavra:


“Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas.”

(Isaías 52:7)


E aqueles que conheceram a Verdade, portanto podem anunciá-la e trazer outros para a luz, vão abrir mão de tão gloriosa tarefa por questiúnculas pessoais?

Então, não entendemos o que é a graça de Deus. Não entendemos que não somos salvos ou fazemos obras por mérito nosso, mas por pura graça e misericórdia divina.

Em seu livro “O Evangelho Maltrapilho”, o autor Brennan Manning relata:


“O evangelho da graça nulifica a nossa adulação aos televangelistas, superastros carismáticos e heróis da igreja local. Ele oblitera a teoria de duas classes de cidadania que opera em muitas igrejas americanas. Pois a graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é de presente. Tudo de bom é nosso não por direito, mas meramente pela liberdade de um Deus gracioso. Embora haja muito que podemos ter feito por merecer - nosso diploma e nosso salário, nossa casa e nosso jardim, uma garrafa de boa cerveja e uma noite de sono caprichada - tudo é possível apenas porque nos foi dado tanto: a própria vida, olhos para ver e mãos para tocar, mente para formar ideias e coração para bater com amor. A nós foram-nos dados Deus em nossa alma e Cristo na nossa carne. Temos o poder de crer quando outros negam; de ter esperança quanto outros desesperam; de amar quando outros ferem. Isso e muito mais é pura e simplesmente de presente; não é recompensa a nossa fidelidade, a nossa disposição generosa, a nossa vida heróica de oração. Até mesmo nossa fidelidade é um presente. ‘Se nos voltamos para Deus’, disse Agostinho, ‘até mesmo isso é um presente de Deus’.”


Se fosse ver essa questão de pecado, então os campos missionários estariam vazios, assim como as ruas das cidades e os púlpitos das igrejas. Afinal, não existe ninguém sem pecado! Não existe esse negócio de estar 100% puro e imaculado para pregar o Evangelho. Isso é mentalidade religiosa, farisaica, vaidosa. E outra: se você pecou, basta pedir perdão que Deus é fiel e justo para te perdoar. Simples assim. Não tem que pagar nada pra ninguém ou merecer. Na nossa mentalidade capitalista, é difícil entendermos que o perdão é de graça, sem dar nada em troca. Mas a Bíblia declara:


“Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.”

(1 João 1:8-9)


Não fomos nós que escolhemos Deus, mas Deus nos escolheu e veio ao nosso encontro. É Jesus quem nos busca, de modo que a salvação começa e termina em Deus: o pastor buscou a ovelha perdida (Lucas 15:4), a mulher encontrou a moeda perdida (Lucas 15:9), o pai correu em direção ao filho perdido e o trouxe pra casa (Lucas 15:20). Agostinho de Hipona arremata: “Na procura de DEUS é ELE quem se adianta e vem ao nosso encontro”.

Se somos estrangeiros e peregrinos nessa Terra (1 Pedro 2:11), Deus não permite que fiquemos aqui para viver na Disneilândia. Há um propósito pelo qual abrimos os olhos todas as manhãs, senão Ele já tinha nos recolhido. E o propósito é evidente: sermos ministros da Palavra (o que não quer dizer estritamente você ser pastor, diácono ou qualquer outro cargo... o ministério da Palavra é dado a todo e qualquer cristão que é convocado a cumprir o “ide” e ser sal da terra e luz do mundo onde quer quer esteja inserido).

A Bíblia nos chama de “ministros da Palavra” (Lc 1:2). A palavra “ministro” vem do grego “huperetes”, e significa remador de baixa categoria. Os barcos antigos eram movidos pela energia humana, e nas laterais das naus existiam pequenas janelas onde eram introduzidos os remos, em muitas embarcações vezes fazendo um conjunto de três andares de remadores, remadores estes que não eram contratados, era trabalho escravo. Desertores, prisioneiros, condenados, etc. Em suma, o remador do último porão não aparece, está mergulhado em meio à escuridão, umidade, suor, fome, remando sem ser notado, mas o barco continua andando, seguindo o curso. O que importa é remar, remar e remar.

Percebe como não tem nada a ver com a gente? Com quem somos? O que fizemos ou deixamos de fazer? É tudo sobre ELE!

Conforme os dizeres do missionário inglês Hudson Taylor (1832-1905): “Não são os grandes homens que transformam o mundo, mas sim os fracos e pequenos nas mãos de um grande Deus”.

Repito a pergunta: você vai deixar de salvar almas, algo que vale uma eternidade, por conta de vaidade pessoal?

Em seu livro “Por Que Tarda o Pleno Avivamento?”, o pastor Leonard Ravenhill conta uma história:


“Houve certa vez um criminoso de nome Charlie Peace. Não tinha respeito nem pelas leis de Deus nem pelas dos homens. Mas afinal um dia foi preso e condenado à morte.

No dia de sua execução, foi levado ao corredor da morte na penitenciária de Armley, Leeds, na Inglaterra. À sua frente ia o capelão da prisão, lendo versículos da Bíblia em voz monótona e desinteressada. O criminoso tocou-lhe no ombro e indagou o que estava lendo. ‘O Conforto da Religião’, replicou o sacerdote.

Charlie Peace ficou chocado de ver como ele lia aqueles textos acerca do inferno de maneira tão mecânica. Como alguém podia ser tão frio, a ponto de conduzir outro para a forca, sem emoção alguma, lendo-lhe palavras sobre um abismo profundo no qual o condenado estava prestes a tombar? Será que aquele pregador cria de fato que existe o fogo eterno, que arde incessantemente, e nunca consome suas vítimas, já que lia tudo sem ao menos estremecer? Seria humano um indivíduo capaz de dizer a outro friamente: ‘Você estará morrendo eternamente, sem nunca conhecer o alívio que a morte poderia dar-lhe?’

Aquilo foi demais para Peace, e ele se pôs a pregar. Veja só o sermão que pregou no próprio instante em que caminhava para o inferno. ‘Senhor’, disse, dirigindo-se ao capelão, ‘se eu acreditasse nisso em que você e a igreja dizem crer, andaria por toda a Inglaterra, só para salvar uma alma, e, se preciso fosse, iria de joelhos, mesmo que a superfície dela fosse recoberta de cacos de vidro, e acharia que teria valido a pena.”


Será que entendemos o que significa condenação eterna, Céu e Inferno? Se entendemos, devíamos estar fazendo a mesma oração desesperada de John Knox: “Senhor, dá-me a Escócia, senão morrerei!”

Finalizo com os dizeres de Pablo Marçal:


“Até com o Diabo dá pra aprender. Tem gente que fala ‘misericórdia’, ‘tá amarrado’! Vocês querem aprender alguma coisa com o Diabo ou não? É forte! Quer? O Diabo já sabe o final dele, é derrotado e não desiste nunca. Acorda todo dia tocando o terror como se não houvesse amanhã. Você sabe o seu final, você vai reinar, você é filho de Deus, e você desiste todo dia. E o Diabo sabe do final, e ele acredita mais em Deus do que qualquer um que está aqui nesse ambiente, porque ele troca ideia face a face, quando ele tem autorização. Ele estava lá tentando o Moisés, o Abraão, o Isaque, o Jacó, o Daniel, o Paulo. Ele estava em tudo. Em todos os episódios, ele aparece. Ele confia em Deus. Ele confia não, ele tem certeza que a Palavra dEle não falha. Ele sabe que vai dar tudo errado na vida dele, mas ele acorda todo dia com gás. Alguém pergunta ‘por quê ele fica fazendo isso?’. Porque você desiste, e o lance dele não é mudar o futuro dele, é mudar o seu.”



(Referência bibliográfica: https://estiloadoracao.com/quem-nunca-ouviu-o-evangelho-sera-salvo/amp/; https://www.instagram.com/reel/CkjRfOkAQ9T/?igshid=YmMyMTA2M2Y=)






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