O QUE É A REALIDADE?

E se as nossas categorias etimológicas estiverem equivocadas, incompletas ou limitadas ao nosso raio de ação cognitiva?

E se a realidade for muito além do que nossos sentidos podem apreender e nossas ciências perscrutarem?

E se o que achamos que é real for apenas uma centelha da verdadeira realidade?

O dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) afirmou:


“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.”


O filme “Matrix” (1999) não apenas revolucionou a sétima arte, mas trouxe à tona uma indagação existencial pertinente: e se o que achamos que é verdade não passar de um mero simulacro? E se o que pra nós é real for tão somente uma sombra? E se houver uma vastidão de informações as quais nem chegamos a tatear?

Em seu “Mito da Caverna”, Platão (427-347 a.C.) indicava que muitos vislumbram uma realidade mimética quando imaginavam estar vislumbrando a realidade última. Os homens aprisionados na caverna que apenas contemplam projeções e ouvem ruídos dos elementos que transitam ao lado de fora da caverna imaginam que a realidade se trata daquele universo conhecido.

A toca do coelho pode ser mais profunda do que por ventura supomos.

Nas palavras do filósofo Mário Sérgio Cortella:


“No universo, um dos possíveis existentes, existem 200 bilhões de galáxias, sendo que a Via Láctea (é a nossa) é uma delas e tem 100 Bilhões de estrelas. Dessas 100 bilhões de estrelas o Sol (estrela anã, é a nossa) é uma delas e como o próprio nome diz (estrela anã) não é uma das maiores da galáxia. Em torno do Sol transladam 9 planetas, o 3ª é a nosso (Terra) que tem 30 milhões de espécies aproximadamente. Uma espécie entre apenas 3 milhões classificadas das 30 milhões existentes é a nossa (Homo Sapiens), que tem 6 bilhões e 400 milhões de indivíduos, sendo que um deles é você.”


Os buracos negros foram previstos pela teoria geral da relatividade somente em 1916, pelo físico alemão Karl Schwarzschild. Mas os buracos negros não passaram a existir após essa descoberta, mas sim o homem que passou a ter consciência deles mediante a descoberta.

Nesse sentido, a realidade não se limita ao que sabemos ou pressupomos saber.

A realidade na qual estamos inseridos possui naturais limitações e regramentos (como as leis da Física, por exemplo). Segundo a teologia cristã, o próprio Deus instituiu essa ordem cosmológica. Tal definição não significa que Deus não pode intervir nas leis postas, pois um milagre, a saber, é a própria não-explicação natural para o acontecimento de determinado fato. Segundo o Vaticano, no Catecismo da Igreja, “os milagres de Cristo e dos santos, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade ‘são sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos’, ‘motivos de credibilidade’, mostrando que o assentimento da fé não é, ‘de modo algum, um movimento cego do espírito’”.

Deus mesmo opera de maneira convergente aos regramentos dessa realidade natural/terrena. O teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) denomina essa dinâmica distinguindo a Trindade Imanente e a Trindade Econômica.

Segundo o teólogo David Coffey, em concordância com Rahner:


“A Trindade econômica é a Trindade como envolvida na divina ‘economia’ [...] da salvação, ou seja, a Trindade como revelada imediatamente na missão salvífica de Cristo e a consequente missão santificadora do Espírito Santo.

A Trindade imanente é a Trindade considerada na sua transcendência absoluta, na sua independência do mundo e nas suas necessidades. A afirmação da sua identidade significa que as três ‘pessoas’ da Trindade econômica, Pai, Filho e Espírito Santo, respectivamente, são idênticas às da Trindade imanente.

Rahner formula assim este ‘axioma básico’ (Grundaxiom): A ‘Trindade econômica’ é a ‘Trindade imanente’ e a ‘Trindade imanente’ é a ‘Trindade econômica’. Implica que às missões temporais do Filho e do Espírito Santo na Trindade econômica correspondem às origens eternas, ou ‘processões’, do mesmo Filho e do Espírito Santo na Trindade imanente.”


Todavia, como dito, Deus pode operar além da linha regular estabelecida como forma de Sua manifestação nessa presente realidade. Uma evidência concreta dessa questão está relatada no livro de Josué, quando Deus faz o sol parar em prol de um benefício militar para o povo de Israel, que estava em guerra.


“No dia em que o Senhor entregou os amorreus aos israelitas, Josué exclamou ao Senhor, na presença de Israel:

‘Sol, pare sobre Gibeom!

E você, ó lua, sobre o vale de Aijalom!’

O sol parou, e a lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos, como está escrito no Livro de Jasar.

O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs. Nunca antes nem depois houve um dia como aquele, quando o Senhor atendeu a um homem. Sem dúvida o Senhor lutava por Israel!”

(Josué 10:12-14)


Quando assumimos a compreensão acerca da vastidão da realidade e que o cosmos não se resume ao que presumimos conhecer, parecemos como bebês pronunciando as primeiras sílabas do vocabulário.

No conceito de “tempo”, por exemplo. A Bíblia disserta sobre o “chronos” e o “kairós”. O primeiro refere-se ao tempo cronológico (termo este com origem no original em grego), ou seja, o das horas, meses, anos. O tempo que pode se medir pelo relógio e pelo calendário. Já o último faz referência ao tempo que não é mensurável, ou ao momento certo ou oportuno. Deus vive neste tempo “kairós” (Trindade Imanente). Eventualmente, abre-se uma janela temporal em que Deus atua no “chronos” (Trindade Econômica).

Fato é que Deus não está limitado ao presente, passado e futuro como os seres humanos estão, simplesmente por viverem no “chronos”. Deus, que vive no “kairós”, vê o tempo como algo linear. Tanto é que Deus mostrou a José algo que, para José, era o futuro, mas para Deus, era realidade (já tinha acontecido):


“Certa vez, José teve um sonho e, quando o contou a seus irmãos, eles passaram a odiá-lo ainda mais.

‘Ouçam o sonho que tive’, disse-lhes.

‘Estávamos amarrando os feixes de trigo no campo, quando o meu feixe se levantou e ficou em pé, e os seus feixes se ajuntaram ao redor do meu e se curvaram diante dele.’

Seus irmãos lhe disseram: ‘Então você vai reinar sobre nós? Quer dizer que você vai nos governar?’ E o odiaram ainda mais, por causa do sonho e do que tinha dito.

Depois teve outro sonho e o contou aos seus irmãos: ‘Tive outro sonho, e desta vez o sol, a lua e onze estrelas se curvavam diante de mim’.”

(Gênesis 37:5-9)


Então, o que é a realidade?

E se a realidade natural for permeada de elementos sobrenaturais os quais não contemplamos com olhos naturais?


“Em seguida Eliseu orou suplicando: ‘Ó Yahweh, abre os olhos dele a fim de que consiga ver!’ E o SENHOR fez com que o moço pudesse enxergar a montanha coberta de cavalos e carros de fogo em torno de Eliseu.”

(2 Reis 6:17)


E se a palavra última da realidade natural não representar a palavra determinante, como evidencia o caso das estéreis Sara e Ana que deram à luz filhos (Gênesis 11:30, Gênesis 21:2-7, 1 Samuel 1:5, 1 Samuel 1:20), e de Lázaro e da filha de Jairo que voltaram à vida mesmo depois de mortos (João 11:1-46, Marcos 5:21-43).

E se os fatos da realidade natural forem mera consequência do que ocorre na realidade sobrenatural?


“Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra.”

(Tiago 5:17)


Enfim, o que é a realidade?




(Referências bibliográficas: https://m.youtube.com/watch?v=FHXh1tXUl4U; https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c3_142-184_po.html; http://revistas.fapas.edu.br/index.php/frontistes/article/download/16/29/215#:~:text=A%20Trindade%20imanente%20é%20a%20Trindade%20considerada%20na%20sua%20transcendência,idênticas%20às%20da%20Trindade%20imanente.; https://mundoeducacao.uol.com.br/amp/fisica/buracos-negros.htm)



— Esse blog é feito com muito esmero, fruto de longas pesquisas e estudos para lhe trazer um conteúdo edificante. Portanto, se você gosta desse trabalho, CONTRIBUA através do PIX: supercrenteofc@gmail.com






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA