SOMOS TODOS PEDRO

O mesmo homem que andou sobre as águas é o mesmo homem que negou Jesus três vezes.

O mesmo homem que ouviu da boca de Cristo que ele era “bem-aventurado” e recebera uma revelação do próprio Pai (cf. Mateus 16:17) também ouviu “pra trás de mim, Satanás!” (cf. Mateus 16:23).

Pedro é a personificação da nossa própria caminhada com Jesus.

Adentrar no Caminho não consiste numa linearidade triunfal, mas há percalços, tropeços, quedas. Há milagres, maravilhas, o sobrenatural. Da mesma forma que há mares revoltos, gigantes, perseguições.

Talvez Pedro seja o personagem bíblico cuja personalidade é mais evidente no texto sagrado. Intempestivo, ousado, sanguíneo.

Graças a esses traços é que Pedro foi o único a se dispor a andar sobre as águas, deixando de lado o natural medo dos judeus do mar, e também a superstição de que um fantasma poderia aparecer. Ele queria provar que era Jesus ali, na frente do barco, andando sobre as águas. E queria provar não com teses, conceitos, ideias ou meras abstrações, mas na própria experiência. E teve seu pedido atendido (cf. Mateus 14:22-36).

Na terceira temporada da série “The Chosen”, que retrata esse episódio bíblico, Jesus diz que o sucesso da missão em Decápolis dependia de Pedro – afinal, depois de despedir a multidão e ordenar que os discípulos entrassem no barco, é que aconteceria uma das cenas mais famosas das Escrituras.

E, quando Pedro e Jesus estão frente a frente, de pé sobre o mar, o Mestre afirma para o apóstolo:


“Por que você acha que eu permito provações? As provações provam a genuinidade da sua fé. Elas te fortalecem!”


Mas, na ocasião, a Bíblia nos conta que Pedro prestou mais atenção no mar revolto e no vento forte (ou seja, nas adversidades, nas circunstâncias) do que em Jesus e, por isso, afundou.

Quem nunca passou pela mesma situação, que atire a primeira pedra.

O apóstolo já tinha sido testemunha ocular da pesca milagrosa, da cura de cegos, leprosos, da ressureição de mortos, da multiplicação de pães e peixes... mas, ainda assim, na hora H ele não lembrou disso – assim como viria a negar o Mestre. Isso evidencia a lição do pastor e escritor Max Lucado: “Concentre-se nos gigantes e você tropeçará. Concentre-se em Deus e os seus gigantes tropeçarão”.

Porém, novamente eu indago: quem nunca? Quem nunca viveu maravilhas com Deus, mas quando a situação apertou (uma enfermidade, uma conta mais cara, uma demissão no trabalho), perdeu o foco em Cristo e se deixou afundar devido às circunstâncias? Quem nunca conheceu Jesus e negou-o em determinado momento?

Por isso que Pedro diz respeito a nós mesmos.

E ele, com toda a sua personalidade, ouviu de Cristo:


“Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.”

(João 21:18)


O que Jesus estava dizendo? Em suma, Ele não estava se referindo à questão biológica do ser, mas espiritual: quando não estamos tão profundos assim, espiritualmente falando, tomamos decisões por nós mesmos, fazemos planos e achamos que inevitavelmente eles vão se cumprir, e ao invés do “seja feita a Sua vontade” o que rege a nossa vida é o “seja feita a minha vontade”.

Pedro era assim. Ele não queria que Jesus fosse para a cruz porque ele mesmo achava que seria algo ruim. Sem pensar, cortou a orelha do soldado romano Malco. Negou o Nazareno porque queria salvar seu pescoço. Em suma, o controle estava em suas mãos.

Mas, quando atinge-se certa maturidade espiritual, o controle passa para as mãos de Deus. Como os moravianos que ofereceram-se como sacrifício vivo a Deus ao embarcarem numa viagem missionária que tinham plena consciência de que não teria volta, há certa profundidade com Deus na qual deixamos de considerar nossa vida terrena como preciosa, pois bom mesmo é estar com Cristo.

Conforme evidencia a visão do profeta Ezequiel, há certa profundidade no nível das águas em que não conseguimos mais andar ou ter o controle, mas somos levados pela correnteza (cf. Ez 47:5). O nível de maturidade almejado é quando deixamos de ser religiosos e passamos a deixar o Espírito Santo conduzir a nossa vida.

Além disso, assim como Pedro, muitas vezes nos esquecemos das promessas. Esquecemos que Deus não é homem para mentir (cf. Números 23:19), então se Ele prometeu, não vai acontecer, mas já aconteceu!

Digo isso porque Pedro ouviu de Jesus que ele seria “pescador de homens” (Mt 4:19). O ápice da concretização dessa promessa seria quando sua pregação converteu três mil homens (cf. Atos 2:41). Então, pensa comigo: qual era a chance de Pedro morrer afogado naquele episódio em que andou sobre as águas? A resposta é: zero! Pedro não morreria enquanto a promessa não se cumprisse em sua vida. Prova disso é que Deus se incumbiu de enviar um anjo para libertar Pedro da prisão (cf. Atos 12:1-24), Deus concedeu autoridade para Pedro falar com coragem e precisão diante do Sinédrio (cf. At 4:1-22), e, por fim, quando chegou seu momento derradeiro nessa Terra, o apóstolo vivenciou aquilo que Jesus havia predito sobre não fazer a sua vontade, mas sim fazer a vontade de Deus e deixou o Espírito guiá-lo, conforme nos relata a História:


“No ano de 64 d.C., o imperador Nero começou um perseguição contra os cristãos. Temendo que São Pedro caísse nas garras do imperador, os primeiros cristãos o aconselhavam a sair de Roma para se proteger. Pedro ficou indeciso: ficar e correr o risco de desaparecer junto com a Igreja nascente ou fugir para a Galileia ou Tiberíades e proclamar, bem longe de Roma, as verdades de Cristo?

Pedro quis abandonar Roma. Porém o Senhor interviu, saiu ao seu encontro.

Pela manhã, ao cruzar a Porta Latina da cidade, Pedro enxergou uma luz muito forte, vindo em sua direção. Quando a luz se aproximou, ele reconheceu Jesus Cristo, carregando uma cruz. Diante de Cristo, Pedro deixa cair o bastão, se ajoelha, levanta os braços e diz: ‘Quo vadis, Domini?’ (Aonde vais, Senhor?). E Cristo lhe responde: ‘Romam vado iterum crucifigi’ (Vou a Roma para ser crucificado novamente).

Pedro compreendeu, então, que seu lugar era em Roma, entre seus cristãos perseguidos, a exemplo de Cristo, o Bom Pastor, que dera a vida pelas ovelhas de seu rebanho. Envergonhado de sua atitude, Pedro voltou para Roma, para continuar o seu ministério, acabou sendo preso e crucificado pelo imperador Nero, porém, de cabeça para baixo, em sinal de humildade.”


Somos todos Pedro. Assim como a Bíblia não é um livro de fábulas ou com um conteúdo distante, mas trata-se de uma Palavra eterna simplesmente porque se comunica com a realidade de cada ser humano, temos afeição a Pedro e a todos os outros personagens bíblicos porque eles não são figuras isoladas, mas reflexos de nosso próprio caráter e personalidade.

Entretanto, que assim como Pedro nós possamos aprender com os erros a manter os acertos, terminar bem a caminhada, cruzando a linha de chegada para que, então, recebamos a coroa da vida!




(Referências bibliográficas: https://m.youtube.com/watch?v=OP8Q6q_qJ30&pp=ygUnUGVkcm8gYW5kYW5kbyBzb25yZSBhcyBhZ3VhcyB0aGUgY2hvc2Vu; https://pt.churchpop.com/quo-vadis-historia-da-fuga-de-sao-pedro-de-roma-e-seu-retorno-para-crucificacao/amp/)




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