NEM TANTO AO CÉU, NEM TANTO À TERRA: O DEVER DO TEÓLOGO
Recordo-me de estar na sala de aula da faculdade de Teologia, lá pelos idos de 2016-2018 (período no qual cursei, antes de trancar), e o professor mencionou acerca da necessidade do nosso fazer teológico estar em diálogo com os acontecimentos do mundo. E citou o exemplo do Papa João XXIII mediante o início do Concílio Vaticano II, o qual resumo o episódio abaixo:
“Na Assembleia que ele inaugurou em 11 de outubro de 1962, justamente a 60 anos atrás, com os cardeais, bispos e assessores de todo o mundo, o Papa João XXIII disse assim: ‘Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa’.”
Por vezes, nos fechamos nas cátedras. Produzimos calhamaços que fazem sentido num certo nicho, todavia não oferecem um frescor no tocante à perspectiva em relação ao presente século, à cotidianidade.
De fato, constitui-se um hercúleo desafio conciliar nossa teologia com o mundo. Conforme as palavras do teólogo suíço Karl Barth (1886-1968): “O bom teólogo deve segurar a Bíblia em uma das mãos e o jornal em outra”.
Mas isso é possível. Barth é prova real, uma vez que apareceu na capa da revista Time em 20 de abril de 1962, isto é, ultrapassando as quatro paredes da Igreja para falar ao público geral.
Creio ser necessário discutirmos aspectos da hermenêutica e exegese, questões puramente metafísicas, disciplinas como Escatologia, Angeologia, etc. Entretanto, também urge fazermos como Jesus e estarmos conscientes a respeito da realidade que nos cerca.
Sim, o Nazareno não estava alheio ao rumo social. Em suas parábolas, demonstrava conhecimento acerca da realidade agrária da Israel de sua época (ex: Mateus 13:1-23). Quando foi indagado em relação à esfera política, soube responder de maneira emblemática: “Dai, pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21). Ou seja, os direitos e deveres cívicos deveriam ser exercidos (“César”, a personificação do Império Romano, do Estado), assim como a comunhão do espírito com o Senhor (“Deus”), não eximindo-se de uma função, tampouco de outra.
Outro dado importante é que, em seu discurso em Atenas, o apóstolo Paulo demonstrou conhecer os filósofos gregos (cf. Atos 17:16-34). Nesse sentido, há de se ter uma abrangência, não restringindo-nos apenas a uma “casca de noz” intelectual, utilizando o termo shakespeariano. Ressalta-se que o lema protestante “Sola Scriptura” é no tocante à revelação salvífica, e não a por ventura abrir mão de utilizar-se de outras literaturas, ciências ou saberes.
Portanto, que nossa teologia faça sentido no tempo presente, para que de fato seja luz. Cabe à citação ao dramaturgo inglês G.K. Chesterton (1874-1936): “O homem não é um balão que sobe ao céu nem uma toupeira que vive unicamente cavando na terra, mas antes algo semelhante a uma árvore, cujas raízes se alimentam da terra enquanto os ramos mais altos parecem subir quase até as estrelas”.
Nem tanto ao Céu, nem tanto à Terra. Não precisamos escolher realizar uma teologia puramente imanente, e nem totalmente econômica (usando os termos rahnerianos). Basta fazermos a teologia de joelhos, mas com os olhos abertos para a realidade que nos cerca.
(Referências bibliográficas: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2022-10/um-novo-aggiornamento-igreja-60-anos-concilio-vativano-ii.html; https://oestandarteonline.com.br/2020/05/03/um-teologo-com-os-pes-no-chao/; https://content.time.com/time/covers/0,16641,19620420,00.html)
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