VULNERABILIDADE

Dependência em relação ao Senhor. Tal característica faz parte da configuração original do ser humano – mesmo que muitos neguem ou desconheçam essa verdade existencial.

Deus não depende ou precisa de nada nem ninguém. Quando Ele criou o “kosmos” e o homem, não foi por necessidade, mas sim por vontade. A Trindade em plena “koinonia” era satisfeita em si mesma. Porém, Deus escolheu compartilhar dessa mesma excelente experiência com o homem.

Imagine o seguinte: você assistiu a um filme incrível. Ficou impactado, se emocionou, aprendeu. Logo, no dia seguinte você indica para um amigo do trabalho: “Cara, você precisa assistir esse filme!” Você tinha a obrigação de fazer isso? Necessidade? Claro que não. Entretanto, você escolheu fazer isso a fim de compartilhar com outra pessoa o mesmo que você usufruiu.

Deus criou Adão e Eva para que eles vivenciassem o quão bom era o que Ele já vivenciava antes sequer do tempo existir. Deus descia no Éden na viração do dia para proporcionar ao homem essa mesma comunhão trinitária.

Faço um paralelo com o livro “A Cabana”, de William P. Young. O Pai, o Filho e o Espírito Santo (Papai, o Carpinteiro e Sarayu no enredo literário) estavam plenamente satisfeitos em si mesmos dentro da cabana. Só que eles decidem chamar Mack (representando o homem) para desfrutar desse mesmo ambiente.

Todavia, ao longo da História, a humanidade se esqueceu disso. A religião no sentido puro do latim “re-ligare”, o religar do homem para com Deus, foi se perdendo no institucionalismo gélido, burocracia vazia e hedonismo. Conforme escreve Larry Crabb em seu livro “Chega de Regras” (págs. 44-45):


“(...) é mais difícil desfrutar de Deus do que de suas bênçãos. Ofereça a uma criança pequena a escolha de ter o papai em casa na manhã de Natal sem presentes ou o papai ausente e uma pilha de presentes debaixo da árvore. A criança talvez escolhesse os presentes. Só os que alcançaram a maturidade dão mais valor à bênção da ‘presença’ do que à bênção dos ‘presentes’.”


Adão e Eva caíram porque se acharam autossuficientes. Afinal, mesmo Deus tendo advertido para não comerem do fruto, eles presumiram que não precisavam do Senhor para guiá-los na vida, e tomaram o controle.

Hoje, também somos assim quando estamos “ocupados demais” para Deus e Suas coisas – não é de se espantar, pois se controlamos todas as áreas da nossa vida, não há tempo para mais nada. Nossa conta bancária está recheada, nosso diploma está na parede, nosso físico e nossa estética estão em dia. Então, por que precisaríamos de alguém?

O escritor C.S. Lewis (1898-1963) reflete: “Deus sussurra e fala à consciência através do prazer, mas grita-lhe por meio da dor: a dor é o seu megafone para despertar um mundo adormecido”. Ora, por que Deus enviava para o deserto todo aquele que tinha uma grande missão a cumprir, a exemplo do povo hebreu em Êxodo, João Batista, Jesus e o apóstolo Paulo? Sem mistérios, a resposta é simples: no deserto, faz um calor extremo durante o dia e um frio congelante à noite; não há muitos “amigos” por ali, apenas uma vastidão de areia; há assaltantes à espreita e animais peçonhentos escondidos; alimentos e água são escassos. Em suma, você está exposto. Num termo mais preciso, você está vulnerável.

O dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) descreve com maestria essa condição humana na peça teatral “Hamlet”, no Ato V, Cena I:


“Mais um crânio. Por que não há de ser o de um jurista? Onde foram parar as sutilezas, os equívocos, os casos, as enfiteuses, todas as suas chicanas? Por que consente que este maroto rústico lhe bata com a enxada suja, e não lhe arma um processo por lesões pessoais? Hum! É bem possível que esse sujeito tivesse sido um grande comprador de terras, com suas escrituras, hipotecas, multas, endossos e recuperações. Consistirá a multa das multas e a recuperação das recuperações em ficarmos com a bela cabeça assim cheia de tão bonito lodo? Não lhe arranjaram seus fiadores, com as fianças duplas, mais espaço do que o de seus contratos? Os títulos de suas propriedades não caberiam em seu caixão; não obterão os herdeiros mais do que isso?”


Em outras palavras, os crânios são todos iguais. Diante de um deles, pode-se inferir ser de qualquer indivíduo. E todas as ferramentas e benesses que este indivíduo possuía em vida, de nada valerão na cova.

Perante essa crueza da condição humana, tal como no deserto, há a chance de um maior entendimento acerca da insuficiência do homem, da fraqueza deste, e da necessidade de algo maior.

Por isso, apesar do deserto ser o local de maior dificuldade, também se trata da melhor escola. Ali, o homem entende sua identidade, e se afeiçoa mais a Deus por entender que, sendo Ele a própria Vida, não há vida fora dEle.

No livro do Gênesis, Deus toca na articulação da coxa de Jacó (cf. Gn 32:22-32). Jacó, o trapaceador, o esperto, o que confiava em suas próprias artimanhas, teve de lidar com o manquejar. Paulo relata uma situação semelhante:


“E, para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de não me exaltar.”

(2 Coríntios 12:7)


O que salta aos olhos é o fato de essa sabedoria acerca da vulnerabilidades estar presente em diversas religiões e culturas. Na grega, por exemplo, há o mito do calcanhar de Aquiles, conforme matéria da Superinteressante:


“Segundo a lenda grega, Aquiles, filho do rei Peleu e da deusa Tétis, tornou-se invulnerável quando, ao nascer, foi banhado pela mãe nas águas do rio Estige. Apenas o calcanhar por onde Tétis o segurou não foi molhado e continuou vulnerável. ‘Algumas variantes dizem que Aquiles foi flechado no calcanhar por Páris, que conhecia seu segredo. Mas não há citações em Homero sobre a morte do herói’, diz o mitólogo Henrique Murachco, da Universidade de São Paulo.”


Jacó, Paulo e Aquiles. Três homens formidáveis, mas que possuíam uma vulnerabilidade.

E, indo além, Paulo explicita o porquê do seu espinho na carne: “(...) a fim de não me exaltar”.

Seriam as dificuldades e fraquezas um lembrete da nossa dependência diária de Deus?

Não afirma-se que Deus provoca todo tipo de adversidades. Mas parece ser claro nas Escrituras que Ele pode usar e reverter a maior dificuldade em uma enorme bênção.

Deus sempre lembra o Seu povo de forma pedagógica que não somos autossuficientes, portanto, dependemos. Foi justamente por isso que Ele enviou o maná, que tinha validade apenas de um dia. Para além disso, o povo estocaria e pararia de depender.

As fraquezas nos lembram que não somos Deus, e que esse Deus nos chama para perto. Sozinhos não conseguimos andar sobre as águas, mas com Ele isso é possível. Por nossa própria força não derrotamos o Diabo, mas se como o arcanjo Miguel dissermos “o Senhor te repreenda”, é possível. Por nossas próprias habilidades não derrotamos os gigantes, mas se Ele nos der graça isso é possível.

As nossas fraquezas, portanto, seriam aproveitadas por Deus para criar dependência e intimidade. Nas palavras do apóstolo:


“Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.”

(2 Coríntios 12:10)



(Referências bibliográficas: https://super.abril.com.br/comportamento/calcanhar-de-aquiles-lenda-grega-explica-origem-do-ponto-fraco/mobile; https://williamshakespearewilliam.blogspot.com/2009/02/hamlet-ato-v-cena-i.html?m=1)

(Imagem: Destaque de “A Morte de Aquiles”, Peter Paul Rubens, 1630-1635)



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