“À ESPERA DE UM MILAGRE” (1999) | Análise
Aprendi a ser cinéfilo com a minha mãe.
Quando criança, tínhamos TV por assinatura em casa, e havia canais que passavam filmes 24 horas.
Conheci através de minha mãe filmes como “Tubarão” (1975), “Edward Mãos de Tesoura” (1990), “E.T.: O Extraterrestre” (1982), o Superman de Christopher Reeve... Também gostávamos bastante do gênero terror, e perdi a conta de quantas vezes assistimos “O Massacre da Serra Elétrica” (2003).
Na época das locadoras, um passatempo nosso era alugar filmes (principalmente no final de semana, pois podia devolver na segunda-feira). Em uma ocasião de Dia das Mães, quando fiz uma apresentação na escola e saímos um pouco mais cedo, minha mãe alugou “Piratas do Caribe: O Baú da Morte” (2006). Confesso que na hora não me empolguei muito, mas depois de assistir gostei tanto que comprei o incrível jogo de Play Station 2.
Outro longa que desfrutei inúmeras vezes foi “À Espera de um Milagre” (1999), ou “The Green Mile” no original em inglês (em referência à coloração verde desbotado do corredor da morte da penitenciária onde se passa a história).
Eu e minha mãe assistíamos na tela do SBT, e toda vez nos emocionávamos.
Porém, assim como um rio não passa duas vezes no mesmo lugar, um filme nunca é o mesmo quando você reassiste.
E neste final de semana decidi revisitar a obra cinematográfica homônima ao livro de Stephen King.
E valeu a pena.
Hoje, com a cosmovisão cristã, enxergo claramente uma alegoria da história com o cristianismo.
Uma curiosidade é que Graham Greene, que viveu Arlen Bitterbuck, também foi uma das versões de Papai no filme “A Cabana” (2017).
Mas as ligações com o cristianismo vão muito além.
O protagonista John Coffey, brilhantemente interpretado por Michael Clarke Duncan (indicado ao Oscar como “Melhor Ator Coadjuvante” graças a esse papel; ator o qual me recordo também nos filmes “O Escorpião Rei”, de 2001, e “Demolidor: O Homem Sem Medo”, de 2003, no qual dá vida ao Rei do Crime, clássico antagonista da Marvel), é um prisioneiro inocente condenado ao corredor da morte no estado norte-americano de Lousiana. Ao longo do enredo, nos deparamos com o fato de que Coffey possui poderes sobrenaturais: ele cura o agente penitenciário Paul Edgecomb (Tom Hanks) de uma infecção urinária, ressuscita o pequeno rato Sr. Jingles, e cura Melinda (Patricia Clarkson), esposa de Hal Moores (James Cromwell), diretor da penitenciária, de um tumor cerebral.
Além da ligação óbvia com o arcabouço cristão no tocante aos poderes sobrenaturais do protagonista (inclusive descritos como “milagre de Jesus” por um dos guardas), há outros paralelos: John Coffey possui as mesma iniciais de Jesus Cristo (JC); assim como o Messias, Coffey foi morto sem ter culpa; Coffey era alguém que muitos não esperavam essa face sobrenatural, pois tinham medo dele devido ao seu porte físico e aos supostos crimes cometidos, assim como não esperavam muito de Jesus, pois como disse Natanael referindo-se ao local de nascimento dEle: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1:46).
Não apenas isso, mas claramente John Coffey é alguém diferente no mundo. Inclusive, o advogado interpretado por Gary Sinise diz que não há informações sobre a vida pregressa do prisioneiro, e que parecia que ele havia “caído do céu”. Lembra alguém?
Coffey é um indivíduo diferente em diversos aspectos, inclusive na forma como se relaciona com o mundo. Quando vê o céu estrelado, ele aponta para uma constelação que parece uma senhora sentada na cadeira de balanço, ele enche as mãos de terra e grama para sentir o cheiro da natureza, se maravilha ao assistir um filme da mesma forma de quando come uma deliciosa broa de milho.
É alguém que vive intensamente, que enxerga Deus nos detalhes.
Mas é alguém também que, como acontecera com Jesus na cruz conforme relata o profeta Isaías, sente (literalmente) o peso do pecado no mundo, e ao descrever o mal, diz: “Isso acontece todo dia, no mundo todo”.
Mas é alguém também que, como acontecera com Jesus na cruz conforme relata o profeta Isaías, sente (literalmente) o peso do pecado no mundo, e ao descrever o mal, diz: “Isso acontece todo dia, no mundo todo”.
O filme transita em momentos de trevas, como a assustadora execução de Eduard Delacroix (Michael Jeter) e a crueldade de Wild Bill (Sam Rockwell), e momentos de luz, como nos milagres de Coffey e nas situações descritas anteriormente de maravilhamentos com pequenas coisas.
John Coffey é alguém que parece abraçar a morte como uma amiga por entendê-la como libertação. Quando Paul Edgecomb chega a oferecer a Coffey uma oportunidade de fugir, este nega e diz que está cansado, que carrega o fardo de sentir a maldade existente, e parece desejar o fim desta vida – em prol da chegada da próxima. Conforme as palavras do apóstolo Paulo: “Pois para mim viver é Cristo, e morrer é lucro” (Filipenses 1:21).
Coffey parece compreender que cumpriu sua missão. Quando curava alguém, ele dizia que era um ato de “ajudar”. E, de fato, ele ajudou diversas pessoas com seu dom. Aliás, conforme a palavra que Ellie (Eve Brent) usou, ele “infectou” Paul com vida, a ponto deste estar no auge dos seus 108 anos cheio de vitalidade – apesar de todas as suas pessoas amadas já terem partido, e ele chamar de “expiação” o fato de ver esposa, filho e amigos darem adeus e ele ficar. A mesma “infecção” aconteceu com Sr. Jingles, que permanece vivo na sua caixa de charutos.
As lições que tiro do filme são várias.
John Coffey era arrebatado diante das estrelas no céu noturno, de um punhado de terra e cantava “Heaven, I’m in heaven” juntamente com o filme. Isso me recorda de uma frase do notável rabino Abraham Joshua Heschel citado no livro “O Evangelho Maltrapilho”, de Brennan Manning (pág. 89): “Sam, nunca na minha vida pedi a Deus sucesso, sabedoria, poder ou fama. Pedi assombro, e ele me concedeu”.
Coffey era alguém que não tinha medo da morte. Pelo contrário, enxergava-a como a porta de entrada para a verdadeira vida, um local que, diferentemente deste mundo, não haveria maldade, dor ou sofrimento.
Era alguém resoluto pois tinha consciência que sua missão foi cumprida. Entendia-se como um peregrino nessa terra, que estava aqui para “ajudar”, cumprir um propósito.
E o que é a vida? Paul, ao mesmo tempo que nutria a alegria da longevidade por ter visto “coisas incríveis”, carregava consigo o pesar de todas as pessoas que amava já terem partido. A foto de sua esposa Jan (Bonnie Hunt, que deu voz à Sally nos filmes de “Carros”), em preto e branco, está na cabeceira de sua cama. Ele foi ao sepultamento de sua melhor amiga Ellie. São as pessoas que fazem a vida ser bela?
Recordo-me de um relato de minha mãe. Ela dizia que meu avô Zé adorava ir à cidade onde seu cunhado, tio Roque, morava. Ele tinha um bar, e ambos ficavam ali, em longas prosas. Tio Roque faleceu precocemente de um acidente de carro. Minha mãe conta que a viagem para essa cidade nunca mais foi a mesma para meu avô. “Para ele, tinha perdido a graça”, disse.
A vida não é algo abstrato, mas ganha sabor e cores pelas pessoas que fazem parte dela.
“À Espera de um Milagre” é um clássico do cinema, que vale a pena ser visto... e revisto.

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