O CINEMA DE KIESLOWSKI – Vol. I

Conheci Krzysztof Kieslowski (1941-1996) há alguns anos. Recordo-me de quando o Google fez uma homenagem ao cineasta polonês, colocando sua imagem em meio ao logo da empresa.

Sim, gosto do cinema de Hollywood. Cresci assistindo com minha mãe filmes como “Tubarão” (1975), “Superman - O Filme” (1978), “Indiana Jones” (1981), “Anaconda” (1997), “E.T.: O Extraterrestre” (1982), etc.

Mas eu também gosto de um cinema alternativo, para além do estilo “pipoca”, fora do circuito convencional, blockbusters e afins.

O cinema de Kieslowski está nos detalhes – como os melhores fazem.

Dizem que “o diabo mora nos detalhes”. Equívoco. Na verdade, é Deus quem mora nos detalhes.

E o longa “Trois Couleurs: Bleu” (“A Liberdade é Azul”, em português), de 1993, demonstra isso.

A câmera foca na roda do carro em movimento. No pedaço de papel na mão da criança. No brinquedo na mão do rapaz. A protagonista descobre se o seu marido amava a amante sem a necessidade de indagar, pois observou em seu pescoço um mesmo colar de crucifixo que o dito cujo também lhe dera de presente.

Quando um jovem chega próximo ao carro que acabou de chocar-se contra uma árvore, o esperado era que a câmera acompanhasse esse deslocamento. Afinal, o que aconteceu? Tem alguém vivo?

Mas os gênios não fazem o esperado.

A câmera permanece longínqua, tal como um espectador que não deseja aproximar-se da cena brutal.

Vemos a notícia fatal dada pelo médico através dos olhos da paciente, em todos os sentidos: é no reflexo do doutor na pupila da mulher que a câmera focaliza, e não no doutor em si. Por que? Porque não há espaço para convencionalidades.

O marido de Julie (Juliette Binoche), a protagonista, morre num acidente automobilístico cuja única sobrevivente é ela mesma, pois a filha também vai a óbito.

Ele, chamado Patrice (Hugues Quester), era um dos maiores compositores musicais do mundo, mas, na sua única aparição em vida, está de costas e não vemos o seu rosto.

Mediante a tragédia que interrompe o curso de sua vida, Julie adquire uma outra atitude para com a própria vida. Ela adota um senso de urgência. Liga para Olivier (Benoit Regent), que era apaixonado por ela há algum tempo, e passam a noite juntos. Vai morar em um apartamento que ainda está em obras.

A moça tenta seguir em frente. Toma café com sorvete (“como sempre”), sabe ser arrebatada com uma boa música... mas o azul, cor preferida de sua filha, a acompanha em tudo, como uma ferida aberta, um lembrete do trágico.

Quando visita sua mãe no asilo, a protagonista ouve de sua progenitora: “Estou bem. Não me falta nada. Tenho uma TV. Dá para ver o mundo todo”.

Quando ela pergunte a Julie “Você também assiste?”, a resposta é: “Não”.

Apesar do sofrimento, Julie parece ainda desfrutar da vida, na medida do possível. Ela ama tanto a vida que não tem coragem de tirá-la de um rato e sua prole que vive em um dos velhos cômodos de seu apartamento. A TV não lhe faz falta. Ela vive a verdadeira vida. A mãe, por sua vez, imagina que está vivendo a vida, mediada pela tela, quando na verdade não está.

Julie diz: “Não quero bens, presentes, amigos, amor ou vínculos. Tudo isso são armadilhas”.

É justamente por causa desse desprendimento que ela vive tão intensamente.

Nas palavras de G.K. Chesterton (1874-1936): “Os anjos conseguem voar porque dão pouca importância a si mesmos”.

Todavia, tal como o azul que acompanha a protagonista, essa vida está permeada de um tom de tragédia, como se algo fosse romper a qualquer momento. É quando ela lembra que tem medo de ratos no momento em que sua mãe lhe conta. Quando diversas crianças entram na piscina que ela utilizava sozinha até então (e, quando foi morar no apartamento, Julie não queria crianças por perto). Ou quando uma reportagem ao seu respeito aparece na televisão.

E não é assim a vida? Uma mundo que jaz no maligno, mas saturado de Deus, no qual, nas palavras de Einstein, tudo é um milagre?

E, apesar de tudo, Julie consegue se manter. Mesmo descobrindo que seu marido tinha uma amante, ela foi capaz de tratar a mulher com bondade, dando-lhe a antiga mansão em que morava.

Parece que Julie perdeu tudo, menos o essencial. Tanto é que, na última cena, ela aparece chorando, mas, por fim, sorri.





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