SOLI DEO GLORIA

Jesus não operou o milagre de transformar água em vinho nas Bodas de Caná, conforme registrado no evangelho joanino, tão somente para salvar aquele casamento.

Afinal, quantas outras festas de casamento estavam acontecendo e quantas fracassaram?

O motivo primordial pelo qual Jesus fez a transubstanciação foi anunciar o início do Seu ministério.

Da mesma forma, quantas outras pessoas haviam morrido como Lázaro mas não foram ressuscitadas por Jesus? Ou o único túmulo com um cadáver era o de Lázaro? Claro que não. Então, por que Jesus não rodou pelos cemitérios e ressuscitou a todos?

A resposta está na própria Bíblia, nas palavras do próprio Cristo: “A doença de Lázaro não acabará em morte. Ela aconteceu para a glória de Deus, para que o Filho de Deus receba glória por meio dela” (João 11:4).

Da mesma forma que o milagre das Bodas de Caná foi para marcar o início do ministério de Jesus, a ressurreição de Lázaro foi para que Ele recebesse glória mediante o entendimento de que Ele vencia a morte (afinal, havia a concepção de que até o terceiro dia a alma de um morto podia juntar-se ao corpo e trazê-lo de volta à vida; Jesus chamou Lázaro no quarto dia).

O Rev. Augustus Nicodemus afirma:


“É preciso notar que Jesus não fazia milagres à toa, mas o fazia quando tinha um propósito ou uma necessidade, ou para ensinar algo.”


Um dos lemas da Reforma Protestante é o “Soli Deo Gloria”, somente a Deus a glória. Calvino dizia que o mundo é um “theatrum gloriae Dei” (teatro da glória de Deus). Tudo o que acontece é para que a Deus seja dada a glória.

Jesus poderia ter impedido que aquela tempestade que acometeu o barco onde Ele estava com Seus discípulos sequer se iniciasse. Por qual motivo Ele não fez? Porque acalmar a tempestade daria um testemunho a respeito de Sua pessoa, tanto no sentido literal (Jesus tem controle sobre a natureza) quando no espiritual (o fato de Jesus estar no barco deve trazer-nos paz mesmo em meio às adversidades).

Quando Jesus chegou em Betânia, Lázaro já estava morto. Então, Marta (irmã de Lázaro) disse-lhe: “Se o Senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido” (João 11:21). De fato, Jesus não poderia ter chegado antes? Sim, poderia. Mas através da ressurreição de Lázaro, a glória seria dada ao Senhor.

As pessoas que estavam nas Bodas de Caná, os discípulos no barco e os familiares e amigos de Lázaro precisavam ver o que viram.

Mas, talvez se fosse para nós escolhermos, desejaríamos que o vinho da festa não tivesse acabado, que a tempestade não tivesse acontecido e que Lázaro não tivesse morrido.

A verdade é que nós, seres humanos, não sabemos o que é melhor pra gente.

O motivo? Não sabemos discernir o que é bom e o que é mau.

Muitas vezes somos guiados pelos sentidos: classificamos como “bom” aquilo que é aparentemente bom, e como “ruim” aquilo que aparentemente é ruim.

Porém, nem tudo que parece é.

Jesus ensinou:


“Pedi, e vos será concedido; buscai, e encontrareis; batei, e a porta será aberta para vós. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá. Ou qual dentre vós é o homem que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará uma cobra? Assim, se vós, sendo maus, sabeis dar bons presentes aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará o que é bom aos que lhe pedirem!”

(Mateus 7:7-11)


Se não aplicarmos a devida hermenêutica e exegese nessa passagem, poderemos interpretar que Jesus está dizendo: “Qualquer coisa que vocês pedirem, vocês terão!”. Contudo, na verdade Ele está dizendo: “Quando vocês pedirem, o Pai saberá dar o que é bom pra vocês”.

Ora, e não é assim que um bom pai age? Um bom pai dá tudo o que um filho pede ou dá o que é bom para o filho naquele momento?

Ah, outro ponto importante: essa questão de “dar o que é bom naquele momento” também inclui ouvir um “não”.

Exemplo prático: se um filho de 5 anos de idade pede um carro para o pai, o melhor para o menino naquele momento é ouvir um “não”.

Como disse C.S. Lewis: “Se Deus tivesse concedido todas as orações tolas que eu fiz na minha vida, onde eu estaria agora?”

Voltando à passagem bíblica, o que ela significa na realidade é:


“Jesus explica que o bem e o mal têm, às vezes, certa semelhança inicial, podendo enganar alguém ingênuo ou desinformado. A pedra a que Jesus se refere era parecida com os pães orientais da época: redondos, achatados e endurecidos (por isso o pão suportava longas viagens e era quebrado para ser servido). A cobra peçonhenta é semelhante às enguias comestíveis, apreciadas pela culinária da época. O Senhor é Pai bondoso e fica feliz em dar os presentes (dádivas) que seus filhos lhe pedem, mas só Ele sabe o que é realmente bom para cada um de nós.”

(Bíblia King James Atualizada)


Isto é, Deus sabe o que é melhor para nós.

E quantas vezes será que nós achamos que determinada situação era uma cilada do Diabo quando, na verdade, era uma ação de Deus?

Na pregação “A Jornada do Salmo 23”, o pastor Gustavo Paiva falou sobre esse assunto:


“Pensa um negócio: Maria e José vão ter Jesus, preparam um enxoval, pintam o quarto da criança, botam o berço. Fazem tudo.

No outro dia de manhã, quando eles acordam, chega um decreto dizendo: ‘Vocês tem que sair da sua casa, sair da sua terra, sair de perto dos seus familiares e ir pra uma terra distante porque o imperador disse que vai ter um senso’. Imagina Maria e José: ‘É o diabo! A gente preparou a casa, a gente preparou o quarto, tá tudo pronto’.

Chegam lá, de porta em porta, mas não tem vaga. E agora? Tem uma manjedoura ali.

Quem escreveu essa história? Deus.

Tem coisa que a gente está falando que é o Satanás, mas é Deus nos levando a uma maturidade que nós não encontraríamos em nenhum outro lugar.

Tiago diz: ‘Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações’ (1:2). Vamos lá, quem se alegra? ‘Chegou a provação, aleluia!’ É porque a gente está olhando pro hoje, Deus está olhando pro amanhã. Porque você entra na provação como menino, mas sai como homem.”


É isso! Tem um ditado que diz: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, na verdade, as linhas sempre foram retas, mas nossa visão turva é que nos faz enxergá-las como tortas.

Que possamos confiar totalmente no Senhor. Mesmo quando o vinho acabar, mesmo quando a tempestade acontecer, mesmo quando a morte bater à porta... e mesmo quando o milagre não ocorrer. Pois Ele tem um plano, que o Dr. Larry Crabb chama de “Plano Emanuel” no seu livro “Chega de Regras”, Ele sabe o que é melhor pra nós e, conforme as palavras de Billy Graham: “Eu li a última página da Bíblia. Tudo vai acabar bem”.



(Referências bibliográficas: https://www.instagram.com/p/BbRlkXWDwYu/?igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==; https://m.youtube.com/watch?v=H7zZEKrDVrg&pp=ygUhSm9ybmFkYSBkbyBzYWxtbyAyMyBndXN0YWJvIHBhaXZh)



— APOIE: pedroquintaojf@gmail.com (PIX)







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