UM HOMEM, UM VERSÍCULO

Certa vez, conversando com um amigo, perguntei-o a respeito de suas referências no ministério. Sua réplica foi no sentido de que seus heróis da fé não eram pessoas famosas, e ponderou: “Os melhores solos de guitarra não foram gravados, eles foram tocados em um clube ou algo assim. As melhores pregações não foram gravadas. Quando Paulo escreveu sua carta aos Romanos, ele nunca tinha ido a Roma. Então, outra pessoa plantou a igreja de Roma. Quem é essa pessoa? Desconhecido na Terra, mas famoso no Céu”.

Fiquei pensando nesses dizeres por algum tempo.

Eu esperava ouvir da boca daquele homem nomes familiares, que estavam no topo de vendas de livros e visualizações em pregações no You Tube.

Mas ele me disse que seus heróis eram desconhecidos.

Não há nada de errado em ter muitos acessos em um vídeo ou ser um autor best-seller. Isso glorifica a Deus. Afinal, quanto mais pessoas tiverem acesso a um conteúdo edificante, mais o Reino será exaltado.

Todavia, o ponto é que não podemos usar o padrão de sucesso secular como métrica para nossa vida com Deus.

A respeito de Enoque, a Bíblia apresenta somente um versículo que nos conta algo relevante a respeito de sua pessoa:


“Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o havia arrebatado.”

(Gênesis 5:24)


Sim, há versículos anteriores que falam sobre Enoque, mas tão somente questão genealógica. Neste único versículo que sabemos algo mais sobre ele.

Repito: um versículo.

Porém, qual outro homem poderia dizer que “andou com Deus”, tal como Enoque?

Isso já não é o bastante?

Creio que, perante esse entendimento, William Carey (1761-1834), missionário batista inglês, conhecido como o “Pai das Missões Modernas, afirmou: “Quando eu partir, não fale sobre William Carey, fale sobre o Salvador de William Carey”.

Não precisamos ser conhecidos. Jesus precisa ser conhecido.

Não importa se a nossa respeito há um versículo apenas. O que importa é se poderão falar de nós: “Fulano andou com Deus”.

A Bíblia nos chama de “ministros da Palavra” (Lc 1:2). A palavra “ministro” vem do grego “huperetes”, e significa remador de baixa categoria. Os barcos antigos eram movidos pela energia humana, e nas laterais das naus existiam pequenas janelas onde eram introduzidos os remos, em muitas embarcações vezes fazendo um conjunto de três andares de remadores, remadores estes que não eram contratados, era trabalho escravo. Desertores, prisioneiros, condenados, etc. Em suma, o remador do último porão não aparece, está mergulhado em meio à escuridão, umidade, suor, fome, remando sem ser notado, mas o barco continua andando, seguindo o curso. O que importa é remar, remar e remar.

Jesus também nos chama de “sal da terra” (Mateus 5:13). Por acaso você vê o sal no seu prato de comida? Você consegue enxergá-lo em meio ao arroz e feijão? Certamente que não.

Porém, o interessante é que se uma comida está muito salgada, isso logo é sentido. Da mesma forma, se tem pouco sal.

Em outras palavras, tanto a presença quanto a ausência do sal é percebida de maneira imediata.

O que Jesus quis nos dizer é: façam a diferença, independentemente se vocês serão vistos ou não.

Ninguém vê o sal, mas ele faz toda a diferença. Ninguém via os “huperetes”, mas sem eles o barco não se movia.

Há muitos desses que conheceremos no Céu sem nunca termos conhecido na Terra, mas que já eram famosos no Céu muito antes de termos conhecido eles.



— APOIE: pedroquintaojf@gmail.com (PIX)






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