MYSTERIUM VITAE

O programa “Provocações”, da TV Cultura, foi conduzido por Antônio Abujamra do ano de 2000 até 2015. De 2019 em diante, Marcelo Tas assumiu a bancada.

E uma clássica indagação presente, realizada pelo apresentador, era: “O que é a vida?”

Ao longo da História, muitos tentaram responder essa questão, sob diferentes perspectivas.

Em “Macbeth” (1623), William Shakespeare escreveu: “A vida não passa de uma sombra que caminha, um po­bre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”.

Já no romance “Os Demônios” (1872), Fiódor Dostoiévski proclama: “A vida é dor, a vida é medo, e o homem é um infeliz. Hoje tudo é dor e medo. Hoje o homem ama a vida porque ama a dor e o medo. Haverá um novo homem, feliz e altivo, aquele para quem for indiferente viver ou não viver será o novo homem. Quem vencer a dor e o medo, esse mesmo será Deus. E o outro Deus não existirá”.

Na canção “That’s Life”, Frank Sinatra diz: “Eu já fui um boneco, indigente, pirata/Poeta, um peão e um rei/Eu já estive acima, abaixo, sobre e fora”, destacando a natureza cíclica da jornada vital.

O “Homo sapiens” é o único ser vivo que convive com questões existenciais dessa estirpe. Uma planta ou um lobo não se perguntam “o que é a vida?”. Evidentemente, isso não desemboca em superioridade, pois sabemos que trata-se tão somente de inteligências diferentes. Contudo, não deixa de ser instigante o fato.

Todavia, há uma outra fonte que também oferece réplicas para essa dúvida: a Bíblia Sagrada.

Na epístola de Tiago, está escrito: “Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa” (4:14).

Já o apóstolo Pedro declara: “Amados, exorto-vos como a peregrinos e estrangeiros a vos absterdes das paixões da carne, que batalham contra a alma” (1 Pe 2:11).

Em ambos os casos, uma característica é ressaltada: a vida é breve.

Se Tiago compara essa brevidade vital a uma névoa, “que logo se dissipa”, as palavras petrinas usam o termo “peregrinos”, afirmando portanto que estamos de passagem nessa realidade material (em 1678, John Bunyan intitularia de “O Peregrino” um dos livros mais vendidos de todos os tempos).

E o apóstolo vai além, chamando-nos de “estrangeiros”, no sentido de não pertencermos a esta presente era.

Então, se a vida é limitada e não pertencemos definitivamente a esta dimensão, qual é o sentido de estarmos aqui?

Em seu livro “Uma Vida com Propósitos”, o pastor Rick Warren disserta (pág. 33-34): “Esta vida não é tudo o que há. A vida é apenas um ensaio geral, antes da verdadeira produção. Você passará muito mais tempo do outro lado da morte – na eternidade – do que aqui. A terra é um lugar de preparação, a pré-escola, o vestibular para sua vida na eternidade. É o treinamento coletivo que ocorre antes do jogo; a volta de aquecimento antes do início da corrida. Esta vida é uma preparação para a próxima.”

As Escrituras abordam a presente vida como um sinal que aponta para algo maior. Comparada à eternidade, é apenas um “detalhe”.

Muitas tradições espirituais trabalham com a ótica de que estamos nesse mundo para aperfeiçoar o nosso espírito, nos desenvolvermos como pessoas, chegando àquele estágio em que poderíamos usar o termo paulino acerca da estatura de “varão perfeito” (cf. Efésios 4:13-16).

No final das contas, a vida, certamente, é um mistério.



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