A UTILIDADE E A NÃO-UTILIDADE DA FILOSOFIA

A produtividade nunca esteve tão em voga quanto neste alvorecer (que mais parece um crepúsculo) do século XXI.

Na sociedade líquida denunciada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a demanda pela produtividade incessante trata-se de um alarmante sintoma.

Estamos a tal ponto condicionados à produção a todo tempo (por obviedade do termo, não apenas no âmbito profissional, portanto) como estivera o personagem de Charlie Chaplin na película "Tempos Modernos". Confundimo-nos com a máquina, logo, a dimensão humana é diluída homeopaticamente.

Nesta esteira, é natural que questionamentos a respeito da utilidade das coisas sejam levantados. Afinal, se tudo requer produtividade, quão seria útil efetuar algo que não se produz?

Então, drasticamente, a Filosofia entra nesta mira. Afinal, este "amor pela sabedoria" não é algo seleto, mas como amor materno, abarca toda a possibilidade de sabedoria, onde ela por ventura possa ser encontrada e, ressalta-se, seja ela útil numa perspectiva mercadológica ou não.

O que diferencia a Filosofia é que não há uma utilidade prática imediata. Até hoje perguntam "vai servir pra que estudar Filosofia?" A resposta mais adequada é "não vai servir para nada". Os gregos entendiam que aí é que estava a grandeza: o saber pelo saber. "Teoria", em grego, significa contemplação, independente da utilização prática. Se em Homero a realização (no herói) seria a honra, glória, etc., em Sócrates, Platão e Aristóteles a realização consiste no cultivo do "lógos", do saber. Para Aristóteles, essas qualidades homéricas são virtudes éticas, e não dianoéticas.

Parmênides, filósofo pré-socrático, é levado de carro diante de uma deusa que lhe transmite um ensinamento: "É necessário que tu aprendas tudo,/quer o fundo imutável da verdade sem contradição,/quer as experiências dos homens, nas quais não há verdadeira certeza./Mas a qualquer custo também estas aprenderás, visto que as experiências/devem ter um valor para aquele que investiga tudo em todos os sentidos." (DK28B1, 28-32)

Recorrendo a Aristóteles novamente, ele define a ciência como aquilo que possui um objeto de estudo bem definido. Logo, um cientista poderia afirmar de forma válida: "Meu interesse é por esta matéria (ou objeto) e mais nada". Por conseguinte, chega o filósofo e replica: "É justamente esse 'nada' o qual me ocuparei".

Consiste no saber pelo saber. Cortella conta que, quando lecionava na graduação, reservava dez minutos antes da aula para abordar acerca da "cultura inútil", que de inútil para a sabedoria não tinha nada, mas etimologicamente assim poderia ser vista na ótica que considerava o ser útil como aquele que produz imanentemente.

Não que não o faça. Salomão, o rei bíblico dotado de uma sabedoria divinamente outorgada, escreveu: "Assim como você não sabe o caminho nem a direção do vento, nem como os ossos são formados no ventre de uma mulher grávida, assim também você não sabe a atividade de Deus, que faz todas as coisas" (Eclesiastes 11:5). Ou seja, ele compara o agir de Deus com processos que ocorrem fora do campo de visão humano, como a formação do feto no ventre e o comportamento das correntes de ar. Se tomarmos o espírito como sede do conhecimento, e no raciocínio das Escrituras o espírito com o agir divino de forma analogada, então poder-se-ia dizer que aqui também há uma inferição a respeito de como ocorre o processo de aprendizagem: invisível, mas real.

Finalmente, afirma-se que o conhecimento gera sim um efeito imediato.

Contudo, o que muitos esperam é que este efeito seja palpável, concreto, tateável, quase um drive-thru intelectual. E tal expectativa é díspar do processo descrito.

Sob os ombros de Kant, retomamos a necessidade de, antes de partimos para o problema em si, ateemo-nos no problema do problema, ou de forma anterior, na definição da definição.

Quando se afirma a respeito do conhecimento "útil" e "inútil": o que é "útil"? E o que é "inútil"? Quem elabora tais definições? Utilidade e utilidade na cosmovisão de quem? Mediante quais lentes de análise?

Respondendo tais perguntas, como num efeito dominó, todo o raciocínio restante talvez torne-se mais elucidado.



(Imagem: "Le Penseur", de Auguste Rodin. 1880)


(Referência bibliográfica: https://youtu.be/9LrfSeekSv0?si=s0x229JjgdL8YOMP)






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