AMIGO DE DEUS
Tem uma cena no filme "As Aventuras de Pi" (2012) na qual o protagonista está no seu barco em alto mar, em meio a uma tempestade tremenda, e ele brada aos Céus:
"Louvado seja Deus! Senhor de todos os mundos! O compassivo, o misericordioso!
Ah, meu Deus! Eu perdi minha família! Eu perdi tudo que eu tinha!
Eu me rendo! O que mais você quer?!"
Isto fez-me lembrar de uma conversa que Santa Teresa d'Ávila teve com Deus.
"Senhor se estou cumprindo tuas ordens, por que tenho tantas dificuldades no caminho?" Deus respondeu: 'Teresa não sabes que é assim que trato meus amigos'. Teresa, por sua vez, replicou: 'Ah, Senhor então é por isso que tens poucos amigos'."
Uma grande falha nossa é querer inverter o que diz no livro do Gênesis: ao invés de nós sermos imagem e semelhança de Deus, fazemos Deus à nossa imagem e semelhança. Isso quer dizer que imputamos a Deus os nossos próprios pensamentos e expectativas.
Por exemplo, como vivemos numa era em que tudo é rápido e instantâneo (a comida, a internet, os vídeos), achamos que Deus é assim também, ou seja, que faremos a oração num dia e no outro já teremos a resposta.
Ei, entre José receber as promessas através de sonhos e ele sentar-se no trono do Egito passou mais de uma década. Como disse o teólogo norte-americano A.W. Tozer (1897-1963): "Deus não se curvou à nossa pressa nervosa, nem adotou os métodos de nossa era imediatista. O homem que deseja conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo, muito tempo".
Além disso, achamos que se fizermos tudo "certinho", teremos uma recompensa de Deus, assim como o Mutley esperava uma medalha. No livro "Chega de Regras", o pastor Larry Crabb aborda esse tema, do nosso pensamento que coloca pressão em nós mesmos, em detrimento do caminho da liberdade, de que se eu fizer A vou chegar até B, se eu agir certinho com Deus, terei uma vida triunfal.
Classificamos alguém bem-sucedido conforme os padrões mundanos: alguém que tem muito dinheiro, tudo o que quer, uma vida tranquila, etc. Logo, automaticamente, imputamos isso ao Reino. Achamos que, alguém abençoado por Deus e amado por ele, necessariamente se enquadrará nessas características.
Perceba: não estamos dizendo que alguém com muito dinheiro, uma vida tranquila e etc. não seja abençoado e amado por Deus. O problema é só pensar dentro dessa caixinha, pensar que qualquer pessoa fora dessa descrição não está sob a bênção divina.
Deixa eu te dar um exemplo. João Batista era filho do sumo-sacerdote Zacarias. Ele seria o próximo na linhagem para servir no Templo. Ele tinha tudo para ter uma vida "normal", tranquila, em "paz". Porém, João Batista preferiu viver no deserto, comendo mel e gafanhoto, trocou a bela túnica sacerdotal por roupas de pele de camelo. Por fim, a cabeça de João Batista foi parar numa bandeja de prata.
Alguém diria que essa foi uma história de sucesso?
Mas, pra Deus, foi.
E, voltando naquela história dos amigos de Deus, olha o que Jesus disse sobre João Batista:
"Eu vos afirmo que dentre os nascidos de mulher não há um ser humano maior do que João. Todavia, o menor no Reino de Deus é maior do que ele."
(Lucas 7:28)
Que moral, hein?!
Este era um amigo de Deus. E olha como Deus o tratava! Santa Teresa tinha razão.
Mas é melhor assim do que viver confortavelmente no inferno.
"Uma masmorra com Cristo é um trono, e um trono sem Cristo é um inferno", conforme as palavras de Martinho Lutero (1483-1546).
O profeta Jonas também era amado por Deus. Tem um livro só dele na Bíblia. Mas ele passou três dias de terror dentro de uma baleia. Às vezes a gente se baseia naqueles desenhos de ministério infantil e achamos que Jonas foi bonitinho dentro do ventre da baleia, sentado, amarrado com cinto de segurança e um sorriso no rosto. Meu amigo, Jonas estava na BARRIGA DE UMA BALEIA. Um lugar escuro, sem oxigênio, com fezes e restos de comida, ácido estomacal, sendo jogado de um lado para o outro por causa do movimento do animal no mar... e isso durante 3 dias! Em suma, Jonas viveu 3 dias de terror!
Mas, ali, Jonas estava exatamente onde Deus queria que Ele estivesse.
É melhor estar na barriga de uma baleia durante três dias e essa ser a vontade de Deus do que estar numa mansão a vida inteira e não for a vontade de Deus.
O salmista entendeu isso: "Melhor é um dia nos teus átrios do que mil em outro lugar; prefiro ficar à porta da casa do meu Deus a habitar nas tendas dos ímpios" (Salmos 84:10).
Quando entregamos o controle da nossa vida pra Deus, essa é a melhor decisão que podemos tomar.
O profeta Ezequiel descreve uma visão na qual ele estava no mar, e ali havia diferentes níveis de água. Primeiramente, as águas batiam nos tornozelos. Depois, nos joelhos. Depois, na cintura. Por fim, as águas só podiam passar nadando (cf. Ez 47:3-5). Nas Escrituras, a água é um símbolo do Espírito. Ou seja, aplicando essa visão, nós decidimos em qual nível de relacionamento queremos estar com Deus: nós no controle ou Ele no controle. As águas batendo nos tornozelos, joelhos e cintura, o homem está no controle, porque ele pode andar à vontade, sair da água, entrar na água. Agora, a partir do momento em que as águas submergem, o controle já não está mais com o homem, mas com as águas (Espírito).
Pedro era um cara explosivo, impulsivo. Era o primeiro a falar, o primeiro a se oferecer, o primeiro a tirar a espada da bainha. Até o dia em que Jesus falou pra ele: "Quando eras mais jovem, tu te vestias a ti mesmo e ias para onde desejavas; mas quando chegares à velhice, estenderás as mãos e outra pessoa te vestirá e te conduzirá para onde tu não queres ir" (João 21:18). Isto é, enquanto Pedro era ainda imaturo espiritualmente, ele decidia o que fazia da vida. Depois de maduro, ele seria levado pelo Espírito Santo.
Assim é conosco. Enquanto somos imaturos, Deus é aquele a quem pedimos pra assinar embaixo as nossas decisões. Pedimos pra Ele realizar os nossos sonhos. A Bíblia é um livro de autoajuda que de vez em quando damos uma olhada.
Depois que amadurecemos, entendemos como C.S. Lewis: "Se Deus tivesse atendido todas as orações tolas que eu fiz na minha vida, onde eu estaria agora?"
Entendemos que Deus destrói sonhos para que os sonhos dEle sejam realizados em nossa vida.
E a Bíblia se torna um pão diário, uma bússola, lâmpada para os meus pés.
Ser amigo de Deus não é moleza.
Mas, pra onde iremos nós?...
— APOIE: pedroquintaojf@gmail.com (PIX)
(Referência bibliográfica: https://comshalom.org/amor-e-costume-uma-experiencia-com-santa-teresa-de-jesus/)
(Imagem: "The Head of St John the Baptist", 1630, por Domenico Zampieri)
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