DAVID HUME E O CONHECIMENTO

Se no método cartesiano tudo o que é evidente é verdadeiro, porque Deus não nos engana, David Hume oferece uma outra perspectiva para o conhecimento.

Para Descartes, a partir do método (“caminho”, em grego) da dúvida, o homem pode progredir e dominar a natureza, analisando-a por exemplo a partir da Matemática. O papel da experiência é praticamente nulo. Afinal, a partir da divisão, do enumerar e fazer a síntese, poder-se-ia chegar ao conhecimento. Trata-se do racionalismo (o verdadeiro conhecimento é o da razão). Ademais, Descartes também era idealista, isto é, o homem é o construtor/sujeito do conhecimento, sendo que essa construção do conhecimento está ligada ao “eu” subjetivo, não querendo dizer portanto que o mundo corresponda a tal construção.

Kant, no idealismo alemão, seria uma continuidade desse pensamento de Descartes. Todavia, Hume é a ruptura.

No filósofo escocês, há a perspectiva do conhecimento a partir da experiência, sem nenhum a priori religioso ou filosófico, mas simplesmente olhando as coisas no seu funcionamento.

Em Hume, a experiências são os sentidos. Você acumula experiências. Ou seja, se você não tiver experiências, você não conhece, pois as experiências são justamente a “cola” dos estímulos que recebemos a todo tempo. Portanto, associamos experiências de maneira psicológica e segundo uma ordem arbitrária, mediante associações de memórias – por isso ele é considerado um precursor de Freud, que justamente investiga essas associações psicológicas.

O hábito é um processo psicológico. Afinal, se o nosso conhecimento é acumulação de experiências, ele funciona de acordo com leis psicológicas. Por exemplo, se todo dia ocorre o pôr-do-sol, isso não se dá por uma lei natural, mas percebo-o pelo hábito, e se torna uma verdade para mim por causa do hábito, pois, se eu residisse em outra localidade, o pôr-do-sol diário não seria algo da minha experiência.

Isso também contrapõe uma visão religiosa que liga um ponto A até um ponto B, do tipo: “Se eu orar, viverei o milagre”. Na narrativa bíblica, os amigos de Jó cometeram esse equívoco: relacionaram as adversidades que Jó estava vivenciando a um pecado que por ventura ele tivesse cometido. Se as coisas são explicadas pela experiência e pelo hábito, não há uma lei externa que seja a última palavra – ou sequer que exista.

No livro “Chega de Regras”, Larry Crabb aborda essa questão de uma pressão que nos coloca no centro, mediante essa mentalidade de “faça A para chegar a B”:


“Os que vivem no novo caminho crêem na ‘lei da liberdade’. Eles se aproximam como estão. Não se banham antes de se achegar a Deus. Vão a Deus para se banhar dele. Não se sentem pressionados para mudar apenas a vida interior ou a exterior, mas desejam mudança em ambas as esferas. Estão interessados em criar a oportunidade para a mudança, mesmo que isso signifique mergulhar sete vezes num rio lamacento ou marchar ao redor do muro de um inimigo durante sete dias e soprar trombetas. Eles vivem para o desejo mais sincero de seus corações: conhecer a Deus e satisfazer-se nele. Não vivem para uma vida melhor neste mundo. Quando a vida aqui é difícil, quando as coisas desmoronam, revelam mais claramente quem são. São cidadãos de outro mundo, que desejam mais o que está do outro lado que este mundo não pode oferecer. Então, sabiamente, se entregam ao seu mais profundo desejo e confiam em Deus para revelar-se a eles. Essa é a ‘lei da liberdade’. Quase todos estamos vivendo no antigo caminho. Alguns sentem o vazio que ele nunca enche. Trabalhamos duro para fazer a vida funcionar, a fim de nos sentirmos bem. A pressão está ligada. Há um novo estilo de vida que remove a pressão.”






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