DEUS E DESCARTES

Em René Descartes (1596-1650), a natureza é algo mecânico, e quando isso é pontuado, um pé é colocado para fora da Idade Média - e, por isso, o filósofo francês é considerado o pai da Modernidade, período que sucedeu o medievo.

Não trata-se de um rompimento, vale ressaltar. Afinal, Descartes (que fora educado em colégio jesuíta) afirmaria em uníssono com São Tomás de Aquino: Deus criou o mundo a partir de princípios matemáticos.

A novidade em Descartes em relação ao monge dominicano é que este enxergaria um limite na razão natural, sendo a revelação aquela que continuaria o voo até Deus, enquanto aquele entenderia o cosmos como algo a ser dissecado – tal como ele era taxidermista –, inserindo portanto a Ciência no lugar da Teologia.

Por exemplo, Descartes acreditava em alma. Mas, para ele, o corpo é um mecanismo, havendo nesse sentido uma explicação hidráulica, contrapondo a visão da alma que move o corpo, oriunda da visão tomista (lendo Aristóteles) de Deus como primeiro motor imóvel. Em suma, o que “move” o corpo poderia ser explicado a partir de princípios biológicos, e não teológicos.

Perceba: não há uma negação à divindade, mas sim um ir além do dogmatismo. Se a alma move o corpo, como isso pode ser compreendido numa perspectiva científica, com explicações científicas, para além das teológicas?

Em outro coro com São Tomás, Descartes diria em suas “Meditações” que tudo o que é evidente é verdadeiro, porque Deus não nos engana.

Enfim, pode-se afirmar que Descartes não promoveu uma ruptura com o pensamento medieval. Antes, ocorreu uma transição. O filósofo francês não negava Deus, mas vislumbrava nas ciências (Matemática, Biologia, etc.) um método para conhecer a realidade de Deus. Se a Teologia falava da alma, não havia a negação dela, contudo, a partir da dúvida, investigar-se-ia a respeito desse assunto, superando um eventual limite tomista por ventura estabelecido.






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