PROCESSO DE OBTENÇÃO "AD NAUSEAM"

"E — quem sabe? —, não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa senão que dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas, na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora. Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar. (...) Ele ama o ato de alcançar, mas, alcançar de fato, nem sempre."

(DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo. São Paulo: Editora 34, 2009 [6ª edição]. 152 p. Pág. 47)


Mediante a vastidão de complexidades típica do ser humano, está posta uma outra: aquilo que Schopenhauer chamava de "ânsia de ter e tédio de possuir".

Muitas vezes o indivíduo quer pela vaidade de dizer que tem. Esse instinto ontológico ganha contornos mais incisivos se permeado de um contexto social que estimula o consumismo deliberadamente.

O objetivo final muda, isto é, o produto (seja ele qual for) varia, mas o processo de obtenção permanece "ad nauseam", porque a sede está justamente neste processo mesmo e, uma vez saciada, logo há de retornar.






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