SCHEINUNG

Do modo que Martin Heidegger (1889-1976) trabalha a fenomenologia, tem-se as seguintes manifestações do ser (utilizando os termos em alemão do livro “Ser e Tempo”):

1) Sich-zeigein: se mostra naquilo que é, se revela

2) Scheinung: parecer ser, se mostrar naquilo que não é

3) Erscheinung: manifestar-se, aparecimento, não mostrar-se

Nas palavras do filósofo alemão, “Na medida em que um fenômeno é sempre constitutivo do ‘aparecimento’, no sentido do anunciar-se por algo-que-em-si-mesmo-se-mostra, esse fenômeno pode por privação se modificar em aparência, e o aparecimento pode também se tornar mera aparência. Sob uma determinada iluminação pode parecer que alguém tem as bochechas vermelhas, podendo-se tomar o avermelhado que se mostra como anúncio da subsistência de febre, a qual seria por sua parte indício de uma perturbação no organismo” (p. 109).

Nesse sentido, utilizando um referencial do campo teológico (o qual Heidegger tinha familiaridade, pois estudou quatro semestres na Faculdade de Teologia da Universidade de Friburgo, no período 1909-1911), por analogia o “scheinung” heideggeriano, isto é, o mostrar-se naquilo que não é, seria por exemplo a teofania da sarça ardente (cf. Êxodo 3:1-4).

Afinal, Deus mostrou-se a Moisés (e, por conseguinte, a posteriori mediante a revelação codificada na Torá) não no sentido “sich-zeigen”, o ser como ele é (numa compreensão da Trindade imanente de Karl Rahner, teólogo alemão do século XX), mas sim enquanto “scheinung”, mostrando-se na sarça ardente, ou seja, naquilo que não era, pois Deus não era a sarça, mas através dela mostrou-se.



(Referências bibliográficas: Livro “Ser e Tempo”, de Martin Heidegger; https://nepefe.fe.ufg.br/p/3702-martin-heidegger-vida-e-obra)

(Imagem: “Burning Bush”, por Sébastien Bourdon. Século XVII)






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA