HÁ MAIS UM MOVIMENTO

Os inquisidores da mulher adúltera da história relatada pelo apóstolo João no capítulo 8 de seu evangelho são os religiosos, que deveriam estar com as mãos estendidas, porém, essas mesmas mãos estavam sendo usadas para segurar pedras acusatórias.

A graça de Deus é um escândalo.

No livro "O Evangelho Maltrapilho", Brennan Manning escreve (pág. 25): "A graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é de presente. Tudo de bom é nosso não por direito, mas meramente pela liberdade de um Deus gracioso. Embora haja muito que podemos ter feito por merecer - nosso diploma e nosso salário, nossa casa e nosso jardim, uma garrafa de boa cerveja e uma noite de sono caprichada - tudo é possível apenas porque nos foi dado tanto: a própria vida, olhos para ver e mãos para tocar, mente para formar ideias e coração para bater com amor".

O ladrão na cruz reconheceu a Cristo como seu único e suficiente Salvador nos 45 do segundo tempo. Para muitos, ele não tinha mais jeito. Afinal, estava sendo ali condenado, pagando por algum delito cometido. Não tinha sido um dos seguidores de Jesus, não tinha feito nenhuma obra, não era um "santo" como os religiosos que queriam lançar pedras na pecadora. Mas, mesmo nos últimos suspiros, ouviu do Mestre de que ainda naquele dia ambos estariam juntos no Paraíso. O mesmo Mestre que deu um novo começo à vida da mulher adúltera, fazendo as pedras caírem ao chão.

Há uma pintura denominada "Checkmate" ("Xeque-Mate"), de autoria do alemão Friedrich Retzsch, datada de 1831. Na obra, um homem joga xadrez com o diabo, sob o olhar atento de um anjo. Seu olhar desolado transparece uma derrota para o ser maligno. E durante anos a pintura foi assim interpretada (por isso ela se chama "Xeque-Mate"). Entretanto, eis que um dia um enxadrista profissional visualizou a obra e viu que, na verdade, o jogo não estava acabado. "O jovem ainda tem um movimento", disse ele, e pediu um tabuleiro para comprovar sua tese.

O que o diabo quer fazer é incutir na mente: "Acabou. Não tem mais jeito. Todas as chances já foram dadas e você desperdiçou. Eu venci". Talvez esse mesmo pensamento passou pela cabeça do filho pródigo, e por isso ele fez um discurso ao pai dizendo que não merecia estar ali por tudo o que ele havia aprontado. O pai, além de ir ao seu encontro antes mesmo do filho pisar em casa, não estava pensando no que seu amado havia feito, mas declarou: "Vamos fazer uma grande festa, porque meu filho que estava perdido voltou pra casa!" Assim como o pastor que deixou as 99 ovelhas no aprisco não ficou zangado com a ovelha perdida, porque o importante é que ela estava onde nunca deveria ter saído.

Enquanto há vida, sempre há mais um movimento a ser feito.



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(Imagem: "Xeque-Mate", por Friedrich Moritz August Retzsch. 1799)






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