A TENSÃO DA FINITUDE E INFINITUDE

"Eu sou para mim mesmo um problema... até que meu coração repouse em Ti", escreve Santo Agostinho no Livro XI das "Confissões".

A minha condição humana é de ser alguém desabrigado. Não posso fazer desse mundo a minha casa porque esse mundo é efêmero. Nós não podemos repousar em nada que seja finito ("até repousar em Ti").

Agostinho diz que nós somos e não somos ao mesmo tempo. Não temos uma estabilidade ontológica.

No Livro XII da "Cidade de Deus", é ponderado que nós somos seres morrentes. A vida é uma caminhada para a morte. E, por isso, há em nós o desejo do infinito. "Você nos fez em direção a Ti", afirma o bispo de Hipona.

Uma grande questão filosófica é: como algo finito tem desejo de infinito (não quer morrer) e reencontra com a infinitude?

"Senhor, tu que me conheces, permite-me conhecer-te; permite-me que te conheça 'plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido' (1Co 13.12)", conforme o Livro X, 1, das "Confissões".

Este "Que eu te conheça..." conota desejo, mobiliza a faculdade da vontade. Nada de finito pode nos trazer a quietude, tende (tensão a) à infinitude. Deus nos fez à imagem e semelhança dEle, nos fez em direção dEle.

Esta tensão entre o desejo de infinitude (o que em termos agostinianos consta por exemplo no "fizeste-nos em direção a Ti" e também no tocante à inquietude do coração) e o não-reconhecimento imediato do "telos" de tal desejo já é ensinado na Torá através do episódio da luta de Jacó com o Anjo (que pode ser interpretado como o próprio Deus demonstrando-se, isto é, o "scheinung" heideggeriano).

Não luta também o ser humano com o Infinito, apesar de nele haver o ímpeto direcional?

C.S. Lewis entende que "a história humana é a longa e terrível história do homem tentando encontrar outro além de Deus para fazê-lo feliz".

Portanto, a luta de Jacó contra Deus é a luta de todos nós ("homo") mediante a resistência que impomos à nossa natureza.


[Imagem: "Jacó Lutando Com o Anjo" (1865), por Alexander Louis Leloir]






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA