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Mostrando postagens de junho, 2022

SARTRE E O LIVRE-ARBÍTRIO

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Para o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, o ser humano é condenado a ser livre, e a liberdade reside em escolher e aceitar as consequências de nossos atos. Podemos ainda escolher não escolher; podemos simplesmente não agir, não fazer nada. Porém, ao fazer isso, já estamos escolhendo. Se o homem é livre para escolher, reside sobre si a responsabilidade por todo e qualquer ato. Uma indagação inicial é: até que ponto vai essa liberdade humana? Para o teólogo João Calvino, o homem não possui tamanha liberdade uma vez que é afligido pela “depravação total”. Para ele, a depravação é “total” no sentido de que afeta todas as partes de nosso ser — não somente o corpo, não somente as emoções, mas igualmente a carne, o espírito, a mente, as emoções, os desejos, os motivos e a vontade, juntos. Não somos tão maus quanto podemos ser, mas isso acontece apenas por causa da graça restringente de Deus. Nós mesmos somos totalmente corruptos, porque de uma maneira ou de outra o pecado contamina tu...

O SIMBOLISMO POLÍTICO NA RELAÇÃO IGREJA-ESTADO

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Um dos pilares argumentativos do raciocínio político do filósofo e teólogo católico francês Blaise Pascal (1623-1662) é de que, para os governantes conseguirem levar a cabo a tarefa de justificar a manutenção de seu status (em outras palavras, legitimar o poder), a ferramenta para tanto seria o espetáculo. No raciocínio pascaliano, assim como os juízes e os médicos — que vestem roupas pomposas para ratificar a compreensão de que eles têm a ciência que seus postos predispõem (o que, para o filósofo em questão, não passava de uma farsa, pois estavam longe de possuir o conhecimento que aparentavam ter) —, os governantes rodeiam-se de toda parafernália possível para, desta maneira, impressionarem o comum dos homens. Na Torá, o profeta Samuel unge o pastor Davi como rei da nação de Israel (cf. 1 Sm 16:13). Já no Novo Testamento, o apóstolo Paulo argumenta que “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem fora...

ANGÚSTIA E BUSCA DE SIGNIFICADO EM KIERKEGAARD

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O teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) debruçou-se acerca da questão da angústia e busca de significado. Pudera, o chamado “Pai do Existencialismo” chegou a cursar teologia e filosofia da Universidade de Copenhague, a partir de 1830. Sendo a angústia um tema do universo de preocupação teológico, é mais do que justificável a dedicação e labor intelectual de Kierkegaard neste quesito. Para Kierkegaard, há ao menos quatro estágios para a busca de significado e, consequentemente, supressão da angústia no ser (o que veremos, ao chegar no quarto ponto, que se trata de algo impossível de erradicar). O primeiro seria a sensação (do grego “aisthésis”). Outrora, a busca pela sensação (ou impacto estético) se daria no Coliseu, onde o povo se distraía mediante a política do “Panem te circenses” no auge do Império Romano. Posteriormente, já numa era pós-moderna, poderíamos usar como metáfora a figura do Homer Simpson vegetando diante de sua televisão. Ou então uma viagem que proporcion...

APARENTES CONTRADIÇÕES NOS ATRIBUTOS DIVINOS

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Karl Barth foi um teólogo reformado suíço que é muitas vezes considerado o maior teólogo protestante do século XX. Sua influência expandiu-se muito além do domínio acadêmico, chegando a incorporar a cultura, o que levou a Barth ser apresentado na capa da revista Time em 20 de abril de 1962. Ele definia Deus como “o totalmente Outro”, isto é, o Ser divino consiste em alguém integralmente além do que possamos definir com palavras ou mediante a lógica humana. Tal característica explica o porquê Deus pedira para Abraão subir ao Monte Moriá e sacrificar Isaque, o filho da promessa - o que sabemos que não foi consumado, pois o intuito divino seria averiguar até onde ia a fé daquele que seria chamado justamente de “Pai da Fé” (cf. Gênesis 22). Dito isso, podemos inferir que demasiados aspectos que integram a natureza divina podem nos parecer impactantes e conflituosos à primeira vista. Um claro exemplo é quando Jesus é chamado de Cordeiro de Deus em João 1:29 e João 1:36 (em alusão ao fato de...

A RAZÃO COMO ATRIBUTO DIVINO

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Os atributos de Deus nos são revelados nas Sagradas Escrituras e também podem ser constatados mediante a observância do cosmos. Ora, se os atributos revelados na Palavra não pudessem ser ratificados através da experimentação do que existe, logo tais atributos seriam subjetivos de um Ser que se dá a conhecer apenas por meio da retórica. Vejamos o que o apóstolo João nos revela a respeito de um atributo divino mister: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (João 1:1-3) O “discípulo amado” argumenta que Jesus é o Verbo pelo qual o cosmos foi criado. No original em grego, a palavra utilizado para designar “Verbo” é “logos”. Este termo era muito significativo na cultura grega - a qual João estava inserido -, e foi aproveitado pelo apóstolo para classificar um atributo de Deus: a racionalidade. Para Heráclito, o “logos” é a razão que domina todo ...

IMAGÉTICA BÍBLICA E O APARELHO PSÍQUICO

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A literatura bíblica nos fornece episódios, figuras e locais de tamanho cunho extraordinário que desafia os limites de nossa mente e, por isso, suscita a imaginação. O profeta Ezequiel descreve a visão de um ser angelical: “Cada um dos querubins tinha quatro faces: Um rosto se assemelhava ao de um boi, isto é, querubim; o segundo, de um homem, o terceiro de um leão, e o quarto, de uma águia.” (Ez 10:14) Não diria que jamais ser humano algum teve a oportunidade de vislumbrar tão magnífico ser, pois dessa forma desprezaria as experiências de fé registradas nas Escrituras e ao longo da História. Todavia, certamente não se trata de algo que faça parte do cotidiano, do viver ordinário e da ótica de todo e qualquer indivíduo. E qual seria o motivo de tais elementos imagéticos serem tão díspares do que estamos familiarizados? Karl Rahner, um dos mais influentes teólogos do século XX, elaborou o conceito acerca da Trindade Imanente e Trindade Econômica. A primeira seria o Pai, o Filho e o Espí...