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Mostrando postagens de dezembro, 2022

JOSEPH RATZINGER: UM SÓLIDO LEGADO TEOLÓGICO

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Há aqueles que nunca morrem, pois seu legado permite com que sua voz ecoe perpetuamente, de geração em geração. É o caso de Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, que foi para os braços do Senhor nesse último dia do ano de 2022, aos 95 anos de idade. Tenho muito apreço pelo teólogo alemão, pois comecei a estudar sua obra na faculdade e permaneço nesse propósito até os tempos atuais. Quando se fala em Ratzinger, o primeiro conceito que me vem à mente é o zelo pela ortodoxia, pela sã doutrina da Igreja, o apreço à verdade das Escrituras. Ele defendia o posicionamento que “a cristologia é falseada quando não chega a ser ‘teo­-logia’”. Por isso, parte sólida de sua obra era uma “tentativa de apresentar o Jesus dos evangelhos como o Jesus real, como o ‘Jesus histórico’ em sentido verdadeiro e próprio”. Durante sua trajetória de vida e pontificado, Joseph Ratzinger teve que lidar com inúmeras tensões teológicas, com destaque para o equilíbrio entre a ortodoxia e a práxis. Como dedicar-s...

NATAL

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– No 26° ano do reinado de César Augusto, um certo grupo de astrólogos e pastores chegavam e batiam na porta da casa de uma pobre família em Nazaré. Havia lá uma jovem com seu filho, filho este que foi presenteado com incenso, ouro e mirra. Nascia Jesus de Nazaré, e é presenteado pelos chamados Magos do Oriente. – E é até engraçada a história de que Jesus nasceu mais ou menos em 4 a.C. porque contaram errado a primeira vez, e então colocaram como “zero” o nascimento de Jesus, aí foram contando, e descobriram que na verdade Ele não nasceu no “zero”, mas sim 4 anos antes, e não dava mais pra mudar nada. – Curiosamente, essa relação entre presentes e o nascimento de Jesus é uma coisa bem antiga no cristianismo e gera polêmica já desde o começo das coisas. Os primeiros cristãos achavam um pouco estranho essas festividades em comemoração ao nascimento da pessoa de Jesus, e acabavam não vendo muita diferença entre esse tipo de celebração e a celebração a algum governante pagão. Orígenes, o t...

IDENTIDADE

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Jesus foi um mestre da Palavra, mas até os 30 anos Ele trabalhou como carpinteiro – seguindo o ofício do seu pai. Martin Luther King foi um grande ativista político, mas ele também era pastor batista. Sócrates, jogador do Corinthians e da Seleção Brasileira, era formado em Medicina. Brian May é guitarrista e compositor da lendária banda britânica de rock Queen, mas também é astrofísico. Inclusive, em 2015 o músico foi convidado pela NASA para conhecer a equipe responsável pela sonda que visitou Plutão, a New Horizons, e interpretar junto dela alguns dos dados recolhidos pela sonda. Muitas vezes a sociedade nos impõe rótulos. “Você tem que ser isso”, “você tem que ser aquilo”. Por isso, em diversas ocasiões nos vemos entre a “cruz” e a “espada”, isto é, entre escolher uma coisa ou outra, e talvez a deixar para trás uma paixão. Mas quem disse que só podemos escolher uma paixão? Por que não duas? Três? Ou até mais? Por que temos que ter um rótulo colado na nossa testa? Wendell Carvalho, e...

CREDO UT INTELLIGAM, INTELLIGO UT CREDAM

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O arcabouço da fé possui essencialmente o dado racional. Sem ele, estar-se-ia afirmando que a “Fides qua” é produto do imaginário humano. Na encíclica “Fides et Ratio”, de 14 de setembro de 1998, o Papa João Paulo II disserta: “A fé e a razão (‘fides et ratio’) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).” A racionalidade seria aquele passo que se dá rumo ao conhecimento mais completo acerca da Trindade. Constitui-se nas palavras de Jó acerca do conhecer a Deus a partir de si mesmo, e não apenas com base na experiência alheia. É evidente que o assombro aristotélico ocorre mediante a contemplação da natureza divina. Todavia, o ímpeto consecutivo ao assombro faz-...

ASSOMBRO

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Ratificando a insuspeição da tese elaborada por Charles Darwin, o que fundamentalmente difere o “Homo sapiens” de todos os seus ancestrais consiste no assombro aristotélico. Não mais a caça e coleta satisfaziam a cotidianidade, mas urgiu a organização da miríade de elementos que se apresentavam no cosmos mediante e posteriori à perscrutação. No mesmo quesito do relato no בְּרֵאשִׁית (bereshit), sendo o homem proveniente dos próprios moldes criacionais que advém da Transcendência, o conceito da razão está intrinsicamente associado ao “imago Dei”, e não ao רוּחַ (ruah ou ruach), pois esta força vital também se fez presente na agitação da superfície das águas, sendo portanto não exclusivamente legado “Solus homini”, mas compartillhado com demais quadrúpedes, répteis e “cyclus naturalis”. Segundo Aristóteles, a humanidade encontra-se como imersa num oceano de “veritas”, sendo que é ontológico ao indivíduo a capacidade de decodificação do que se desvela. Todavia, nessas muitas águas, faz-se...

PROTOEVANGELHO

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O termo “protoevangelho” oriunda da língua grega, sendo que “proto” significa “primeiro (a)” e “euangelion” refere-se a “boas notícias” (originalmente, as boas notícias da vitória militar trazida de um mensageiro ao seu comandante. Em seguida, passou a significar simplesmente uma mensagem “boa”, como o arauto que caminhava pelo império anunciando as boas-novas de César). Na Teologia, considera-se protoevangelho toda perícope da Bíblia Sagrada que realiza uma referência direta ao que seria revelado nos evangelhos sinóticos e joanino a respeito da vida e obra de Jesus de Nazaré. Um exemplo: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o descendente dela; porquanto, este te ferirá a cabeça, e tu lhe picarás o calcanhar.” (Gênesis 3:15) Nessa passagem do primeiro livro da Torá, a serpente seria a personificação do mal. Mediante o pecado do homem, houve início uma inimizade entre este mal a toda a raça humana (descendência de Eva), de modo que o ocorreu a perda p...

INGLÓRIA BATALHA | dissertação sobre temática abordada por Olavo de Carvalho

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“É que se tornou impossível examinar este país sob a ótica da filosofia política, a qual pressupõe, nos agentes do processo histórico, um mínimo indispensável de consistência, de realidade, de substancialidade. No Brasil de hoje tudo é simulação, e o único enfoque viável para estudar um caso desses é o da psicopatologia social, porque aí todas as conexões observáveis entre pensamento e realidade, entre vida interior e conduta exterior, são mesmo convencionais e fantasiosas.” (CARVALHO, Olavo de. Zero Hora, 29 de junho de 2003) Faz-se notável observar que o professor Olavo, utilizando o método aristotélico da teorética (com o filósofo-mór devidamente representado por Rafael Sanzio com a palma da mão voltada para o solo, visando a realidade – metafísica ou material), mediante a circunspecção do difuso cenário sócio-político brasileiro, faz uma retórica indagação: é possível aplicar as técnicas da ciência neste pérfido panorama? Ora, a filosofia esmera-se em fitar a realidade com os olhos...

DEUM ET HISTORICUM

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Mediante a devida averiguação de uma Teologia Sistemática, vê-se que o Deus que revelou-se a Abraão – revelação esta que dar-se-ia de forma documental a partir da liderança mosaica – detém um peculiar interesse no quesito da historicidade. O cosmos, oriundo do “בָּרָא” (bará) divino relatado em Gênesis, outrossim é regido e, de certa forma, habitado pelo seu Criador. Pois ainda que as Escrituras dissertem acerca de uma “morada celestial” (cf. Isaías 40:22), portanto díspar de uma realidade terrena, por ter a onipresença como atributo Deus não se limita a esta morada – ainda que haja um ponto incisivo dessa mesma presença. Na literatura joanina, Yeshua é revelado como o “Logos” [“λόγος”] (que, em tradução da língua grega, consiste no “Verbo”). Para Heráclito, o “logos” é a razão que domina todo o universo e que faz possível a existência de ordem e regularidade no acontecimento das coisas. Para o filósofo, “logos” também está presente em nós e que deve servir para guiar-nos na nossa cond...

“NÃO VIVO MAIS EU, MAS CRISTO VIVE EM MIM”

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“Fui crucificado juntamente com Cristo. E, desse modo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E essa nova vida que agora vivo no corpo, vivo-a exclusivamente pela fé no Filho de Deus, que me amou e se sacrificou por mim.” (Gálatas 2:20) Este é um dos versículos mais poderosos da Bíblia. Morrer para si mesmo e deixar Cristo viver é o melhor remédio contra a opinião alheia, contra travas mentais/psicológicas e contra o desânimo na caminhada e na missão. Jesus foi condenado à cruz por conta de uma tramoia dos judeus com Pilatos, governador da Judéia (lembremos que Israel vivia sob o domínio do Império Romano na época). Se hoje nós cristãos comemoramos a Páscoa para celebrar a ressurreição de Cristo, os judeus também comemoravam a Pessach (“passagem”, em hebraico) para rememorar a passagem do povo hebreu do Egito rumo à Terra Prometida. E, devido à celebração, Jerusalém estava lotada de judeus do mundo inteiro. Portanto, uma vez que o rótulo de “revolucionário” pegasse em Jesus (...