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Mostrando postagens de setembro, 2025

AMIGO DE DEUS

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Tem uma cena no filme "As Aventuras de Pi" (2012) na qual o protagonista está no seu barco em alto mar, em meio a uma tempestade tremenda, e ele brada aos Céus: "Louvado seja Deus! Senhor de todos os mundos! O compassivo, o misericordioso! Ah, meu Deus! Eu perdi minha família! Eu perdi tudo que eu tinha! Eu me rendo! O que mais você quer?!" Isto fez-me lembrar de uma conversa que Santa Teresa d'Ávila teve com Deus. "Senhor se estou cumprindo tuas ordens, por que tenho tantas dificuldades no caminho?" Deus respondeu: 'Teresa não sabes que é assim que trato meus amigos'. Teresa, por sua vez, replicou: 'Ah, Senhor então é por isso que tens poucos amigos'." Uma grande falha nossa é querer inverter o que diz no livro do Gênesis: ao invés de nós sermos imagem e semelhança de Deus, fazemos Deus à nossa imagem e semelhança. Isso quer dizer que imputamos a Deus os nossos próprios pensamentos e expectativas. Por exemplo, como vivemos numa er...

A "ALETHEIA" EM HEIDEGGER

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Em sua obra "Ser e Tempo", o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) disserta (Pág. 115. Editora Unicamp/Editora Vozes): "Assim, tudo aqui consiste em ficar livre de um conceito de verdade construído no sentido de uma 'concordância'. Essa ideia não é de modo algum primária, no conceito de ἀλήθεια. Ο 'ser-verdadeiro' do λόγος como ἀληθεύειν significa: no λέγειν como ἀποφαίνεσθαι, tirar o ente 'de que' se fala do seu encobrimento, fazendo-o ver como não-encoberto, 'descoberto' (ἀληθές)." Isto é, se há no senso comum e em aspectos da tradição filosófica a concepção da verdade como conceito de concordância entre a mente e a coisa, Heidegger não discorda, pois a ciência experimental vai trabalhar dessa forma, mas do ponto de vista ontológico é pontuado a verdade como "alḗtheia" (mostrar-se, desvelar-se). Em suma, a verdade não está no fim do processo (quando, por exemplo, elabora-se uma teoria), mas no início. Nesse sentido,...

DAVID HUME E O CONHECIMENTO

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Se no método cartesiano tudo o que é evidente é verdadeiro, porque Deus não nos engana, David Hume oferece uma outra perspectiva para o conhecimento. Para Descartes, a partir do método (“caminho”, em grego) da dúvida, o homem pode progredir e dominar a natureza, analisando-a por exemplo a partir da Matemática. O papel da experiência é praticamente nulo. Afinal, a partir da divisão, do enumerar e fazer a síntese, poder-se-ia chegar ao conhecimento. Trata-se do racionalismo (o verdadeiro conhecimento é o da razão). Ademais, Descartes também era idealista, isto é, o homem é o construtor/sujeito do conhecimento, sendo que essa construção do conhecimento está ligada ao “eu” subjetivo, não querendo dizer portanto que o mundo corresponda a tal construção. Kant, no idealismo alemão, seria uma continuidade desse pensamento de Descartes. Todavia, Hume é a ruptura. No filósofo escocês, há a perspectiva do conhecimento a partir da experiência, sem nenhum a priori religioso ou filosófico, mas simpl...

A CONCEPÇÃO DO SUJEITO EM KANT

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A concepção a respeito do “sujeito” atinge a sua maturidade em Immanuel Kant (1724-1804). Por que não seria em René Descartes (1596-1650)? Este ainda trabalhava no sentido de sujeito + Deus. Afirmava que a mente pode captar a realidade, portanto, era realista. Deus seria a garantia dessa possibilidade, a âncora da realidade. Sua construção a respeito do gênio maligno seria mais um argumento retórico. Agora, em Kant, todo o processo de Aristóteles (tudo o que vemos está no espaço, tempo, quantidade, etc. A inteligência apenas identifica/reconhece o que está na realidade – realismo) encontra-se no interior do homem. O mundo das ideias de Platão aliado à questão das reminiscências também está na interioridade. A mente é fruto não de Deus, mas de um processo biológico evolutivo (darwinismo). Dizem que Kant tirou Deus da sala (por, além do descrito anteriormente, ter separado a moral da religião, num sentido do utilitarismo), mas deixou a porta dos fundos aberta (sua mãe era protestante pie...

DEUS E DESCARTES

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Em René Descartes (1596-1650), a natureza é algo mecânico, e quando isso é pontuado, um pé é colocado para fora da Idade Média - e, por isso, o filósofo francês é considerado o pai da Modernidade, período que sucedeu o medievo. Não trata-se de um rompimento, vale ressaltar. Afinal, Descartes (que fora educado em colégio jesuíta) afirmaria em uníssono com São Tomás de Aquino: Deus criou o mundo a partir de princípios matemáticos. A novidade em Descartes em relação ao monge dominicano é que este enxergaria um limite na razão natural, sendo a revelação aquela que continuaria o voo até Deus, enquanto aquele entenderia o cosmos como algo a ser dissecado – tal como ele era taxidermista –, inserindo portanto a Ciência no lugar da Teologia. Por exemplo, Descartes acreditava em alma. Mas, para ele, o corpo é um mecanismo, havendo nesse sentido uma explicação hidráulica, contrapondo a visão da alma que move o corpo, oriunda da visão tomista (lendo Aristóteles) de Deus como primeiro motor imóvel....

"EGO COGITO" E A RESPONSABILIDADE DO PECADO

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Uma perspectiva de solução para o milenar debate teológico a respeito da Soberania Divina em tensão com a Responsabilidade Humana, finalmente, é vislumbrada. Se Deus predestina tudo, inclusive o pecado, mas de uma forma que o mal jamais é originado dele, tendo como causa eficiente (utilizando um termo aristotélico) os anjos ou os homens – grandes teólogos não esgotam essa questão, tratando-a como "mysterium fidei", a respeito da lógica do Deus predestinador mas não causador –, como poderia o ser humano ser responsável pela pecaminosidade? Conforme João Calvino (1509-1564), o cosmos seria o "theatrum gloriae Dei", evocando os dizeres do salmista: "Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir". Poder-se-ia recorrer adicionalmente a William Shakespeare (1564-1616): "O mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram e saem de...

ÉTICA

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Há três formas de categorizarmos a Ética, sendo elas: 1) Ética = Moral: quando "ética" é predicativo. 2) Ética = ciência da moral: a disciplina Ética (em latim, "scientia/ae" é conhecimento, certeza, o que é certo, por causas, que se universaliza, características racionais. Não é a ciência que vai surgir no século XVI que é a empiria). A moral como objeto da ética, e ética como teoria. 3) Ética = ciência da moral, mas recebe uma qualificação que a restringe: ética aristotélica, ética tomista, ética sartriana, etc. A disparidade essencial do ponto 2 para o ponto 3 seria que este trabalha os conceitos particulares sob o escopo dos conceitos universais, enquanto aquele lida com a universalidades. Nesse sentido, surge um problema: é possível estabelecer conceitos éticos universais sem um referencial normativo evidente? Ora, se o conceito universal por etimologia do termo possui aplicabilidade geral, logo, há de se ter uma referência comum/objetiva cujos conceitos oriund...

SCHEINUNG

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Do modo que Martin Heidegger (1889-1976) trabalha a fenomenologia, tem-se as seguintes manifestações do ser (utilizando os termos em alemão do livro “Ser e Tempo”): 1) Sich-zeigein: se mostra naquilo que é, se revela 2) Scheinung: parecer ser, se mostrar naquilo que não é 3) Erscheinung: manifestar-se, aparecimento, não mostrar-se Nas palavras do filósofo alemão, “Na medida em que um fenômeno é sempre constitutivo do ‘aparecimento’, no sentido do anunciar-se por algo-que-em-si-mesmo-se-mostra, esse fenômeno pode por privação se modificar em aparência, e o aparecimento pode também se tornar mera aparência. Sob uma determinada iluminação pode parecer que alguém tem as bochechas vermelhas, podendo-se tomar o avermelhado que se mostra como anúncio da subsistência de febre, a qual seria por sua parte indício de uma perturbação no organismo” (p. 109). Nesse sentido, utilizando um referencial do campo teológico (o qual Heidegger tinha familiaridade, pois estudou quatro semestres na Faculdade ...

PROCESSO DE OBTENÇÃO "AD NAUSEAM"

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"E — quem sabe? —, não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa senão que dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas, na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora. Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar. (...) Ele ama o ato de alcançar, mas, alcançar de fato, nem sempre." (DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo. São ...

BENEFÍCIO DA DÚVIDA

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Em meio a um vasto universo de certezas, a Filosofia surge (ou ressurge) como um bálsamo que permite o benefício da dúvida. Mediante uma miríade de convicções pétreas, a possibilidade das nuances apresenta-se tentadora. Quanto às certezas, não que o indivíduo por ventura não possa tê-las, todavia, não seria a postura socrática do abrir-se para contemplar as possibilidades algo bem-vindo? Entretanto, não intentemos que a Sabedoria (personificando-a como fizeram as Escrituras) guie-nos de forma retilínea para um utópico lugar no qual teremos todas as réplicas. Citando Dante, "Deixai toda esperança, vós que entrais", fazendo alusão à realidade infernal. Pois, talvez, para que as moradas interiores (utilizando o termo da teologia de Teresa D'Ávila) sejam devidamente edificadas, elas antes devam ser assoladas.

A UTILIDADE E A NÃO-UTILIDADE DA FILOSOFIA

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A produtividade nunca esteve tão em voga quanto neste alvorecer (que mais parece um crepúsculo) do século XXI. Na sociedade líquida denunciada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a demanda pela produtividade incessante trata-se de um alarmante sintoma. Estamos a tal ponto condicionados à produção a todo tempo (por obviedade do termo, não apenas no âmbito profissional, portanto) como estivera o personagem de Charlie Chaplin na película "Tempos Modernos". Confundimo-nos com a máquina, logo, a dimensão humana é diluída homeopaticamente. Nesta esteira, é natural que questionamentos a respeito da utilidade das coisas sejam levantados. Afinal, se tudo requer produtividade, quão seria útil efetuar algo que não se produz? Então, drasticamente, a Filosofia entra nesta mira. Afinal, este "amor pela sabedoria" não é algo seleto, mas como amor materno, abarca toda a possibilidade de sabedoria, onde ela por ventura possa ser encontrada e, ressalta-se, seja ela útil numa persp...

O QUE É REAL?

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Quem define o que é a realidade? O que é real? Logo, o que não é real? A Física Quântica vai trabalhar com a questão acerca da miríade de possibilidades que apresentam-se na realidade, sendo a visão do observador essencial para definir o que é a realidade para ele de fato. Nesse sentido, a realidade é plural, sendo unívoca tão somente na leitura efetuada pelo observador, evocando o experimento mental do gato de Schrödinger. Ainda no campo da Física Quântica, poder-se-ia citar ainda a teoria da realidade holográfica. Experimentamos apenas as partículas de uma estrutura maior, como numa caverna platônica? O olho humano absorve luz, sendo função do córtex visual no cérebro a formação das imagens. Logo, até que ponto vejo o que é e não o que está previamente estabelecido em meu arcabouço cognitivo? Utilizando uma referência da sétima arte, poderia ser a vida uma espécie de "Show de Truman" (1998), não apenas com um indivíduo na condição da vida que não é, mas toda a humanidade? R...

IMMANUEL KANT

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Tanto René Descartes (1596-1650) quanto Immanuel Kant (1724-1804) mudaram a forma como se concebe a possibilidade do conhecimento e a metafísica, mediante aquilo que o alemão chamou de Revolução Copernicana (tal como não mais a Terra estava no centro do universo, mas ela gira em torno do Sol, a partir de então a ideia do sujeito no centro e o conhecimento a orbitá-lo havia sido superado: o objeto estava no centro, e o sujeito ao seu redor). Todavia, fala-se mais de Kant em certa medida por ele ser mais recente do que Descartes e ter resolvido problemas éticos. O 3⁰ argumento ético da história é de Kant. Em Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), havia a ideia do bem supremo, o caminho da moderação em prol da felicidade. Em Kant, a ética não é a perseguição nem do bem nem da felicidade porque os dois são objetos dogmáticos (não tenho como ter certeza se existe bem, justiça ou felicidade), então preciso de uma ética analítica, que não precisa de nenhum objeto a ser perseguido; existe uma forma ...

SÓCRATES

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De propósito, Sócrates não escreveu nada. Utilizou somente o ensinamento oral, dialógico. Sabemos de Sócrates através de testemunhos, principalmente do seu principal discípulo Platão, que escreveu diálogos que chegaram a nós praticamente intactos. No período da juventude de Platão, o pensamento de Sócrates aparece de maneira mais evidente, evocando a influência do mestre no discípulo. Sócrates não foi uma invenção de Platão. Além de historiadores da época, Aristófanes também escreve sobre ele na comédia "As Nuvens", na qual Sócrates é apresentado como uma espécie de sofista, pelo fato de, assim como Platão, se posicionar num meio-termo: nem o extremo de manter toda a tradição mitológica (de Homero e Hesíodo), nem os sofistas. Mas, da mesma forma que era confundido com um sofista, o que levou Sócrates à morte foi a acusação de impiedade, de não respeitar a tradição mitológica, de não obedecer os deuses da cidade. Sócrates não se apresenta à cidade como "sábio", contr...

A COISA SINGULAR COMO PRIMÁRIA EM ARISTÓTELES

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Aristóteles passou 10 anos como aluno e 10 anos como professor na escola de Platão – posteriormente, viria a fundar sua própria escola, o Liceu. A academia platônica contratava pessoas com pensamentos diferentes de Platão. Inclusive, Aristóteles teve suas próprias discordâncias filosóficas com Platão. Afinal, o discípulo não apenas segue o mestre, senão é papagaio. Ele reconhece os limites e vai além. Para pensar é necessário que algo permaneça ("eidos" - ideia). Para Platão, a ideia é a verdadeira realidade (e "ideia" aqui não no sentido de pensamento proveniente da mente do indivíduo, mas sim "modelo"), e as coisas sensíveis são imitação da realidade. Essa seria a causa formal. Em outras palavras, para Platão a verdadeira realidade são as ideias, estas são os modelos das coisas que são, são as coisas universais. É "a cadeira", que permite chamar a cadeira singular de imitação da ideia "cadeira". Já Aristóteles inverte isso: a coisa si...

ESTEJAMOS PREPARADOS

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Sabe quando o professor fala mais de uma vez "isso aqui vai cair na prova"? O aluno que estiver esperto vai escrever algum sinal no caderno para estudar com afinco aquela matéria, não é mesmo? Agora, você sabia que a Bíblia bate na tecla a respeito de diversos assuntos? Bom, tudo na Bíblia é importante – até mesmo as genealogias, não pule elas! Porém, é interessante observar que há alguns pontos que a própria Bíblia enfatiza repetidamente. Um exemplo é a respeito da urgência do Evangelho (ou do Reino). Em outras palavras, a necessidade de estarmos preparados. Preparados para o quê? Vejamos o que o apóstolo Pedro escreve: "Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo." (1 Pedro 1:13) Como assim "cingindo os lombos do vosso entendimento"? O que Pedro quis dizer com isso? O apóstolo está fazendo teologia bíblica. Ele está pegando um conceito do Antigo Testame...

TEM ALGO ERRADO...

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C.S. Lewis certa vez disse: "O sofrimento é o megafone de Deus para um mundo ensurdecido". Quando o paciente vai no médico e este vai lhe fazer um exame, geralmente o profissional pergunta: "Está doendo?" Se o paciente fala que não, é um sinal verde pro médico continuar. Se o paciente fala que sim ou simplesmente diz "ai", é um sinal pro médico mudar a intensidade ou o método. Em suma, a ausência de dor nos deixa confortáveis, de que nada precisa mudar, está bom do jeito que está. É por isso que, em muitos cenários, a dor nos aproxima de Deus. Lewis acertou em cheio. Porque a dor faz a nossa ficha cair. Nos desperta. E desperta pra que? O despertador existe pra cumprir uma função, seja para anunciar a hora de levantar da cama, ou a hora de tomar um remédio. O despertador não desperta à toa. Então, a dor nos desperta para o quê? É simples: para a nossa necessidade de Deus. Irmãos, tem algumas passagens da Bíblia que acho que passamos batidos, que lemos mas ...